A Google tem tanta responsabilidade que nem imagina

A plataforma AdWords estava a ser usada para clínicas especializadas angariarem clientes através de esquemas em que se faziam passar por serviços informativos independentes.

É difícil prever o impacto crescente das grandes tecnológicas na sociedade civil. O mais ínfimo pormenor de design, determinada funcionalidade ou uma nova regra no algoritmo podem ter consequências sociais graves junto de determinados grupos ou nichos. E às vezes só nos apercebemos disso depois.

Em Setembro, uma reportagem do The Verge pressionou a Google quanto à sua responsabilidade ética no que toca à venda de anúncios relativos tratamentos de adições de drogas. No caso, a plataforma AdWords estava a ser usada para clínicas especializadas angariarem clientes através de esquemas em que se faziam passar por serviços informativos independentes. No fundo, quem estivesse à procura de tratamentos de adição de drogas no Google Search encontraria linhas telefónicas de ajuda, supostamente isentas, através das quais os representantes comerciais estariam a reencaminhar os clientes para as suas clínicas. Clínicas pertencentes a grandes conglomerados, com capacidade financeira para investir valores elevados no AdWords.

Esse cenário, com o qual a Google naturalmente lucrava, tinha um impacto económico, no mercado em questão, mas sobretudo social. Por um lado, as clínicas mais pequenas não teriam o mesmo destaque no Google Search que as grandes, uma vez que não têm o mesmo dinheiro para investir em AdWords. Por outro, as pessoas que simplesmente estavam à procura de ajuda para tratar a sua adição a tentar ajudar um amigo/familiar não obtinham informação isenta, mas sim, acesso a um jogo viciado por quem tinha mais dinheiro.

Depois da reportagem do The Verge, a Google tomou rapidamente uma medida: banir toda a publicidade relativa a tratamentos de adição de drogas da plataforma AdWords. Se esta decisão retira a Google de qualquer ligação directa à venda de publicidade duvidosa, não resolve totalmente o problema. É que, mesmo sem anúncios, uma pesquisa por “drug treatment” continua a mostrar resultados orgânicos, que também são possíveis de serem enviesados. Por exemplo, Rehabs.com apresenta-se como um directório de clínicas, com classificações, críticas e artigos úteis, e figura, por isso, entre os primeiros resultados de pesquisa; contudo o portal pertence ao American Addiction Centers, um grupo com duas dezenas dessas clínicas.

A recuperação de adições durante a pior epidemia de drogas na história norte-americana deverá gerar 42 mil milhões de dólares em negócios até 2020, escreve o The Intercept. As seguradoras são obrigadas a cobrir o tratamento de abuso de substâncias ao abrigo do Acto de Assistência Económica, que pode chegar a custar 60 mil dólares por mês, fazendo de cada paciente extremamente lucrativo. Neste universo, importa referir que a maioria dos dependentes ou os seus pais – 61 por cento, de acordo com a Google, citado pelo jornal – usa a internet para encontrar ajuda.

Apesar das novas regras no AdWords, os resultados orgânicos do Google Search não foram o único sítio para o qual as clínicas de tratamento se terão virado. Algumas estarão a alterar números de telefone de restaurantes e cafés no Google Maps, num esquema que lhes permite redireccionar as pessoas para as suas linhas de apoio aparentemente independentes. Ao The Intercept, fonte da Google garantiu estar consciente deste comportamento abusivo e a trabalhar para erradicá-lo das suas plataformas.

A Google, explica o mesmo jornal, está a ter consultoria de um grupo sem fins lucrativos intitulado Facing Addicton na resolução destes problemas com os tratamentos de adição de drogas. Jim Hood, co-fundador e CEO da Facing Addiction, aplaude o interesse da Google em resolver estas questões e diz que a proibição dos anúncios foi um bom primeiro passo. É preciso fazer mais, acrescenta.

Se a Google quer ter todo o poder – e quer queira, quer não, tem-no neste momento –, precisa de estar ciente da responsabilidade pública que daí advém, remata o The Intercept no final.

“Com grande poder vem grande responsabilidade”, já dizia Voltaire… e o Homem-Aranha.