Solange e a importância do cabelo para a compreensão do racismo

"Don't Touch my Hair" é já um motto da artista. Agora, foi posto em prática quando uma revista britânica alterou o seu cabelo numa fotografia para a capa.

Não é a primeira vez que a irmã de Beyoncé faz manchetes por causa do seu cabelo. Começou por fazê-lo quando tomou a decisão pública de deixar de gastar dinheiro em tratamentos, cabeleireiros e extensões, denunciando os valores astronómicos que as artistas com descendência africana gastam e a pressão que sofrem para serem aceites e se integrarem nos padrões de beleza ocidentais.

Anos mais tarde, em 2016, inclui no seu aclamado álbum A Seat at the Table, uma música que resume bem esta sua luta. Em “Don’t Touch My Hair”, Solange fala sobre o racismo associado aos cabelos crespos. “A música exprime o que nós sentimos quando nossa identidade é diariamente posta em causa e lembra o quanto é problemático termos sempre alguém a querer tocar nos nossos cabelos”, explicou a cantora, um verdadeiro hino ao significado cultural e pessoal do cabelo para as mulheres afro-americanas.

Parecia um pedido directo e relativamente simples de atender, mas uma revista britânica conseguiu ignorar por completo uma questão que, se para muitos podia ser apenas um pormenor, para Solange é um aspecto “profundamente espiritual, que exprime quem somos”, elevado por si a uma campanha culturalmente poderosa.

No Instagram, a cantora recorre de novo ao seu motto (desta vez em siglas: “dtmh”) para pedir que, literalmente, não toquem no seu cabelo. Tudo porque a publicação Evening Standard alterou uma fotografia sua na qual Solange aparecia com um penteado conceptual, onde os seus cabelos pareciam quase uma escultura.

dtmh @eveningstandardmagazine

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No feed, Solange publica a fotografia original e nas Stories partilhou uma fotografia da capa da revista, que circulou com a imagem alterada na capa.

Solange Knowles: this week’s ES Cover star. Read the link in bio for our apology to the star.

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A revista publicou posteriormente um pedido de desculpas onde tenta redimir-se: “Estamos muito contentes de ter tido oportunidade de entrevistar Solange Knowles e gostaríamos de nos desculpar se a sua imagem na capa da revista foi fonte de algum desconforto e a ofendeu. A alteração da imagem teve a ver com o layout da capa, mas assumimos que foi uma decisão errada e gostaríamos de pedir desculpa a Solange”, diz a nota publicada no site da revista.

Decisões destas com base na estética, organização da estrutura das revistas ou com um propósito puramente comercial acontecem praticamente todos os dias – quem nunca ouviu falar de polémicas relacionadas com o photoshop em revistas? – mas alterar um aspecto físico de alguém que faz precisamente disso uma das bandeiras da sua carreira, quando ainda por cima essa sua luta é mencionada na entrevista que publicam umas páginas à frente, é só muito confuso. É que na entrevista publicada pela Evening Standard, Solange refere como para si, entrançar os cabelos “é um acto de beleza e tradição”, destacando o trabalho do cabeleireiro Joanne Petit-Frère, que fez o penteado para a sessão – declarações que acabaram por ser ignoradas pela editoria da publicação, que dessa forma apaga também explicitamente a identidade cultural da cantora.

Para confirmar a dimensão da polémica, a jornalista que escreveu a peça, Angelica Jade, acabou mesmo por se manifestar contra a decisão da revista de modificar o penteado de Solange. “Eu rejeito publicamente o trabalho do London Evening Standard sobre Solange publicado hoje [sexta, dia 20]. É um fiasco total apesar de meus esforços”, escreveu a jornalista na sua conta de Twitter. “Eu pedi ao meu editor-chefe que tirasse meu nome da entrevista porque meu trabalho foi sabotado e isso me deixa muito desconfortável.”