O filme de terror mediático em que se tornou Charles Manson

O assassino em série mais conhecido dos EUA morreu esta madrugada aos 83 anos.

Já muito se disse, escreveu e realizou sobre Manson. A sua figura foi eternizada pelos media norte-americanos e pela indústria cinematográfica que, apesar da imagem Hollywoodesca de felicidade que tenta transmitir, sempre se interessou pelos crimes mais macabros. Uma personalidade elevada mediaticamente a mito, com romances, filmes e canções que, analisando uma figura amoral, acabam por lhe ceder o estatuto de culto.

O caso surpreendeu os EUA. Os detalhes arrepiantes e a insensibilidade do crime ainda chocam e fascinam pessoas mais de quatro décadas depois. A 16 de Junho de 1970, Charles Manson e três das suas seguidores – Susan Atkins, Patricia Krenwinkel e Leslie Van Houten – foram julgados em Los Angeles por uma série de assassinatos. Pertenciam a uma espécie de seita à qual mais tarde se veio a chamar “Família Manson”.

O primeiro conjunto de vítimas foram a actriz Sharon Tate, grávida de oito meses; um cabeleireiro-celebridade chamado Jay Sebring; a herdeira da fortuna de um negócio de café, Abigail Folger; o escritor Wojciech Frykowski; e Steven Parent, amigo da família. Cada um foi morto com contornos selvagens a 9 de Agosto de 1969, na casa de Tate e do seu marido, o famoso diretor de cinema Roman Polanski, que estava fora do país na altura.
Na noite seguinte, ocorreu outro assassinato. O executivo de uma cadeia de supermercados Leno LaBianca e sua esposa, Rosemary, foram mortos em casa.

Ao longo de duas noites, os assassinos levaram a vida a sete pessoas, infligindo 169 facadas e sete ferimentos de bala. Ambas as cenas do crime revelaram detalhes horríveis e comuns entre si. A palavra “pig” foi escrita com sangue das vítimas nas paredes de uma das casa e na porta de entrada de outra. Havia também outra frase aparentemente rabiscada no sangue: “Healter Skelter” – uma referência a uma música dos Beatles (“Helter Skelter”) do álbum The Beatles que ficou conhecido como “The White Album”, que Manson reconheceu ter usado para tentar incriminar o grupo activista Panteras Negras pelos assassinatos.

Como se todos estes detalhes não fossem suficientes para horrorizar uma nação mergulhada na paz hippie dos anos 60, Manson e seus seguidores criaram uma atmosfera de circo no tribunal. Cantos, risadas lunáticas, ataques de raiva e até mesmo, “X”s cravados na testa à faca (que Manson mais tarde transformou numa suástica).

Charles Manson foi condenado a pena de morte em Abril de 1971 num caso em que se deram como provadas 27 diferentes acusações, descortinadas depois de Susan Atkins, que já estava presa por outro caso, se ter gabado a um colega de cela sobre os assassinatos na casa Tate/Polanski. Disse que o fizeram “porque queríamos cometer um crime que impressionasse o mundo”.

Depois de todos estes anos, os homicídios continuam a fazer precisamente isso. Manson acabou por ver a sua sentença comutada em prisão perpétua devido a uma suspensão da pena de morte no estado da Califórnia em 1972. Foi acusado de sete crimes de homicídio em primeiro grau, bem como as suas 3 seguidoras mulheres. Charles “Tex” Watson, o seu quarto discípulo seita, foi julgado à parte.

A sua personalidade manipuladora e descrita por muitos como incrivelmente intrigante chegou a ser comentada e analisada por médicos e especialistas. Manson nunca mostrou qualquer arrependimento e conseguiu orquestrar nove assassinatos sem nunca ter sujado as próprias mãos.

Reza a lenda que, durante a sua infância, a mãe de Manson o vendeu a uma mulher que queria ter filhos, em troca de cerveja.
A sua história não podia ser simples. De acordo com os documentos usados em tribunal e outras análises feitas durante e depois do julgamento, Manson tem um historial familiar de manipulação, controlo e doenças mentais que incluem esquizofrenia e comportamento delirante paranóico.

Em 1967, quando foi libertado da cadeia de Terminal Island, tinha 32 anos e tinha passado mais de metade da sua vida em prisões e outras instituições correccionais. No livro de Vincent Bugliosi, Helter Skelter, um dos livros mais vendidos de sempre nos Estados Unidos, refere-se mesmo que Charles Manson, não conhecendo outra realidade, terá pedido para não o libertarem.

Foi na prisão que encontrou o seu interesse pela música, que lhe valeu mais tarde a edição do álbum Lie: The Love and Terror Cult, o primeiro e mais conhecido trabalho musical de Charles Manson. Foi “apadrinhado” por Dennis Wilson dos Beach Boys, que o apresentou a alguns executivos da indústria de Los Angeles numa tentativa de lançar a sua carreira musical.

Apesar da sua educação formal ser praticamente inexistente, com todos os anos que passou institucionalizado, tinha um Q.I. acima da média, com os testes oficiais a revelarem valores entre os 109 e 0s 121.

As visões de Manson misturavam cientologia e satanismo aprendido na prisão, e mostraram ser suficientemente psicadélicas para impressionarem principalmente raparigas das zonas que viriam a ser os centros difusores do movimento hippie, que ameaçava romper com os cânones conservadores dos EUA.

Charles Manson morreu esta madrugada aos 83 anos, depois de ter sido hospitalizado de urgência na passada quinta-feira. Esteve preso mais de 40 anos, e a sua história nunca esteve longe dos holofotes. O fascínio pop que o envolve deverá acompanhá-lo post mortem.