O todo-poderoso Xi Jinping e o que será do resto do mundo

O "pensamento" de Xi Jinping foi oficialmente integrado na constituição do Partido Comunista Chinês o que confere ao actual Presidente da China um estatuto idêntico ao de Mao Tsetung.

Tudo começou com a reeleição de Xi Jinping como secretário-geral do Partido Comunista Chinês, que o consagrou como o líder chinês mais poderoso desde Mao Tse-Tung. É o primeiro Presidente chinês desde o histórico líder a ver a sua doutrina e ideologia ser incorporada na Constituição do Partido Comunista Chinês, com o nome “Pensamento de Xi Jinping”.

O anúncio simbólico aconteceu no último dia do congresso do partido – que se prolongou por uma semana – e em que Jinping prometeu liderar a segunda maior economia do mundo rumo a uma “nova era” de poder internacional e influência. Mas o que significa isto?

Significa, por exemplo, que Xi Jinping abre assim uma nova fase de liderança sem um sucessor óbvio, preparando-se para dominar a política no país por décadas. Este cenário dá-lhe um nível de estabilidade e influência de fazer inveja à maioria dos líderes mundiais, com a continuação da liderança da segunda maior economia do mundo e de uma das forças armadas mais fortes, sem qualquer adversário ou ameaça ao seu poder.

Donald Trump, Angela Merkel e Vladimir Putin felicitaram o Presidente chinês com chavões do costume como: “os resultados da votação confirmaram plenamente a autoridade política de Xi Jinping e o amplo apoio à sua política de desenvolvimento socioeconómico da China e de fortalecimento das suas posições internacionais” (Putin), “Aos meus parabéns, acrescento a esperança de continuar a desenvolver uma cooperação intensa e amigável entre os nossos dois países” (Merkel) ou a elevação de Jinping a “Rei” que Trump assinou numa declaração à Fox.

Mas olhando a situação de todas essas potências – juntando o Reino Unido de Theresa May, por exemplo – todas enfrentam uma intensa oposição interna, e poucas se podem vangloriar da estabilidade e da segurança económica da administração de Jinping.

O triangulo pouco amoroso entre a China – EUA – Coreia do Norte

Já esta manhã, o Presidente norte-coreano felicitou o seu homólogo chinês pela elevação e êxito e desejou-lhe sucesso. Kim Jong-un, que lidera o Partido dos Trabalhadores, partido único da Coreia do Norte, afirmou ainda que “as relações entre os dois partidos e os dois países se desenvolverão de acordo com os interesses dos povos de ambas as nações”.

A mensagem deixa transparecer o que tem sido a relação entre os dois países desde que Jinping ascendeu ao poder. A China é o principal aliado da Coreia do Norte mas a insistência do regime de Jong-un em prosseguir com o controverso programa nuclear tem trazido alguma tensão à convivência entre Pequim e Pyongyang. O Governo de Jinping votou a favor de várias sanções impostas pelo Conselho de Segurança da ONU à Coreia e aprovou mais medidas unilaterais, como o encerramento de empresas norte-coreanas em território chinês, a proibição de importações de têxteis do país e limitação no fornecimento de petróleo. Desde que, em 2013, subiu à cadeira do poder, Xi Jinping nunca se encontrou com Kim Jong-un, e foi o primeiro líder chinês a visitar a Coreia do Sul antes de ir à Coreia do Norte.

Na quarta-feira, numa cerimónia altamente coreografada em Pequim, Xi disse que a sua liderança será “firme na defesa da soberania, da segurança e dos interesses de desenvolvimento do país”.
James McGregor, autor do livro “No Ancient Wisdom, No Followers: The Challenges of Chinese Authoritarian Capitalism” analisa o episódio dizendo que “Ele tem esta narrativa de ‘A China era óptima, os estrangeiros arruinaram-na e o partido trouxe-a de volta.”

Em nenhum aspecto, a nova liderança optimista de Xi foi mais óbvia do que na política externa e militar da China. “Mais do que seus predecessores, Xi tentou aproveitar a força diplomática e militar da China para pressionar as reivindicações territoriais de Pequim nos mares da China Oriental e do Sul da China, e bloquear os interesses do país em seu flanco ocidental”, analisa um relatório do Instituto Lowy.

Sobre o principal ponto de disputa entre a China e os EUA – a Coreia do Norte – a Pequim de Jinping também se mostrou um passo à frente, eliminando alguma da pressão de Washington para tomar uma posição mais firme contra Pyongyang.
Tong Zhao, do Centro Carnegie-Tsinghua para Política Global em Pequim, disse que há especulações de que Xi “terá cobertura para enfrentar a ameaça da Coreia do Norte após o Congresso do Partido”, sem esquecer algum cepticismo face às políticas de completa desnuclearização da Coreia do Norte que a Administração vê como uma “total ilusão, completamente irreal e potencialmente perigosa para a China”.
“A preocupação esmagadora de Pequim nos últimos meses foi manter os EUA e a Coreia do Norte quietos até ao Congresso Nacional do Partido Comunista”, escreveu o analista Adam Mount na CNN esta semana. A tarefa mostrou-se bem-sucedida, sendo menos provável que a China tenha que se dobrar perante os EUA para tomar uma posição contra o vizinho, potencialmente prejudicando a sua própria economia ou desestabilizando um país de milhões junto à sua fronteira.

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