Kevin Spacey é gay ok, mas tentou abusar de um rapaz

O actor assumiu e pediu desculpa pelo assédio e diz que "escolhe viver agora como um homem gay".

Uma notícia como esta seria sempre bombástica, mais ainda quando estamos em plena campanha de consciencialização de Hollywood para os inúmeros casos de assédio que até então a indústria se habituou a esconder e ignorar. A declaração de Kevin Spacey que veio a público nas últimas horas surge em resposta a uma entrevista de Anthony Rapp, o actor que quebrou um silêncio com mais de 30 anos, ao contar à BuzzFeed que Spacey tentou abusar dele numa festa.

O episódio terá acontecido em 1986, quando o jovem tinha 14 anos e Kevin 26. O jovem e um amigo de 17 anos foram a uma festa numa discoteca em Nova Iorque, a convite de Kevin Spacey. Mais tarde, a festa continuou no apartamento de Spacey, embora Rapp, um tanto ou quanto “aborrecido”, tenha ficado a ver televisão. Quando os outros convidados já tinham saído, Spacey pegou em Rapp “como um noivo pega numa noiva”, levou-o para uma cama e deitou-se em cima dele. Nada mais aconteceu porque o então adolescente empurrou Spacey, que “parecia bêbado”, e foi-se embora.

A resposta de Kevin Spacey a esta revelação não demorou a surgir e surgiu, em simultâneo, no Twitter e no Facebook. O actor vencedor de um Óscar de Melhor Actor Secundário por The Usual Suspects em 1995 e de Melhor Actor por American Beauty em 1999, afirmou não se recordar do ocorrido mas disse que devia um pedido de “sinceras desculpas” e justificou o “comportamento profundamente inapropriado da embriaguez”. 

Publicado por Kevin Spacey em Domingo, 29 de Outubro de 2017

O protagonista de House of Cards acabou por usar o mesmo comunicado para admitir a sua homossexualidade e o que é certo é que a confissão acabou por funcionar como uma verdadeira manobra de distração para a imprensa, que faz disso notícia ignorando o alegado abuso. O actor, que sempre foi recatado acerca da sua vida pessoal, escolheu assim este momento para tornar público, um dos maiores segredos da sua vida: “[A história de Rapp] encorajou-me a enfrentar outras coisas na minha vida. Os mais próximos de mim sabem que tive relações com homens e mulheres. Amei e tive encontros românticos com homens ao longo da minha vida, e agora escolho viver a vida como gay”, assumiu. “Quero lidar com isto de forma honesta e aberta”, concluiu.

Anthony Rapp, actualmente na série Star Trek Discovery, disse ainda que durante vários anos não contara a história a ninguém. Em 2001, chegou a falar do que se passou mas sem identificar quem tentou abusar dele. Rapp, ele próprio gay, assume ter-se revoltado ao longo dos anos ao ver que Spacey não assumia as suas preferências sexuais: “Queria ir para os telhados e gritar ‘Este tipo é uma fraude!'”.

A revelação de Spacey no Twitter valeu-lhe uma série de comentários negativos na mesma rede social. Actores como Rose McGowan, Larry Wilmore, Billy Eichner, Michael Knowles ou Wanda Sykes questionaram o momento que Spacey escolheu para “sair do armário” e a forma como refugiado nessa lógica menosprezou a tentativa de abuso sexual a um menor.

Se a acção do actor e a possível táctica escondida no comunicado já é condenável, o facto da imprensa por todo o mundo fazer notícia apenas da sua sexualidade levanta duas questões ainda maiores: a primeira sobre se este tipo de assunto tem interesse noticioso no século XXI, a segunda, qual o grau de comparação possível entre duas informações tão distintas, uma íntima e pessoal, outra envolvendo a prática de um crime sobre terceiros.

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