Há 10 anos os Radiohead “ofereceram” In Rainbows. E agora?

Em 2007, repetia-se “E agora?”, num misto de pânico e ignorância, como se questionar significasse accionar o botão de pânico de uma indústria sem pernas para andar.

Kid A (2000) e Amnesiac (2001) saem numa altura em que ainda o telmóvel serve apenas para fazer chamadas e enviar SMS. Hail to the Thief (2003) já chega no pós-11 de Setembro, momento crucial para entender a revolução digital que se seguiu. Depois disso, os Radiohead ficam quatro anos sem dar notícias, com espaço para The Eraser, aventura a solo de Thom Yorke, em 2006.

Em 2007, a indústria combate a pirataria, através de acções concertadas de caça ao homem. De x meses em x meses, centenas de vítimas são usadas como bode expiatório e exemplo para os milhões que continuam a sentir-se impunes. Programas como o Kazaa, BitTorrent, eDonkey e eMule são os visados. Curiosamente, os maiores sinais de reflexão vêm dos próprios artistas. Prince oferece Planet Earth numa edição do Mail on Sunday, os Nine Inch Nails editam Year Zero, álbum/puzzle/jogo conceptual que funde mundo real com digital e Madonna anuncia que assinou pela Live Nation.

In Rainbows é então a reflexão dos Radiohead perante a estrutura da indústria no mundo digital que, diz Thom Yorke, “está em colapso”. Ou como dizem em “House of Cards”: “The infrastructure will collapse / from voltage spikes / throw your keys in the bowl / kiss your husband good night.” As letras das canções são, como de costume, suficientemente abertas para permitirem este tipo de interpretação. Mas a reflexão não estará tanto nos temas do disco, mas mais na subejamente conhecida história da sua edição. Lançado para download dois meses antes de uma enriquecida edição física (faixas extra, vinil e artwork, tudo por £40), com opção única de pagar o que quiser, podendo esse valor ser igual a zero.

Como é hábito com a música dos Radiohead, a decisão rende fãs e detratores. Entre os mais conhecidos críticos estão Gene Simmons, Lily Allen, Oasis, Trent Reznor (“pagar para ter um stream com qualidade Myspace é publicidade enganosa”), Kim Gordon e um artigo do Guardian que questiona a validade do modelo para os artistas que acabam de começar. Os resultados acabam por ser também eles ambíguos. Por um lado, fica provado que as pessoas estão mais predispostas a manter o hábito (ir ao site pirata) do que a quebrá-lo (ir a Radiohead.com). Por outro, a banda concluiu, através de Thom Yorke, numa entrevista a David Byrne para a Wired, que “no que diz respeito a retorno digital, fizemos mais dinheiro do que se somarmos todos os outros, o que é inacreditável”. Resultados quantitativos: 38% dos que fizeram download do álbum pagaram, o que dá uma média de $2,26 por download. No dia da sua edição, 400 mil cópias foram “sacadas” através de BitTorrent. Ao longo dos primeiros 24 dias, esse número subiu para 2.3 milhões. No total, o registo é comprado 3 milhões de vezes e aqui incluem-se vendas físicas e digitais. 1.75 milhões compararam CDs e 100 mil adquiriram o pack especial de £40. Em média, a nível global, cada unidade foi vendida por $6, sendo que se contabilizarmos apenas os Estados Unidos essa média sobe para $8.05. A nível digital, os valores oferecidos ficaram na maioria das vezes abaixo dos $4, mas 12 por cento ofereceu entre $8 e $12.

Em 2007, repetia-se “E agora?”, num misto de pânico e ignorância, como se questionar significasse accionar o botão de pânico de uma indústria sem pernas para andar. Hoje, dez anos depois, temos algumas respostas. O modelo Radiohead não se repetiu (pelo menos com o mesmo mediatismo), mas a tal indústria viu-se obrigada a mudar. Afinal o download já não é o futuro e o streaming terá resolvido parte do problema da pirataria. Os Arcade Fire mostraram-se hábeis a brincar com o digital, os U2 nem por isso. Amanda Palmer editou um álbum via croudfunding. Artistas como Drake começaram a pensar primeiro no digital e depois em todo o resto. Beyoncé editou um disco surpresa. A folk, indie, cena hipster, o que lhe quiserem chamar deu lugar ao hip hop que domina o presente. A inteligência artificial e a realidade virtual deverão ter uma palavra a dizer em relação ao futuro. Os próprios Radiohead voltaram a questionar.