Maria João, Egberto Gismonti e um CCB rendido

Ou "Como entrar com o pé direito numa tournée europeia"

Fotografia: Paolo Soriani
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Enquanto andamos todos distraídos com o calor que se põe, um par musical luso-brasileiro trouxe uma lufada de ar fresco ao Grande Auditório do CCB. Passo a esclarecer: Lisboa serviu de casa de partida para uma digressão europeia de Maria João e Egberto Gismonti.

Maria João já nos é conhecida: é o nome Português mais relevante no canto improvisado, metendo inveja com o seu CV de gravações em estúdio e de companhias em palco (por exemplo, Bobby McFerrin, Gilberto Gil, ou a sua parelha de maior hábito, Mário Laginha). A forma como canta tem fama de assustar qualquer desprevenido. A culpa é da nossa mania de pensarmos que cantar é só dizer palavras com uma melodia. Maria João relembra-nos que o nosso corpo tem várias mais maneiras de se fazer soltar som. É toda uma performance corporal com improvisação paradoxalmente estudada.

Já o brasileiro Egberto Gismonti pode passar um pouco mais despercebido no nosso radar. Erradamente. É um génio virtuoso, muito simplesmente. Sinto-me tentado a compará-lo a Frank Zappa, na medida em que as suas músicas têm uma componente estilisticamente multi-facetada, mas a verdade é que o músico não precisa de analogias. Não dá para enfiá-lo no saco da MPB, embora tenha deixado uma notável pegada; nem para ousar juntá-lo ao pessoal do Rock Progressivo sendo, no entanto, uma referência louvável. Talvez me caia na preguiça de entregá-lo à praça do Jazz, onde partilha palcos com Charlie Haden e Jan Garbarek.

Não é a primeira vez que estes dois se cruzam: conheceram-se num Festival em Berlim a meio da década de 80 onde acabaram por tocar no mesmo palco, mas só no passado ano de 2016 juntaram reportório para encantar o público do Festival de Jazz em Ravello, Itália. Felizmente foi suficiente para chegarem à conclusão de que a experiência devia ser repetida. E de que forma se repetiu!

A narrativa que se desenlaçou em cima do palco, foi de tal forma intensa, cativante e intrigante que tive que prescindir das notas que tenho por hábito apontar no meu bloco de notas. As atenções estavam voltadas para o espectáculo de luzes que conhecia as deixas de cada fim dos temas; para a indumentária escolhida sensivelmente, pintando um Gismonti sereno e uma Maria João vivaz; para a forma específica como Maria João reproduzia a palavra «lentamente» no tema “Água e Vinho” de Gismonti, descendo de uns agudos arrepiantes.

Foi destes pormenores e momentos que o concerto foi construído em duas partes. Uma primeira em que o brasileiro domava a sua guitarra de 8 cordas, com a portuguesa sentada a seu lado que se contorcia, quase como que por hiper-actividade, reproduzindo as mais variadas respostas melódicas à performance do parceiro de crime. E à medida que Maria João se levantava e afastava do centro do palco, Gismonti dirigia-se ao piano, surgindo então a segunda parte. Não é que os dois instrumentos cantam com igual vigor e destreza pelos dedos do homem!? Enquanto isso Maria João mostrava todas as suas perspectivas da sua voz, que tanto consegue ser tenebrosa e assustadora como grave e gutural, como sedutora e inocente com o seu jeito infantil de cantar alguns agudos arejados, evocando ocasionalmente uma postura de voz de ópera, provocando pequenos clímaces aqui e acolá.

Era uma ternura vê-los agradecendo em vénia, não só ao entusiasmo do público, mas também um ao outro, no que se deixava adivinhar uma profunda admiração de Maria João por Egberto Gismonti, enquanto este modestamente parecia corar envergonhado com tal acção.

Em forma de despedida, os dois tocaram uma versão do tema “Retrato em Branco e Preto”, composto por Jobim com letra escrita por Buarque, depois de Gismonti discursar sobre o contexto do tema com elevado grau de nerd musical e termos de que vos pouparei, mas que transmitiam a sua clara paixão pelo assunto. Atrevo-me a apostar que foi com essa paixão que saímos de corações quentes, já com saudade da mesma surpresa que o público da Casa da Música no Porto há-de apanhar na quarta-feira. O resto da Europa que se prepare!

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