Trump é mais um protagonista no The Handmaid’s Tale da vida real

A Administração Trump anulou um decreto que obrigava as entidades empregadoras a incluir métodos de contracepção na cobertura dos planos de saúde.

 
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Começamos os artigos sobre os Estados Unidos desta forma mais vezes do que gostaríamos: Esta é a mais recente polémica da Administração Trump. Como outras, esta decisão serve para anular uma medida promovida por Barack Obama, no Obamacare, que obrigava a maioria das empresas norte-americanas a fornecer métodos contraceptivos às funcionárias sem qualquer custo, incluindo-os nos planos de saúde.

Agora, segundo o novo regulamento aprovado pelo actual executivo, as empresas podem optar por não oferecer a cobertura dos métodos contraceptivos alegando motivos religiosos ou morais.

Segundo o Affordable Care Act (ao qual os norte-americanos carinhosamente chamam Obamacare), as casas de culto e grupos religosos sem fins lucrativos estavam isentos desta medida. Agora, com a revisão feita pela nova Casa Branca, a isenção foi ampliada a todas as empresas comerciais do país.

A decisão de Donald Trump representa não só um duro golpe para aquela que foi uma das bandeiras políticas de Barack Obama como na vida de milhões de mulheres norte-americanas, que até agora viam os seus métodos contraceptivos integralmente reembolsados pelo Governo.

Para o actual governo, a administração de certos contraceptivos “pode estar associada a comportamento sexual de risco entre adolescentes e jovens adultos”. Além disso, o antigo decreto impunha um “fardo substancial” ao livre exercício da religião por parte de certos empregadores que se opõem a isso.

Já em Maio passado, Donald Trump assinou um decreto sobre a liberdade religiosa que previa, nomeadamente em decisões da própria administração norte-americana, a aplicação da figura de “objecção de consciência” em matérias relacionadas com a contracepção.

The Handmaid’s Tale – para muitos uma realidade possível

As reacções não se têm feito esperar. De um lado estão os grupos religiosos que se tinham oposto à decisão de Obama e que agora aplaudem a de Trump. Do outro, estão as organizações de direitos das humanos e a comunidade médica que lamentam a mudança e advertem para o possível aumento do número de gravidezes não desejadas. Para muitas associações feministas, este passo é, sem surpresas, a confirmação da política conservadora e de direita do Executivo, associada à doutrina pró-vida e anti-aborto que caracteriza a ideologia deste tipo de regimes.

“Let’s be clear: this rule has nothing to do with religion. Under the Affordable Care Act (ObamaCare) religious organizations already have an accomodation that still ensures their empolyees get coverage through other means.” Dana Singiser, Planned Parenthood

Em resposta, organizações como a Planned Parenthood ou a National Women’s Law Center apresentam números: mais de 62 milhões de mulheres beneficiaram da medida aprovada no âmbito do ObamaCare; em apenas um ano, a medida poupou às mulheres bem mais de mil milhões de dólares, só olhando para a pílula; olhando mais atrás no tempo, são seis vezes mais as mulheres que completam a universidade agora do que antes da contracepção ser legal; e por fim, a taxa de gravidez entre mães adolescentes caiu para metade na última década e os cientistas associam os valores ao melhor uso e acesso aos métodos contraceptivos.

A organização Center for Reproductive Rights vai mesmo agir em tribunal e lançou uma petição que já conta com dezenas de milhares de assinaturas, dizendo que as opções pessoais de cada pessoa em termos de saúde não podem ser um assunto gerido pelos patrões.

A verdade é que extrapolando o tema, lembramo-nos da recente epidemia de comparações que houve nos EUA quando saiu The Handmaid’s Tale. A distopia assustadora criada por Margaret Atwood acompanha o fim dos Estados Unidos como os conhecemos e a transformação do país numa nova sociedade, regida por princípios totalitários de matriz cristã, liderada por comandantes, que através da força militar impõe a nova ordem, abolindo direitos humanos e principalmente os das mulheres. Na série, e no livro que lhe deu origem, a onda de infertilidade que assola o país leva os líderes da Gilead (esta nova sociedade) a reunir as últimas mulheres férteis numa espécie de campo de concentração onde são treinadas para servir os comandantes máximos e as suas famílias com o seu ventre. Cada mulher é depois atribuída a uma família de topo de Gilead, mantida como criada, violada e violentada de modo a engravidar e garantir a descendência da elite.

O romance é como dissemos e sublinhamos distópico e foi escrito em 1984 para, à época, ser chocante, mas o que é certo é que tratando-se de uma ficção especulativa (chamada assim pela autora) não se afasta muito de várias realidades. Algo muito semelhante à onda tóxica que afecta a natalidade dos Estados Unidos na série (e de Cambridge no livro) está provada existir na China, por exemplo. E se, enquanto na obra de Atwood o cenário real onde nasce o pesadelo é especificamente Cambridge no Massachussets, casa da conceituada Universidade de Harvard, na série os seus criadores transpuseram o mundo para a Boston dos dias de hoje, com os arranha céus e as roupas de hoje em dia, aumentando dessa forma o nível de relacionamento.

Como uma espécie de realidade aumentada, foram muitas as mulheres que quando The Handmaid’s Tale cresceu em sucesso depressa se manifestaram dizendo que aquele mundo não estava muito longe da realidade. Dezenas de artigos de opinião viam a série como uma chamada de atenção para as mulheres conservadoras de hoje e estados mais ideologicamente fechados como o Texas ou o Indiana. Outros milhares de mulheres foram para as redes sociais salientar a proximidade irónica das duas realidades. A punição e a morte a quem se rebele ou seja protagonista de qualquer transgressão sexual ou moral, o apedrejamento de mulheres às mulheres que não conseguem engravidar, a interferência do Estado nas vestes das handmaids (idênticas às das freiras), os enforcamentos públicos… Desde mulheres detidas na Arábia Saudita por usarem mini-saias, ao “apedrejamento” psicológico e social que é feito às mulheres que não casam e não têm filhos, quase tudo descrito no livro tem um paralelo com um estado totalitário ou religioso, um regime militar, uma ordem religiosa ou culto, ou até mesmo com a sociedade ocidental hoje. Parece que, para imaginar e usar como inspiração este tipo de leis e punições monstruosas, Atwood só teve que olhar para a história recente e para o mundo à sua volta e acabou até por prever de forma messiânica algumas realidades.

O que importa perceber é que de forma literária e metafórica, um olhar geral por aquela que é uma das séries do momento é assustadoramente comparável a alguns regimes mais conservadores e a algumas decisões de teor quase patriarcal que, em sociedades ditas desenvolvidas, têm feito machetes por esse mundo fora. A oposição a medidas como a que foi apresentada por Trump a semana passada, não é o feminismo categórico.

First, is “The Handmaid’s Tale” a “feminist” novel? If you mean an ideological tract in which all women are angels and/or so victimized they are incapable of moral choice, no. If you mean a novel in which women are human beings — with all the variety of character and behavior that implies — and are also interesting and important, and what happens to them is crucial to the theme, structure and plot of the book, then yes. In that sense, many books are “feminist.” Why interesting and important? Because women are interesting and important in real life.

Aliás, mantendo a relação comparativa com a obra de Atwood e as realidades de hoje em dia, nada como ler a própria, num artigo de opinião que escreveu para o New York Times, onde refere as três grandes perguntas que lhe fazem e faz a si própria desde o boom da sua obra. A escritora canadiana classifica o seu livro como ficção especulativa e não ficção científica, precisamente por assumir que o seu retrato pode vir a acontecer.

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