#metoo: já viste esta hashtag por aí?

Trata-se de uma tomada de posição contra o assédio e abuso sexual, inventada há 10 anos e trazida de novo para a ribalta por causa da polémica com Harvey Weinstein.

Como diz a jornalista do Salon, Mary Elizabeth Williams, finalmente as mulheres deixaram de fazer o esforço emocional de tentar mostrar uma vida perfeita online. O desafio foi lançado pela actriz Alyssa Milano, na sequência do escândalo com o ex-mega produtor de Hollywood Harvey Weinstein, de que te falámos aqui. Milano diz que iniciou a partilha do hashtah #MeToo para tirar o foco do predador.

A expressão agora recuperada, foi usada pela primeira vez com intuito idêntico há 10 anos pela activista Tarana Burke, que começou a campanha como “um slogan para ser usado de sobrevivente, para sobrevivente para as pessoas saberem que não estão sozinhas”. No passado domingo, Alyssa Milano, divulgou a sugestão: “Se todas as mulheres que foram assediadas ou abusadas sexualmente escreverem #MeToo como status, podemos dar às pessoas uma noção da magnitude do problema.” A expressão tornou-se um dilúvio que inundou todo o mundo – incluindo o meu newsfeed. (E o teu?) Algumas mulheres publicaram simplesmente a hashag, outras acrescentaram as suas histórias, ou uma série de incidentes. Histórias de tentativas de toques estranhos em transportes públicos, chefes ou superiores que se aproveitam da situação de poder para perpetrar o abuso, evoluções de piropos que, por exemplo, no escuro da noite proporcionam a aproximação invasiva. O impacto colectivo dessas experiências, reunidas numa frase foram como uma quebra profunda numa rede de segredos e sussurros que nos habitámos a alimentar ao longo dos tempos. Entre domingo e ontem, #MeToo foi usada 825 000 de vezes no Twitter. No Facebook, 4.7 milhões de pessoas usaram a hashtag em menos de 24 horas, em mais de 12 milhões de posts, comentários e reacções. A CNN diz que 45% dos utilizadores do Facebook são amigos de alguém que publicou #MeToo algures na rede.

Uma onda de honestidade num mar que tantas vezes nos parece água choca de aparências e futilidades, é sempre bem vinda. Mas, se por um lado #MeToo tem os ingredientes certos para se tornar um movimento social sério e efectivo, por outro personifica tudo o que está errado nestas acções online. Aproveita os mecanismos das redes sociais para levar os utilizadores a estados crescentes de indignação, que crescem tanto que se esgotam, ao ponto de ninguém actuar de forma significativa. É a chamada manifestação online, que hoje em dia parece suficiente para a consciência de cada um, como se demitíssemos Governos por pedirmos a sua destituição no Facebook, ou contribuíssemos para alguma justiça social por gritarmos (em maiúsculas) no Twitter.

A indignação é o actual motor das redes sociais. É uma emoção que inspira a partilha o que acaba por fazer com que todos nos envolvamos mais nas plataformas. E isso traduz-se directamente em receitas para as empresas, mas qual é o impacto sobre nós? A neurocientista e professora da Universidade de Yale, Molly Crockett, tem estudos complexos sobre o altruísmo e a moralidade e uma palestra no TEDX que devias ver. Ela acredita que as novas tecnologias digitais estão a transformar a forma como experienciamos a indignação e a limitar a forma como podemos realmente mudar as realidades sociais. 

O movimento #MeToo conserta alguma coisa? Traz esperança e dúvida. Pelo menos por um momento, muitas pessoas conseguiram encontrar algum conforto em saber que não estão sozinhas. E antes que qualquer um de nós possa reunir o foco para agir, vamos certamente ser confrontados com o próximo meme inspirador de indignação. Mas enquanto pudermos elevar #MeToo de meme a movimento concertado, cá estaremos. É possível que as histórias que se acumulam em feeds intermináveis possam mesmo vir a transformar a nossa cultura numa em que as mulheres possam dizer sem medo “eu também”. Mas para isso acontecer com maior certeza, se calhar devíamos largar os ecrãs e falar uns com os outros.

 

Milhares de pessoas seguem o Shifter diariamente, apenas 50 apoiam o projecto directamente. Ajuda-nos a mudar esta estatística.