Há 53 anos, Sartre rejeitava um Nobel pela primeira vez

A distinção, essa, é inalienável da sua existência.

A história do Nobel é longa e embora todos os anos os intervenientes se renovem, esconde histórias e intrigas muito reveladoras, quer da personalidade dos autores envolvidos, quer da relação do mundo das artes com a questão sempre dúbia dos prémios. Há 53 anos esta cisão conheceu um momento de especial tensão e polémica quando Jean-Paul Sartre, o conceituado escritor e filósofo francês, um dos pais do Existencialismo, recusou a distinção que lhe havia sido atribuída, o Nobel da Literatura em 1964. Jean-Paul Sartre (ou Jean Saul Partre como ironizava com muita piada Boris Vian) tornou-se assim na primeira pessoa a recusar o galardão – um acto repetido apenas 10 anos depois pelo distinto como prémio Nobel da Paz Lê Đức Thọ.

Sartre, cuja vida ficou marcada pela entrega à filosofia e pela presença constante nas frentes de luta política, quase sempre ladeado pela sua mulher, a icónica feminista Simone De Beauvoir, foi galardoado pela sua produção literária que unia de um modo peculiar a arte das letras e a arte do pensamento. 

À nota de rejeição do prémio, Jean Paul Sartre acrescentou uma completa justificação em que detalha os motivos desta decisão:

I was not aware at the time that the Nobel Prize is awarded without consulting the opinion of the recipient, and I believed there was time to prevent this from happening. But I now understand that when the Swedish Academy has made a decision it cannot subsequently revoke it.

My reasons for refusing the prize concern neither the Swedish Academy nor the Nobel Prize in itself, as I explained in my letter to the Academy. In it, I alluded to two kinds of reasons: personal and objective.

The personal reasons are these: my refusal is not an impulsive gesture, I have always declined official honors. In 1945, after the war, when I was offered the Legion of Honor, I refused it, although I was sympathetic to the government. Similarly, I have never sought to enter the Collège de France, as several of my friends suggested.

This attitude is based on my conception of the writer’s enterprise. A writer who adopts political, social, or literary positions must act only with the means that are his own — that is, the written word. All the honors he may receive expose his readers to a pressure I do not consider desirable. If I sign myself Jean-Paul Sartre it is not the same thing as if I sign myself Jean-Paul Sartre, Nobel Prizewinner.

Na nota ficam expressas duas linhas fundamentais que ajudam a compreender a sua atitude. A primeira, que delimita a sua coerência em relação a distinções públicas: Sartre nunca aceitou qualquer tipo de menção honrosa nem mesmo depois da II Guerra Mundial quando foi distinguido como membro da Legião de Honra. E a segunda, que delimita a sua acção: para Sartre um escritor que ganhe abrangência social e política deve fazê-lo sempre com recurso às suas palavras escritas. Assim, na lógica de Sartre, a designação de vencedor de Nobel associado ao seu nome representaria uma carga simbólica injusta.

Na parte final da carta, Sartre destrinça os motivos mais políticos por trás da sua decisão. Para ele o momento de atribuição de um prémio daquela natureza seria como um momento de aprovação burguesa – aprovação que sempre recusou.

Não deixa de ser interessante pensar à luz da filosofia de Jean Paul Sartre a implicação de toda esta história. Para o filósofo, que durante a sua obra nos mostrou a ténue diferença entre a consciência da possibilidade e a acção, recusar uma distinção do género pode implicar algo mais do que uma carta de recusa. Mesmo não tendo recebido o dinheiro ou acrescentado a nomenclatura ao seu currículo, a distinção, essa, é inalienável da sua existência.