Castelo de São Jorge: uma pequena mentira de Salazar

Pessoa guardava as pedras do caminho para construir um castelo, Salazar pegou nos castelos e edificou o Estado Novo. 

Foto: Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian

A época do Estado Novo também foi tempo de reconstrução patrimonial. Nos finais do 2º modernismo português (1930), os castelos entraram em período de obras e transformações, cujo objectivo era preconizar o patriotismo Salazarista.

Na famosa lição de Salazar, que educa os jovens desde cedo para a trilogia Deus-Pátria-Família, é possível observar na janela o Castelo de São Jorge, em Lisboa, com a bandeira nacional hasteada numa torre. Esta construção é um dos muitos exemplos de obras públicas que o Estado financiou.

Os castelos medievais, construídos nos séculos X, XI e XII, não escaparam ao tempo, que os foi deteriorando pouco a pouco, nem ao terramoto de 1755, que para alguns deles significou destruição total. Antes da década de 40 do século XX, a ausência de castelos portugueses era um factor corrente. As construções eram caracterizadas por meia dúzia de pedras e eram raros os vestígios quer de muralhas quer de torres, escadarias ou mesmo palacetes.

O Castelo de São Jorge antes (esquerda) e depois (direita) das intervenções salazaristas

Luís Correia, professor da Universidade de Coimbra, explica que nas obras do castelo de São Jorge, à semelhança de outras, foi potenciada “a heroicidade do passado”, através de “ameias e torres” no monumento, que acabou por ficar “à vista, a regular o quotidiano” de Lisboa. A construção medieval do castelo não passa de uma aparência utilizada para a propaganda do regime, que desejava atribuir a muitos dos monumentos nacionais uma inata pureza original, mas que muitas vezes não passou de uma recriação livre dos edifícios por parte de arquitectos e decoradores.

Em Guimarães realizaram-se obras de intervenção, cujo resultado foi um harmonioso edifício de torres direitas e ameias simétricas rodeado de árvores gigantes e robustas e de extensos relvados. Também as igrejas foram alvo de reconstruções, como testemunho do Estado Novo.

O legado Salazarista vai além da ideologia imposta às massas e está presente nos nossos dias através de obras públicas que século após século têm acompanhado a história lusitana.