Somos a geração Mr. Robot, nós temos o poder

A 3ª temporada da série estreia este sábado em Portugal, através do canal TVSéries.

Num mundo cada vez mais informatizado, em que negócios, artes e media convergem online, o lugar dos homens é cada vez mais singular. E pode ser mais disruptivo. Se, por um lado, os algoritmos são poderosas máquinas com o poder de determinar hábitos de entretenimento, padrões de relações e consumo informativo, por outro, um homem suficientemente inteligente pode sozinho comprometer uma complexa estrutura de poder.

É sobre esse eterno confronto entre liberdade e segurança e sobre o papel do homem na criação e destruição destes sistemas que se centra a poderosa série Mr. Robot. O realizador Sam Esmail apresenta uma narrativa capaz de cativar qualquer um, materializando com elementos do quotidiano a linha de pensamento de uma geração de revolucionários criados na internet e com vontade de desafiar o poder central.

Depois de duas temporadas para as quais nem o termo psicótico soa a exagero, a 3ª temporada tem também ela um prenúncio empolgante: “a Democracia está a chegar aos Estados Unidos”Parece que para Elliot o tempo de espera ou preparação acabou e está na altura de reconstruir o novo mundo. É aí que se esconde, aliás, um dos mistérios da nova temporada: que contornos terá a revolução protagonizada por Elliot e imaginada por Sam Esmail? A série, que pode ser descrita numa premissa simples, lança questões complexas a um nível político mas não só. Outro mistério importante tem a ver com a evolução de Elliot perante este cenário. O protagonista, com que todos os adeptos da série provavelmente já se identificaram em algum momento, é mais do que um simples hacker – é um retrato exagerado para ficção de uma geração com os seus traumas. A constante alienação do mundo que o rodeia, a ansiedade ou a dependência de drogas são importantes elementos da série no retrato que procura fazer.

Elliot é um jovem aparentemente normal, consumido pelo sonho de mudar o mundo. Trabalha numa big corp que odeia e à noite dedica-se ao hacking. Vive isolado do mundo em seu redor, a que se mantém ligado por uma única amiga e pontuais encontros ao longo série. Tem uma relação difícil com a droga, da qual acredita não depender. Sabe-se no desenrolar da série que é acompanhado por um amigo imaginário que lhe alimenta o sonho, o que parece ser a metáfora escolhida por Sam Esmail para aludir àquele pensamento que nos liga à vida e empurra alguns para objectivos maiores. É a sua alienação pessoal em choque com a alienação das massas que dá sumo à série. Para além das referências óbvias que indicam a V for Vendetta e Fight Club, várias momentos da série reforçam esta ideia de oposição e crítica à alienação capitalista.

Se em Django Unchained, o personagem representa o herói negro possível no seu tempo, Elliot representa alguns dos heróis do nosso. Não é difícil traçar comparação com nomes que bem sucedidos ou não ousaram criar pequenas revoluções, como o criador da Bitcoin, atrás do misterioso pseudónimo Satoshi Nakamoto, ou o criador do Ethereum, Vitalik Buterin.

Para a 3ª temporada espera-se todos estes elementos ainda mais condimentados, para que possamos continuar a imaginar na geração Mr. Robot. É da tristeza nas ruas, do crime nos locais obscuros, da sede espiritual, das guerras contra a desordem, um cenário que nos é cada vez mais familiar que se prenuncia a Democracia. Assistiremos a novos desenvolvimentos do movimento da fsociety para reformar o mundo, na selecção entre aqueles que servem e aqueles que são servidos – “o velho mundo está morto. É tempo de criar um novo”. Elliot (Rami Malek) vai tentar reerguer-se e enfrentar aqueles que até agora o usaram.

“A Democracia está a chegar aos Estados Unidos”, e à 3ª temporada de Mr. Robot chegam novas personagens e ganham força outras. Irving (Bobby Cannavale), um negociante de carros e figura de relevância para Elliot, um homem lacónico, de poucas palavras e previsível, que contrasta com o universo desequilibrado da série. Já Norm (Rizwan Manji), um agente do FBI, é o novo parceiro de Dominique (Grace Gummer), uma preciosa ajuda na investigação do ataque informático conhecido como Five/Nine. Quem vê o seu papel ganhar destaque é Whiterose (BD Wong), reforçando o papel do colectivo chinês e do Dark Army.

Mr. Robot é uma daquelas séries que não permitem dividir a atenção com outra cena momentânea, dado o ritmo da cabeça de Elliot. Pega no teu bloco de notas e prepara-te para queimar alguns neurónios com uma das séries mais entusiasmantes da nossa geração. Cada episódio tem a duração e o valor de um pequeno filme com uma riqueza e diversidade invulgar, também nos parâmetros mais técnicos. Outro importante contributo da série para o desenvolvimento da nossa cultura contemporânea tem a ver com a democratização de algum linguagem exclusiva a geeks – se vires Mr. Robot arriscas-te a perder umas horas à pesquisar sobre o que é um ataque DDoS e a perceber quase tudo graças aos detalhes que viste ao longo da série.

Por tudo isto, não percas a 3ª temporada de Mr. Robot, que tem estreia exclusiva marcada para dia 21 de Outubro, sábado, às 23 horas, no TVSéries. Podes espreitar o trailer em baixo.

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