Sabemos regras de inglês que nem os nativos sabem

Como tudo o que é mecânico é quase inquestionável.

É normal que no nosso dia-a-dia não estejamos propriamente atentos aos tempos verbais que usamos, às vírgulas, determinantes ou pronomes, regras de concordância ou ao grau dos adjectivos. Tudo isto são regras de gramática que para nós são tão intrínsecas como pôr um pé à frente do outro para andar.

É por isso que quando aprendemos uma língua estrangeira muitas vezes somos obrigados a pensar em pormenores que não ligávamos desde os tempos da escola primária. O inglês é um exemplo perfeito disso. São línguas muito distintas, é certo, há até quem diga que a gramática portuguesa é das mais complexas do mundo, em oposição precisamente à inglesa, mas quantas vezes dás por ti a raciocinar para conseguires dar indicações concretas na rua aos estrangeiros que tas perguntam?

O Quartz fez-nos pensar nesta problemática, chamando-nos à atenção para a quantidade de regras que muitas vezes nos ensinam quando aprendemos uma língua nova, que nem os nativos dessa língua sabem. Ou melhor, sabem, mas nem sabem que sabem.

Assim sendo, cada vez que alguém relembra um dos mandamentos esquecidos da língua, funciona como um pequeno choque mágico em cadeia. Principalmente se a chamada de atenção for feita no Twitter. Esta semana, por exemplo, o jornalista Matthew Anderson da BBC apontou uma “regra” sobre a ordem na qual os adjetivos devem ser colocados depois de um substantivo. A julgar pelo número de retweets – mais de 54 mil da última vez que verificámos – o seu esclarecimento foi uma surpresa para muita gente que provavelmente achava que sabia tudo sobre o inglês:

A citação na frase vem do livro “The Elements of Eloquence: How to Turn the Perfect English Phrase”. Os adjetivos, escreve o autor Mark Forsyth, “têm absolutamente tem que estar nesta ordem: opinião-tamanho-idade-forma-cor-origem-material-propósito substantivo.” O exemplo que dá a seguir perde o sentido quando traduzido para português mas é delicioso e bem representativo se que, basta trocar uma palavra da ordem “e parecemos maníacos”.

Em português, não existe uma ordem específica para os adjectivos, até porque é pouco comum que façamos um encadeamento tão grande de adjectivos, mas pensando no inglês, até o conhecimento que temos da língua como não-nativos nos leva a perceber que há algo errado em dizer “black big dog” em vez de “big black dog”. 

Na perspectiva do Quartz, trata-se quase de um conhecimento secreto que todos os nativos partilham sem saber, mas que, em países que não sejam de língua inglesa, é ensinado com detalhes minuciosos. A publicação norte-americana dá o exemplo das escolas na Hungria mas podemos falar por nós, portugueses  que aprendemos inglês básico entre o 5º e o 9º ano, onde também é ensinado esse grande “segredo”. 

Aqui está uma página de um livro, publicado pela Cambridge University Press, usado regularmente para ensinar inglês a falantes não-nativos.

 

Nós somos obrigados a pensar na ordem, “escravos da regra” diz o Quartz. O facto é que muitas regras de gramática do inglês só são uma surpresa para aqueles que a conhecem mais intimamente. Como tudo o que é mecânico é quase inquestionável.

As regras de aprendizagem nem sempre funcionam, no entanto. Forsyth, por exemplo, fala-nos sobre as regras que pensamos que sabemos, mas que na verdade nem existem, vícios que se tornam tão recorrentes que passam a ser pensados como lei. Numa palestra sobre gramática, ele desmantela uma mnemónica típica da língua inglesa: “I before E except after C.” Costuma usar-se para lembrar as pessoas como se escreve palavras como “piece”, mas Forsyth diz que só existem 44 palavras que seguem essa regra, e 923 que não. Exemplos? “Their,” “being,” e “eight.”