50 anos depois, Forever Changes continua subvalorizado

“Well, forever changes.” 

Tantos são os que apontam a importância de Forever Changes como algo desproporcional ao sucesso comercial que obteve, que se torna bizarro que, ao contrário de vários outros álbuns essenciais de 1967 (a estreia dos Doors, Velvet Underground & Nico e Sgt. Peppers), o 50.º aniversário do 3.º dos Love tenha tido direito a quase nada.

“Um dia vou ser famoso” (Arthur Lee)

Em tudo o que fazia na adolescência queria ser o melhor. E era. Segundo a biografia Forever Changes: Arthur Lee and the Book Of Love, terá marcado 41 pontos num só jogo de basquetebol, record que permaneceu intocável ao longo de vários anos, e terá equacionado o boxe. Acabou por ser a música a dar-lhe a almejada fama. Os Beatles no Ed Sullivan inspiraram-no, Elvis também, os Beatles e os Stones idem, mas terão sido os Byrds a deixá-lo de queixo caído com o folk-rock de 12 cordas.

“Escrevo como se estivesse a escrever uma carta” (Arthur Lee)

No final da década de 60, os Love colocavam-se do lado dos Doors, companheiros editoriais e de cidade, e partilhavam o mesmo cinismo perante onda luminosa do Summer of Love. Não custa muito acreditar que para um afro-americano como Arthur Lee (cérebro de quase tudo o que está aqui) a luta pelos direitos civis lhe fosse cara. No documentário Love Story diz que um amigo o aconselhou a não tocar em assuntos como a política e a religião. “Ele [o amigo] estava enganado”,  conclui. Repare-se: o grupo era racialmente misto. Em comum com Hendrix e Chuck Berry, tinham o facto de serem “negros a criar música de branco” (Berry chegou enganar muito boa gente através da rádio, gente que o deixou de ouvir quando descobriu que aquela voz era, afinal, a de um negro) e idolatrados, o que, por si só, já vale uma óbvia associação à luta pelos direitos cívis. Mas a “parceria” com os Doors ficou-se pela companhia editorial e o já citado cinismo: todo o resto acaba por “soar” a rivalidade que, no que diz respeito a aclamação pública, foi ganha pelos homens de “Light My Fire”. Ambos misteriosos, Arthur e Morrison eram, no entanto, donos de um diferente tipo de génio. Arthur não tinha referências literárias, Morrison lia vários escritores, principalmente poetas.

Nas palavras do próprio, Arthur terá pressentido que não passaria do Verão de 67 e criou um testamento, algo que espelhasse o que sentia, daí que o resultado seja tão pessimista e propositadamente afastado dos ideias do Summer of Love que entretanto já era história. Mas este é também um disco sobre o deteriorar da relação entre Arthur e o outro ego do grupo: Bryan MacLean. Seria a última vez que a formação original gravaria junta. Não é que Forever Changes tenha saído em exclusivo da mente de Arthur, mas não deixa de ser extraordinário que o “acionista maioritário” não soubesse ler pautas. Arthur e Bryan eram, mais do que companheiros, rivais: em música, em miúdas, em tudo. O que não impedia que, em última instância, o grupo fosse de Arthur. Dizia que queria que a colaboração com Bryan fosse de igual para igual, mas não acreditava nessa ideia. Dizia por dizer. Aliás, embora o álbum conte com a colaboração de todos, está documentada a forma ditaturial como comandava os Love. Por exemplo: não havia manager que durasse muito tempo com a banda.

“ O jazz transmite mais sentimento que o rock” (Arthur Lee)

“O primeiro disco era para dançar, o segundo para ouvir num sofá.” E se Da Capo os inclui no vasto catálogo psicadélico, Forever Changes afasta-os para algo completamente diferente em 1967: um registo folk-rock latino-americano, culpa dos trompetes e do som tipo Herb Alpert & the Tijuana Brass, grupo que nesse mesmo ano lançara Sounds Like… um dos best sellers do ano.

E a história do título do disco? Arthur estaria a terminar com uma então namorada e, a certa altura, esta diz que ele o prometeu amar para sempre. Resposta: “Well, forever changes.”