A mudança no News Feed que pode redefinir o Facebook

Rede social está a testar em 6 países dois feeds distintos: o News Feed com conteúdos dos amigos e o Explore Feed para publicações de páginas.

Um feed para os amigos e para os anúncios; outro para as páginas. Esta separação do news feed está a ser testada pelo Facebook em seis países e, apesar de a empresa dizer não ter planos para estender esse teste, isso não significa que a alteração não possa ser lançada globalmente. Certo é que algumas publicações editoriais já ficaram nervosas.

Para muitos órgãos de comunicação social, o Facebook tem um peso importante como canal de distribuição dos seus conteúdos. E qualquer eventual mudança no esquema de funcionamento da rede social pode colocar em causa velhos hábitos. É certo que o Facebook é dono da sua plataforma e define as respectivas regras, mas muitos negócios – principalmente os mais pequenos – dependem dela, o que levanta questões pertinentes – se, por um lado, as publicações precisam de encontrar alternativas ao Facebook para sua salvaguarda, este seria um completo “mar vazio” sem os seus utilizadores e toda a sua actividade.

Filip Struhárik, jornalista do jornal eslovaco Denník N, partilhou no Medium que sessenta das maiores páginas de media da Eslováquia registaram 4 vezes menos interacções (reacções, comentários e partilhas) desde o início do teste, de acordo com dados obtidos através do serviço CrowdTangle. Filip fala numa “quebra drástica no alcance orgânico”, que entre quinta e sexta-feira passada diminuiu dois terços relativamente aos dias anteriores.

A Eslováquia é um dos países onde decorre o teste, como confirmou oficialmente o Facebook. A experiência está a ser feita também no Sri Lanka, na Bolívia, na Sérvia, no Guatemala e no Camboja. Nesses países, o tradicional News Feed passou a ter apenas conteúdos partilhados pelos amigos e publicações patrocinadas. Os conteúdos das páginas passaram para o Explore Feed, um novo feed que já foi lançado globalmente e que nos restantes países, incluindo Portugal, apresenta posts de páginas e pessoas que os utilizadores não seguem – escolhidos com base no que os algoritmos acham que pode interessar a cada pessoa.

Em comunicado, o Facebook explica que não prevê alargar este teste a mais regiões, mas não refere se esta separação em dois feeds distintos será ou não lançada para os seus dois mil milhões de utilizadores. No passado, outras funcionalidades foram testadas em apenas num grupo de países antes do seu lançamento global; é o caso do Facebook Live, lançado primeiro nos Estados Unidos; das reacções, teste do qual Portugal foi um dos mercados pioneiros; ou do Messenger Day, que apareceu primeiro na Finlândia.

“O objectivo deste teste é perceber se as pessoas preferem ter sítios separados para conteúdo pessoal e conteúdo público. Vamos ouvir o que as pessoas têm a dizer sobre esta experiência para perceber se é uma ideia na qual vale a pena insistir”, lê-se na nota divulgada pela empresa. “Tal como acontece com todos os testes que corremos, podemos aprender coisas novas que levem a testes adicionais nos próximos meses, para que possamos entender melhor o que funciona melhor para pessoas e editores.”

Nos testes que estão a ser realizados, o News Feed e o Explore Feed ganham o mesmo peso na interface do Facebook, aparecendo um ao lado do outro no menu. Em Portugal e nos outros países onde esta experiência não está activa pelo que o Explore Feed se encontra semi escondido entre as restantes funcionalidades da rede social.

Resta saber se o Facebook informou previamente as publicações e páginas dos países visados por este teste, tendo em conta a alteração profunda que o mesmo pode provocar nos seus negócio. Se a empresa quer melhorar a sua relação com jornalistas e editores, uma comunicação mais próxima é fulcral, caso contrário o Facebook pode cair no mesmo erro do YouTube. Estas duas plataformas, que se fartam de lucrar às custas dos seus utilizadores, são para muitos criadores de conteúdos os canais de que dispõem para distribuir esses mesmos conteúdos e onde alguns deles ganham os seus ordenados. O pouco diálogo do YouTube com a sua comunidade de criadores e as políticas dúbias da plataforma de vídeo, que alegadamente privilegiam as contas empresarias, têm incomodado alguns dos maiores youtubers.

Recentemente também o Facebook registou descontentamento por parte de alguns dos principais grupos de media, que abandonaram o formato Instant Articles por este não lhes dar o retorno que desejariam. Desde então, a rede social tem procurado melhorar a sua relação com os órgãos de comunicação social, tendo lançado o programa Facebook Journalism Project. Contudo, tal como no YouTube, neste programa destina-se sobretudo aos grandes grupos de media, os que provavelmente estão mais à vontade para investir e que representam por isso um maior retorno para a plataforma.