A miúda destemida afinal era igual às outras

A empresa por trás da estátua feminista foi acusada de casos de discriminação salarial baseada no género e na etnia.

Foi durante o mês o de Março, consagrado como o Mês da História da Mulher que uma pequena figura feminina em bronze se ergueu perante o enraivecido touro símbolo do mercado norte-americano. O surgimento desta estátua apanhou toda a gente de surpresa e a conversa em seu torno prolongou-se durante durante semanas enquanto se discutia sobretudo a sua permanência naquele local. Os promotores consideravam-na um símbolo da luta feminista, forma de atrair atenção e mobilizar consciências num mundo tão machista como o da alta finança finança (quem não se lembra do Wolf of Wall Street?) e por isso defendiam que a autorização fosse prolongada. Por outro lado as regras mandavam o retorno à normalidade e a retirada do trabalho conjunto da escultora Kristen Visbal com a agência McCann e pago pela State Street Company.

Passados 6 meses e com a estátua ainda no local, o assunto volta a dar que falar, desta vez pelos piores motivos. Um relatório da organização semelhante àquilo a que em Portugal chamamos a Autoridade do Trabalho denuncia a empresa promotora da iniciativa, a State Street Company, como recorrente prevaricadora em casos de discriminação salarial baseada quer no género, quer na etnia. Em causa, segundo o mesmo relatório, estão práticas continuadas de discriminação salarial contra mulheres nos altos quadros da empresa. Nas posições de Vice-Presidente Sénior, Managing Director e Vice-Presidente as mulheres teriam um salário base inferior ao homens, bem como menores bonificações.

Este não é o único indício de incumprimento revelado no relatório que também denuncia tratamento semelhante na posição de vice-presidente para homens de etnia africana e uma desigualdade generalizada que se regista sob as 305 mulheres e os 15 afro-americanos. Segundo reporta o Quartz, um dos primeiros media a dar conta desta notícia, a State Street Company já tinha sido alertada para a situação de incumprimento em Março, tendo na altura rejeitado as acusações. O caso muda agora de figura com a empresa a assumir a culpa e o pagamento de uma multa de 5 milhões de dólares evitando assim que o caso siga para a barra dos tribunais.

O caso não é novo e este tipo de multas por si só nem sempre fariam notícia. A situação ganha relevância e interesse pela ironia e por tão evidentemente ilustrar os tempos em que vivemos. Depois de meses a aplaudir a acção de uma empresa alegadamente consciente e comprometida, os dados revelam-nos que tudo não passava de uma encenação. Caso para nos lembrarmos de brilhantes encenações como o lançamento do disco dos Arcade Fire e questionarmo-nos sobre se aquilo que elogiamos é real ou encenado.