A história de assédio sexual que assombrou Hollywood e a internet

Para perceberes a dimensão do caso, importa dizer-te que Harvey Weinstein foi o homem à frente da Miramax, a produtora que vês no início do genérico de grande parte dos teus filmes preferidos.

 
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Nos últimos dias, o seu nome aparece-te cerca de 3 vezes por dia no feed. Provavelmente chamou-te mais à atenção a exaustão com que os medias têm tratado o assunto do que o protagonista em si, nome pouco conhecido por cá. Para perceberes a dimensão do caso, importa dizer-te que Harvey Weinstein foi o homem à frente da Miramax, a produtora que vês no início do genérico de grande parte dos teus filmes preferidos. Foi um dos produtores de cinema mais importantes dos últimos 25 anos, dominou a Academia e a corrida ao Óscar e a figura responsável por descobrir e lapidar diamantes como Quentin Tarantino.

A carreira que parecia intocável, que sobreviveu a alguns episódios mais agressivos e polémicos de má língua, ficou sem salvação na passada quinta-feira, quando o New York Times revelou que Weinstein fechou acordos financeiros com pelo menos 8 mulheres em casos de assédio sexual. E bastou que uma mulher viesse confirmar, para aparecer uma multidão, e não foi uma multidão qualquer.

Angelina Jolie, Meryl Streep e Gwyneth Paltrow são só alguns dos nomes mais famosos que vieram a público relatar experiências para lá de desagradáveis. A história cresce do assédio à violação em pelo menos três casos, entre eles o da actriz Asia Argento que, em 1997 com 21 anos, foi levada por outro produtor ao quarto de Weinstein. Ele aparece de robe: “Pediu-me para lhe fazer uma massagem. Eu disse-lhe que não era parva, mas, olhando para trás, fui parva e hoje ainda estou a tentar perceber o que aconteceu.” Argento contou ao The New Yorker que depois de ter aceite de forma relutante fazer a massagem, ele fez-lhe sexo oral depois de ela tentar sair e pedir-lhe repetidamente que parasse: “Ele assustou-me muito, é um homem enorme e não parava. Foi um pesadelo. A questão de ser uma vítima é que eu senti-me responsável. Porque, se eu fosse uma mulher forte tinha-o pontapeado e fugia. Mas não fiz isso. E senti-me responsável.”

Asia diz que nos meses seguintes Weinstein lhe enviou prendas e admite que chegou a aproximar-se do produtor física e emocionalmente a seguir ao episódio, que descreve como um trauma horrível. A actriz revela agora que sabia que essa aproximação ia ser usada contra si quando viesse a público contar a história. Diz que foi ameaçada de que a sua carreira seria destruída e que o seu silêncio foi comprado com ajudas financeiras numa altura em que não tinha trabalho. Em 2000, Argento divulgou Scarlet Diva, um filme que escreveu e realizou com base no que aconteceu entre si e Weinstein. Por ocasião das revelações, a actriz partilhou agora um excerto no seu Twitter.

Angelina Jolie conta que o episódio consigo aconteceu no final dos anos 90, durante o lançamento de Playing by Heart, quando Weinstein tentou avançar sobre si num quarto de hotel. A actriz refere que rejeitou e optou por nunca mais trabalhar com o produtor: “Eu tive uma má experiência com Harvey Weinstein na minha juventude, e como resultado, escolhi nunca mais trabalhar com ele e avisar outros do que ele tinha feito. Este comportamento com as mulheres em qualquer área de trabalho, qualquer país é inaceitável.” 

Meryl Streep, que funciona como uma espécie de porta-voz da classe artística, nunca sofreu qualquer tipo de abuso na pele, mas falou publicamente para repudiar as acções classificando-as como “horríveis” e “sem desculpa” e descrevendo as mulheres que se chegaram à frente para contar a sua história como “heroínas”. A actriz trabalhou várias vezes de perto com o produtor em filmes como The Iron Lady e chegou mesmo a referir-se a Weinstein como “Deus” nos Globos de Ouro 2012. Agora vem dizer que não tinha qualquer conhecimento destes casos.

O caso de Gwyneth Paltrow é provavelmente o mais chocante. A actriz descreve que tinha 22 anos quando foi convidada a subir ao quarto do produtor que a tinha contratado para a adaptação da obra de Jane Austen Emma: “Eu era uma miúda, tinha sido contratada há pouco tempo, estava petrificada.” A actriz que olhava para Weinstein como um mentor – e até lhe chamava Tio Harvey – conta que foi forçada a fazer-lhe uma massagem, quando o produtor lhe apareceu em robe de banho e lhe começou a tocar. Gwyneth recuou e recusou os avanços, acabou por contar o sucedido à família e ao então namorado Brad Pitt que confrontou Weinstein. A actriz revela que, depois disso, o produtor “gritou com ela durante muito tempo” e que a avisou de que não podia contar nada a mais ninguém. Paltrow achou que ia ser despedida e optou por ficar calada, tendo continuado a trabalhar com a Miramax, responsável pela produção do seu eventual Óscar em Shakespeare in Love.

Rosanna Arquette, estrela em Pulp Fiction, Tomi-Ann Roberts, Katherine Kendall, Judith Godrèche e Dawn Dunning foram algumas das actrizes que provaram que o método de Weinstein não tinha grande critério mas tinha um padrão. O convite ao quarto de hotel e o pedido por umas massagens que, quando negado, evoluía para casos de exibicionismo – muitas mulheres contaram que o produtor correu literalmente atrás delas pelo quarto, nu, para as impedir de ir embora. O assédio aconteceu com actrizes já estabelecidas ou jovens em início de carreira, ameaçadas pela possibilidade de nunca virem a ser alguém na indústria.

O The New Yorker divulgou entretanto uma gravação áudio que chegou a ser mostrada à Polícia de Nova Iorque como prova em 2015 e tornada pública aqui pela primeira vez, Weinstein admite ter assediado a modelo filipino-italiana Ambra Battilana Gutierrez, descrevendo o comportamento como algo que “costuma” acontecer.

Este é aliás um dos aspectos mais intrigantes desta derrocada, a forma como ao longo dos anos alguns casos foram ficando conhecidos, quer das autoridades, quer da elite da indústria de uma maneira geral, e a forma como o lobby é complacente com figuras deste tipo. Pelo menos 16 funcionários da Miramax e da posterior The Weinstein Company admitiram conhecer os comportamentos do produtor e saber inclusive dos mais variados encontros “profissionais” que mantinha com actrizes e modelos com propósitos sexuais. Aliás, em 2013, no anúncio das nomeadas ao Óscar de Melhor Actriz, o comediante Seth MacFarlane brincou com o assunto: “Parabéns, vocês as 5 já não têm de fingir que se sentem atraídas pelo Harvey Weinstein.” A plateia riu e tudo isto mostra que é mais do que provável que Hollywood inteira soubesse das condutas do produtor e que, mesmo assim, ele tenha consolidado uma posição de destaque na maior indústria do entretenimento do mundo por mais de duas décadas.

O seu reinado chegou oficialmente ao fim, foi despedido da sua própria empresa e viu vários amigos de longa data virarem-se contra si por alegado desconhecimento da sua vida paralela. Mas não podemos deixar de nos perguntas, quantos casos semelhantes existem por aí, dos quais ainda nem sabemos?

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!