E se te disséssemos que a privacidade só nasceu há 150 anos?

Desde o "bater à porta" para entrar à palavra-passe dos computadores, o Shifter conta-te como foi o nascimento e morte da privacidade.

A privacidade como a conhecemos nasceu à cerca de 150 anos e num artigo publicado no seu blog na plataforma Medium, o escritor Greg Ferenstein analisa 3000 anos de história, através de 46 imagens para explicar a sua evolução.

O ser humano tem um instinto natural para a privacidade, no entanto, por mais de 3000 anos as pessoas preferiram a convivência em detrimento da intimidade.

Ferenstein cita Vinton Cerf, co-criador da Internet e executivo do Google, que afirma que  a “Privacidade pode ser uma anomalia.

Na verdade, o sexo, a amamentação e os banhos eram realizados publicamente, quer à frente dos amigos, quer na presença da família.

Durante 3000 anos da história, a privacidade tem sido uma prioridade “não prioritária”, uma vez que os seres humanos escolhem, inevitavelmente, o dinheiro, prestígio ou conveniência após terem lidado com o desejo da solidão.

Na prática, a sobrevivência colide de frente com a privacidade: no mesmo artigo, Greg Ferenstein cita vários especialistas na matéria, entre eles o antropologista Jean Briggs que revela: “Apercebi-me do quão só eu estaria no mato se me abandonassem. É muito, mas muito melhor sofrer de falta de privacidade” após ter sido ostracizado pela sua família Utku, por ter ido explorar o deserto sozinho.

O gráfico acima mostra-nos a evolução do estado de privacidade. Explica-nos, por exemplo, que as paredes internas, que separam as divisões de uma casa apenas surgiram por volta de 1500 a.C. Até lá, existia uma única divisão na casa, que era compartilhada frequentemente com os animais do pasto. “Os animais e os humanos dormiam no mesmo espaço, porque só havia um quarto.”

A leitura pessoal e silenciosa nasceu em 1215 d.C, quando a Igreja ordenou às massas a confissão e penitência pessoal, como forma de remição dos pecados. 500 anos mais tarde, com a gráfica de Gutemberg, os livros e jornais chegaram às não-elites. Até aí as leituras eram feitas em praça pública, a alto e bom som para toda a gente ouvir.

As camas pessoais, por sua vez, só chegaram em 1700, sendo que era extremamente comum existir uma única cama, grande, que dava para toda a família e convidados. O sexo entre eles era comum.

A informação pessoal sobre os cidadãos sempre foi pública, mesmo nos primeiros censos americanos. No entanto, apesar da legislação sobre a privacidade, implementada no século XIX, os envelopes e correio continuavam a ser “pirateados”. Isto levou ao nascimento do Direito à Privacidade, em 1890.

Em 2015, a AT&T ofereceu um serviço no valor de 30 dólares que permitia aos utilizadores uma navegação anónima, sem rastreamento ou controlo por parte dos servidores. Por incrível que pareça, a adesão foi bastante fraca, o que preconiza um futuro onde a maioria das pessoas vai escolher o controlo em troca de dinheiro, conselhos de saúde e entretenimento.

Com o avanço tecnológico e os progressos da internet, a vida pessoal converte-se cada vez mais num peso difícil de sustentar, preconizando mesmo a sua morte.
O cúmulo desta problemática ocorre, por exemplo, quando turistas que passeavam na Hollwood Boulevard revelaram as suas palavras-passe em direto na TV em troca de alguns segundos de fama no programa de Jimmy Kimmel.

Greg Ferenstein termina o artigo com uma conclusão que nos deve fazer a todos rever o papel da nossa vida privada: “Se a História é um guia, os custos e a conveniência da transparência radical vão levar-nos de novo às nossas raízes como uma espécie que não consegue sequer conceber um mundo com privacidade.”