Quantos atentados são precisos para os EUA reverem a política de posse de armas?

A discussão voltou aos holofotes depois do atentado em Las Vegas.

A discussão em torno da lei de porte de armas nos Estados Unidos voltou a ver a luz do dia no rescaldo do atentado do início da semana em Las Vegas. Foram encontradas mais de 18 armas, explosivos e milhares de munições na casa do atirador que matou pelo menos 59 pessoas durante um concerto de música country. Isto depois da polícia também se ter deparado com um total de 42 armas com mais de 20 calibres diferentes no quarto de hotel de onde Stephen Paddock disparou a matar.

A polícia não tem dúvidas de que o ataque foi planeado de forma meticulosa. A caminho de Porto Rico, onde também protagonizou um dos momentos mais estranhos e menos presidenciais de sempre, Donald Trump remeteu a discussão sobre as armas para um futuro que soou longínquo e preferiu especular sobre a saúde mental do autor do ataque. Este homem, que segundo o Presidente dos EUA estava aparente e obviamente muito doente, conseguiu comprar de forma legal um arsenal de armas e munições que utilizou para matar dezenas de pessoas que tinham saído de casa para assistir a um concerto.

A insistência de Trump em não responder à urgência do tema tem desagradado a opinião pública e várias personalidades influentes nos Estados Unidos. São várias as vozes, a maioria do partido democrata, que pedem alterações às regras da venda de armas de fogo no país. Se para a Casa Branca não é o momento para debater o tema, para muitas celebridades esta é precisamente a altura certa para o discutir e repensar. Entre as vozes que falaram mais alto está, por exemplo, Lady Gaga, que voltou a tocar no importante ponto de chamar as coisas pelos nomes, sublinhando que se tratou sem dúvida de um atentado terrorista. Pede também aos membros dos dois partidos que se unam para discutir o tema, usando a hashtag #guncontrol. A cantora Ariana Grande diz que o ataque é uma chamada de atenção para que se reveja a lei, opinião também partilhada pela actriz Lena Dunham, por Amy Schumer, a actriz Jessica Chastain ou o cantor John Legend. Todos dizem que é urgente falar-se do assunto e perguntam, quantos mais ataques são precisos para os Estados Unidos reverem a política.

Lady Gaga, Amy Schumer and More Stars Plead for Gun Control in Wake of Las Vegas Shooting: ‘Act Quickly’

A posse e porte de armas na história dos EUA

Com a ajuda da CNN, percebemos a dificuldade do tema nos Estados Unidos. Para nós, que vivemos num país onde o universo de ter uma arma em casa é mais distante, é difícil compreender a vida com essa possibilidade.

A política remete-nos para a Segunda Emenda à Constituição dos Estados Unidos. Pensada em 1791, a lei permitia inicialmente que apenas as milícias (actuais exércitos nacionais) pudessem manter e portar armas. A partir do século XIX, os tribunais dos Estados Unidos passaram a dar diferentes interpretações ao documento. A questão que sempre foi central na discussão relaciona-se com o direito de porte armas ser ou não extensivo aos cidadãos individuais. Foi na conclusão do processo Columbia vs Heller, em 2008, que o Supremo Tribunal proferiu uma sentença histórica, afirmando expressamente que a Segunda Emenda protege o direito individual de possuir e portar armas de fogo, estabelecendo assim o direito individual dos cidadãos dos Estados Unidos de se armarem. A sentença deu uma interpretação definitiva à Segunda Emenda, reconhecendo o direito de porte de armas como inviolável, assim como o direito ao voto e à liberdade de expressão.

Desde então que a população se divide entre os que temem essa realidade e os que consideram ser uma liberdade da qual não querem abdicar. Num artigo extenso publicado ontem, a CNN explica-nos em gráficos, alguns dos números mais importantes a ter em conta nesta problemática. Quando uma arma é usada para cometer um acto de violência duas escolas de pensamento tentam explicar a génese dos incidentes: Precisamos de mais leis de controlo de armas para parar este ciclo de violência.” e “Pessoas más farão coisas más, independentemente das leis de armas.”, reflexo do fosso cultural que existe entre aqueles que cresceram com armas e aqueles que olham para as armas de forma mais céptica.

Estes dados foram recolhidos pela Gallup, uma das principais empresas de sondagens do país. Mostramos-te os oito gráficos abaixo, para que possas compreender melhor uma cultura política profundamente dividida sobre o papel das armas na sociedade e a necessidade – ou falta dela – de medidas mais rígidas.

1. A maioria dos americanos acha que as leis sobre as armas deviam ser mais restritivas.

2. 4 em cada 10 pessoas vive numa casa com armas

3. Três quartos dos donos de armas consideram que ter uma arma é uma liberdade fundamental

4.Maior parte dos proprietários citam “proteção” como o motivo para terem armas.

5. Apenas 1 em cada 3 americanos vê a violência armada como um “grande problema”

6. Os americanos estão divididos sobre se o governo devia ou não ir mais longe no controlo das armas.

7. Os Republicanos não acreditam que o acesso livre às armas facilite os tiroteios

8. Há um apoio generalizado para que se adoptem novas medidas de controlo das armas