Um graffiter provocador à solta numa zona de conflito

Depois da dupla Rick and Morty, a dupla Trump e Netanyahu surge aos beijos num enorme mural.

 
O Shifter precisa de dinheiro para sobreviver.
Se achas importante o que fazemos, contribui aqui.

Já te tínhamos dado conta da presença de Lushsux pela zona da Palestina aquando da sua dedicação à série animada Rick and Morty, o que não pensámos foi ter motivo para voltar a noticiar as suas acções no local. Enganámo-nos redondamente. É que as ilustrações com referências ao disruptivo desenho animado foram só o princípio de uma série de irónicas e provocadoras peças que o austríaco pintou nas paredes do muro ilegal construído na zona da Cisjordânia.

Depois dos primeiros episódios desta história protagonizados pela dupla avô e neto mais famoso do momento, Lushsux não se ficou por aí, nem pelas referências que pelo traço animado parecem mais inofensivas. Ao longo dos últimos dias pudemos testemunhar no seu Twitter a presença constante e activa naquela zona e as várias obras de arte que lá deixou. Entre elas está uma que por estes dias faz manchete e notícia um pouco por todo o mundo, em que Benjamin Netanyahu e Trump se beijam na boca e trocam elogios – uma referência clara à promiscuidade das relações políticas entre o Estado de Israel e os Estados Unidos da América.

Entre as peças que ia deixando, Lushsux revelou sempre um olhar muito atento quer sobre a realidade que o envolvia quer sobre os fãs que o acompanham. No exemplo do primeiro cenário e de como a interacção entre o artista e o espaço nos pode oferecer novas leituras, destaque para o vídeo partilhado pelo austríaco em que se podem ver nuvens de fumo que o próprio identifica como sendo sinais do uso de gás lacrimogéneo, uma realidade que não escapou à ponta da sua caneta.

Apesar da lógica e do motivo da sua presença ser bastante evidente para qualquer olhar sobre o seu trabalho, é curiosa a postura do artista que tirando o termo ilegal no Illegal Wall Rick por raras vezes explícita a sua intenção. A sua fuga ao ponto central e a frases lapidares como Free Palestine, é terreno de mais exploração criativa que rapidamente se transforma numa ironia aterrodaramente sincera, em peças como:

Para além destas peças centrais de leitura transversal e que apelam a qualquer parte do mundo, Lushsux não hesitou em explorar o território da internet. Pewdiepie e Mark Zuckerberg foram dois dos escolhidos, com os seus defeitos mais populares a servir de base a uma crítica que assenta que nem uma luva num território de opressão visível.

As enormes ilustrações deixadas por Lushsux não passam logicamente indiferentes nem à vista das autoridades, nem de populares. As peças que retratavam Donald Trump, Netanyauh e Pewdiepie foram as primeiras a merecer o pincel da censura e a desaparecer por baixo de um preenchimento cor de rosa, enquanto que no twitter, várias reações aos seus tweets mostram os muros antes da sua intervenção pedindo a Lushsux respeito pela expressão dos palestinianos deixada em centenas de pequenos graffitis agora invisíveis.

A reação negativa à iniciativa de Lushsux vai mesmo mais longe e levanta um ponto importante. Embora as referências possam fazer sentido no mundo ocidental e se tornem virais na internet, no local não representarão propriamente mudanças no estilo de vida ou no contexto político. Embora se espera que o trabalho de Lushsux possa chamar à atenção do mundo para um caso tão premente, do lado dos palestinianos há o sentimento de que o problema não devia ser ilustrado com tanta leviandade, como se pode ler num blog:

“Palestine is not a drawing board for your career, nor for other people’s entertainment. It is not an “illegal border wall, Rick”. It’s fucking Apartheid. Your “art” is not a commodity here. Go away. It’s not OK to do this.”

Embora se possa estranhar a reação, é perfeitamente compreensível se olharmos aos últimos anos de história do conflito onde houve muito pouco progresso político apesar da insistência de artistas em criar no local e sobre o tema, como é exemplo o hotel criado por Banksy.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!