Brass Wires Orchestra mostram como chegar perto do Sol

Brass Wires Orchestra apresentaram Icarus no Musicbox.

É uma mania portuguesa colarmos etiquetas a projectos nacionais com comparações injustas a projectos estrangeiros, extorquindo-lhes assinaturas sónicas. Mostrando-nos Icarus pela primeira vez ao vivo na passada quinta-feira, os Brass Wires Orchestra emanciparam-se de comparações a Beirut ou Mumford and Sons. Estava um Musicbox cheio e esfomeado pelo fim da longa espera pelo segundo registo de estúdio da banda.

Antes de me lançar ao concerto em si, aproveito para maldizer o Musicbox. Não é a primeira vez que me mostro desapontado com as características acústicas e com a qualidade sonora que a casa apresenta. Desta vez tornou um arranjo denso numa mescla de ruído imperceptível. Os sopros ora não se ouviam ora estavam demasiado altos, o banjo eléctrico pouco se notava na mistura e as vozes secundárias quase que pareciam mentira.

Tirando este obstáculo da frente, foquemo-nos nas reais razões pelas quais fomos ver Brass Wires Orchestra. A banda subiu ao palco, cumprimentou o público e fez finalmente descer o longo cortinado que escondia as novas canções. Caso ainda não se tivesse ouvido o disco via streaming, a experiência de o escutar ao vivo só deixaria a salivar por ouvir o registo em estúdio, graças à sumarenta prestação da banda, que se notava satisfeita por tocar o novo registo. Ainda ganhou pontos extra com o teclista Gui Salgueiro, que se comportava que nem um maestro ninja, dando sinais à banda enquanto lançava a backtrack que anunciava instrumentos ausentes, fossem violinos, violoncelos ou sopros que não estavam à vista. Uma vez que foi o concerto de lançamento, julgo que seria justificado ter levado mais músicos a palco, mas compreende-se que por questões logísticas isso seria difícil de concretizar.

Nota-se uma maturação do som da banda, com o alargamento do elenco instrumental com sintetizadores, sequenciadores, guitarras com pedais, e até arranjos detalhados de cordas, criando paisagens sonoras bastante ricas. Deixam assim para trás as características proeminentes no indie folk rock, mudando inclusivamente a abordagem face à guitarra acústica.

O conjunto optou por deixar de lado a maior parte de Cornerstone – o primeiro registo da banda – e por tocar Icarus na íntegra, mas é natural que o público tenha cantado apenas “Tears of Liberty” a plenos pulmões. No entanto, a banda conseguiu fazer o público interagir com o novo disco graças ao refrão repetitivo de “Zephyr”.

A noite ainda teve direito à participação de alguns convidados especiais para cantar um par de canções com a banda. Em “Wash My Soul”, a banda convida Ana Bacalhau a cantar os primeiros versos e ainda a fazer jogos de vozes no refrão. Caiu num erro amador de ceder um festival de playbacks em partes de silêncio, mas conseguiu redimir-se com uma fantástica entrega no final da canção. Algumas canções depois foi a vez do rapper NBC a entrar de surpresa, trazendo uma energia cinética e refrescante ao espectáculo, adicionando uns versos extra à canção homónima ao disco.

O único capítulo em que, na minha opinião, a noite perdeu pontos foi o do momento em memória ao falecido Luís Abrantes, cuja companheira enviou uma mensagem à banda e foi recitada por Miguel da Bernarda, vocalista do grupo. Em momentos sentimentalmente frágeis como estes, é necessário abordar o tema com o devido respeito. Julgo que requeria melhor preparação.

Chegando ao final da noite, a banda despede-se de uma maneira despropositadamente irónica com o tema “Sitting at The Wrong Church”, convidando o público a continuar a festa na casa ao lado, para celebrar o 39º aniversário do Tokyo. A gaffe é apercebida rapidamente e ainda antes de começaram a tocar, ouvimos o trompetista Luís Grade Ferreira agradecer “Foi um prazer tocar pela última vez no Musicbox”, restaurando com humor o momento menos oportuno.

Fotografia: Teresa Lopes da Silva

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