Jameson Urban Routes: duas noites no festival do Musicbox

Hip-Hop da primeira noite. Stoner Rock e Punk-Electrónico-Funaná no principio desta segunda noite.

Porque é que uma sala de concertos decide fazer um festival de música? Sem palcos grandes ou palcos em simultâneo, mas com um cartaz de fazer encher a pequena cave do Cais do Sodré durante noites seguidas. Fomos a duas delas: a de Havoc, dos Mobb Deep; e Black Bombaim & Peter Brötzmann.

Com o Hip-Hop da primeira noite, o Stoner Rock e Punk-Electrónico-Funaná do principio desta segunda noite, podemos perceber que o elenco das Jameson Urban Routes é vasto e variado em termos de género.

Havoc

Nem sempre o Hip Hop foi coisa de gangsters. Antes de rebentar a onda mais rua do sub-género, o Hip Hop tinha mais funk, mais disco e mais alegria para dançar. Reinavam os outfit combinados, com camisa de seda, casacos e calças de cabedal. As boinas paletas, as botas de fazer inveja a rockstars e a preocupação com o visual combinava com as rimas populares, divertidas e auto-glorificantes. Quando a vontade de gritar sobre um dia-a-dia de rua pesado surgiu, os N.W.A. dominavam uma nova era para o que vinha a definir o futuro do Hip Hop. Fuck Tha Police, fuck a roupa fancy e as boys bands de beats. Venham os Adidas Superstar, os Nikes brancos, as calças largas e a sweat de todos os dias, que ganharam expressão em rimas problemáticas, carregadas de insights pessoais.

Weast Coast contou verdades e criou vontades que alastraram até ao outro lado, onde os Mobb Deep (Havoc e Prodigy) elevaram as fasquia para uma cena mais hardcore com beats mais pesados, texturados e agressivos. A revolta vincou a imagem dos Infamous de Queensbridge, que influenciou tantas das bandas que dominam os nossos Spotifys. O estilo cru e gangster desta instituição do rap de NY dos anos 90 não fazia questão de romantizar o crime a a violência que viviam. A falta de filtro fez deles um dos projectos mais fortes do Gangster Rap.

Mas um gangster também chora. A abertura desta edição do James Urban Routes, com a curadoria da Versus, chegou demasiado perto da morte de Prodigy, o que transformou a actuação de Havoc numa verdadeira homenagem à sua vida, carreira e rimas. Com a companhia de Big Noyd e Dj L.E.S. montaram uma performance sentida numa retrospectiva pelos clássicos do grupo. A abrir com a mítica “Survival of the Fittest” e acabar com o hino “Shook Ones Pt.2”, a voz de Prodigy fez-se sentir. Por vezes até ouvir, com samples do rapper a rodar pelo meio das malhas, celebrando o legado de uma das vozes mais características do Hip Hop de NY.

Pelo meio houve uma lista infindável de mais clássicos de Boom Rap e malhas dos projectos a solo que Havoc tem lançado ao longo dos anos. O ambiente com sentimento de pertença de uma família unida pelas rimas é cada vez uma identidade das festas da Versus. E esta para aqueles que no ano passado tiveram a última oportunidade de ver Mobb Deep por completo, no Santiago Alquimista, pode até ter sabido a pouco. Mas vai certamente ficar na memória pela mais sentida.

Texto de: Cláudio Soares
Fotos de: Joana Correia/Shifter

Black Bombaim & Peter Brötzmann

Se começasse a contar a história de que numa noite no Musicbox vi um alemão idoso, de bigode charmoso a fazer telhado a um saxofone, sem qualquer contexto já daria para perceber que a noite era de testemunhar. Ora o contexto foi o seguinte: assistimos à primeira sessão da segunda noite da Jameson Urban Routes, onde pudemos ver as prestações de Black Bombaim & Peter Brötzmann e de Scúru Fitchádu.

E voltemos ao princípio deste texto. Peter Brötzmann iniciava o concerto com “Part I”, pertencente ao disco em que colaborou com os nossos conterrâneos Black Bombaim, estes que, depois de uns minutos de solo de saxofone, atropelavam o alemão com uma bateria enérgica com pratos atrevidos e padrões rítmicos contagiantes, num mantra criado pelo baixo e com várias texturas produzidas pela guitarra, que de vez em quando tocava uns leaks orelhudos.

São experiências consideravelmente diferentes, a de ouvir esta banda em disco e ao vivo. Enquanto em estúdio, existe um sentido lógico de organização musical, há espaço para respirar e dá para ouvir todos os membros com facilidade, ao vivo, torna-se um som bem mais sujo e ébrio, em que o caos organizado dita que o limite inultrapassável é a cacofonia. É ainda assim de referir que a acústica do espaço é capaz de não jogar a favor da banda. No entanto, não foi impeditivo de uma boa experiência. O referido mantra funciona a mais altos decibéis, as dinâmicas tornam-se mais efusivas e é curiosa a batalha que nasce entre o destaque do saxofone e o resto da banda.

Alguns minutos de pausa entre as duas bandas provocaram a oportunidade de beber 25cl de Jameson em shot, o que na minha opinião pessoal parece uma estratégia mal executada por parte da marca, onde o cliente devia ser incentivado a desfrutar do sabor do uísque. No entanto, serviu de presságio para o choque que era a passagem da primeira para a segunda banda.

Começava um beat veloz e agressivo e Scúru Fitchádu já pisava o palco, salpicando o público com um metafórico balde de água fria. As texturas de punk entrelaçadas com uma electrónica pesada ao ritmo de Funaná regiam a segunda parte desta sessão, que infelizmente assustou alguma parte do público para fora do Musicbox. Todo o trio metia mãos em percussão, sendo os exemplos de ferro (sim, uma barra de metal segurada na vertical tocada percussivamente), woodblock e uma bateria sem bombo, este que era reproduzido pela backtrack lançada.

Desculpando a repetição rítmica com o conceito do Funaná, o espectáculo dirigido por Scúru Fitchádu era condimentado por rugidos de pró-revolução em crioulo cabo-verdeano, suportados por linhas de baixo igualmente severas. Ainda deu espaço para solos de bateria e de concertina, e até o público participou com palmas, replicando a cadência rítmica sobre-explorada.

Texto de: Vasco Vilhena
Fotos de: Vera Marmelo