É difícil escrever sobre The National

A três dias do concerto tentamos escrever sobre The National.

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Se há temas sobre os quais é difícil escrever, as matérias do coração devem ser um dos maiores problemas. Enquanto se escreve com uma certa separação do assunto é possível fingir-se uma ideia de distância, um tratamento sintético do tema. O problema é quando escrevemos sobre algo que gostamos muito. Os exageros tornam-se parolos no texto, as declarações de amor ficam verdadeiramente xaroposas. É difícil escrever sobre o que se gosta muito, para mim é difícil escrever sobre The National.

Ao escrever sobre a banda, tenho de referir uma experiência sensorial que tive na primeira vez que os ouvi. Acho que corria o ano de 2009, já o Boxer tinha saído, foi uma mera recomendação de uma professora que tinha na altura. Foi nessa altura que esse mesmo disco se tornou um dos meus favoritos. Ainda é. A experiência sensorial de que falo foi uma noção clara de que a banda ia ficar comigo. Soube-o logo. Já o tinha vivido com algumas bandas da minha adolescência, que, ironicamente, ficaram mesmo. A diferença é que esta era uma banda de crescidos, a música fazia-me sentir, mas também me fazia pensar. Sabia que ia ouvi-los sempre que o tempo acinzentasse.

Os The National são um caso de sucesso no rock independente. Alguns chavões óbvios são a música para a campanha do Obama, bla bla, já toda a gente sabe isso, e que o vocalista alterna entre vizinho simpático no Upper East nova-iorquino, para monstro de palco com ajuda de uma garrafa de vinho tinto.

Para mim é a energia única da banda, assim como o seu misto de sensações entre o deprimido, frustrado e, em alguns raros vislumbres, glorioso, que justificam todo o seu sucesso. Era preciso captar a nossa energia de nos dedicarmos ao trabalho e querermos mais grana, mais felicidade, mais estatuto; de estarmos casados numa era em que toda a gente pode consumir porno; de vivermos numa cidade grande, mas termos de fazer um pouco de trânsito para se viver num sítio onde se consegue pagar a renda. Há tudo isto em The National. Uma grande tristeza, conclusões humanas sobre uma série de detalhes da nossa vida moderna.

No meio deste cocktail de elementos distintos está a capacidade lírica de Matt Berninger. O vocalista da banda lamenta-se em versos tão simples como “I simply cannot explain it/ any other, any other way” e é nestes momentos de complexidade e simplicidade que tu sabes que o coração se arrasta, que a atenção e emoção fica do lado da banda – a verdade é uma força brutal, os ouvintes de The National sabem que se vão deparar com ela ao longo de um disco – pode ser caricata ou implicar algumas conclusões sobre a nossa própria vida. São patetices como estas que elevam uma música a arte, uma banda a banda favorita.

A discografia da banda conta-nos um percurso elegante, uma evolução de disco para disco, uma mutação que não é transfiguração, é crescimento. O novo disco Sleep Well Beast é só mais uma palpitação neste batimento cardíaco cada vez mais acelerado, cada vez mais lento. O conceito inspirou uma identidade de marca da Pentagram. Os temas ganharam elementos novos, umas guitarras mais barulhentas, umas baterias mecânicas. “Turtleneck” é uma das faixas que mais me fascina, é dura. Um progresso idílico, um caminho que deve ser idealizado por uma série de bandas atuais, que terá um dos seus apogeus já no próximo sábado, dia 28.

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