O Pensador perdeu a paciência e matou o presidente

Gabriel, o Pensador dá uma nova vida a um clássico com 25 anos.

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Gabriel, o Pensador é sempre uma referência quando se pensa na cultura brasileira das últimas duas décadas. Tanto pela habilidade enquanto MC que fez escola de um e de outro lado do atlântico, como pela forma peculiar como deu vida à língua portuguesa mas não só. Também a componente de relevância social coloca o trabalho de Gabriel, o Pensador num lugar de destaque. Assim, não só apreciadores de música como todos os que têm o olhar atento sobre o atlântico alinham com o Pensador.

A sua atitude descontraída e a sua mensagem sempre positiva tornaram-no num nome consensual mesmo entre aqueles que não apreciam por aí além a sua música. Entre os clássicos mais transversais conta com temas como “Cachimbo da Paz” ou como o single predecessor de todo o seu sucesso “Matei o Presidente”, que agora, passados 25 anos de carreira conhece nova roupagem.

Se tirando esse seu primeiro single a toada do rapper era pela paz, agora voltou a sacar das suas melhores armas e matar outro presidente. Há 25 anos o visado era Fernando Collor de Melo, presidente que acabou por ser afastado por impeachment confirmando a legitimidade das acusações do rapper, agora a arma aponta-se a Michelle Temer. A evolução da complexidade narrativa do rapper brasileiro é evidente nas duas réplicas. Se na primeira testemunhávamos uma ingenuidade e euforia típica dum jovem, nesta segunda edição Gabriel fala com outra propriedade e preocupação.

Para além de deixar claro, mesmo numa faixa com este título, a sua aversão às armas e a qualquer tipo de referência, dá lugar de destaque aos povos indigenas brasileiros – um elemento que não é novo à sua música – mas que reforça o posicionamento de Gabriel, o Pensador na oposição ao executivo de Michel Temer. O presidente interino do Brasil tem revertido políticas que reconheciam as comunidades nativas do Brasil. De resto, a notícia de que Temer liberalizaria a desflorestação da Amazónia terá sido a gota de água de motivação para que Gabriel reinterpretasse à luz dos dias de hoje este seu clássico.

Há 25 anos, “Matei o Presidente” conquistava os tops numa escalada ousada de um rapper independente que agitava o Brasil e despertava consciências até ser proibida. Em 2017 marca o retorno de Gabriel, o Pensador a um estilo mais reivindicativo de que já sentíamos algumas saudades. Com beat original de Papatinho e um vídeo realizado por PH Stelzer, “Matei o Presidente 2”, pode ser uma marcante manobra cultural de alcance político mas é também o celebrar de 25 anos de carreira e de uma postura exemplar.

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