“As minhas medidas são 2.202 casos de feminicídios.”

O protesto das candidatas a Miss Peru contra o estereótipo.

 

Contra todos os cânones, as candidatas a mulher mais bonita do Peru trocaram o famoso 86-60-86 pelos pelos números expressivos de violência contra as mulheres no país. No domingo, o concurso de Miss Peru deste ano desafiou os estereótipos e transformou-se num momento de sensibilização para a violência de género e contra menores no país.

O protesto deu-se logo no início do evento, quando se apresentavam ao público, as concorrentes — que deveriam referir-se às medidas do seu corpo — partilharam outros números: “O meu nome é Camila Canicoba e eu represento Lima. As minhas medidas são os 2.202 casos de feminicídios [violência contra mulheres] registados nos últimos nove anos no meu país”, disse uma das concorrentes.

Romina Lozana, a Miss que acabaria por vencer o concurso, disse que as suas medidas eram as “3,114 mulheres vítimas de tráfico humano até 2014”. Belgica Guerra enunciou: “As minhas medidas são: o universo de 65% de mulheres que são agredidas pelos seus parceiros.” 

Os direitos das mulheres voltaram aos holofotes na fase do desfile em biquíni, as candidatas percorreram a passerelle tendo como pano de fundo imagens de recortes de jornais com notícias que ilustram so casos em que as mulheres são, muitas vezes, as vítimas mortais. “Proponho que seja criada uma base de dados com os dados de cada agressor, não apenas de feminicídio, para nos podermos proteger”, disse Romina Lozano.

Como grande parte das mensagens disruptivas nos dias que correm, também esta viu o seu objectivo ressoar pelas redes sociais. No Twitter, a iniciativa ganhou forma com a hashtag #MisMedidasSon (as minhas medidas são). A mensagem chegou a ser trend nessa noite, e o protesto foi notícia em meios de comunicação de todo o mundo.

O protesto foi planeado. À medida que cada mulher se chegava à frente para falar nos números impressionantes que mancham a realidade peruana, os jurados mostravam imagens de algumas das mais recentes vítimas deste tipo de crimes. Na fase das perguntas e respostas, as concorrentes também substituíram a típica “paz no mundo” por medidas concretas de alteração ao código penal para proteger as mulheres.

Para se ter noção da dimensão do problema, apenas uma semana antes do concurso, o hashtag #PeruPaisdeVioladores – foi topo das tendências no Twitter e dividiu o país com a denúncia agressiva de violações e violência. “Embora o país ande a debater ferozmente a situação dramática de violência que afecta as mulheres, os espectadores do concurso provavelmente não esperavam ouvir sobre isso das concorrentes a Miss”, disse à Vox Lizzy Cantú, jornalista e ex-editora da revista feminina, Viù. Cantú referiu que a televisão ainda é um meio realmente útil de divulgar mensagens no Perú, apesar das redes sociais. “Tenho que admitir que é um pouco dissonante ver essas rainhas da beleza recitando estatísticas sombrias enquanto a plateia aplaude o evento ao vivo”, disse Cantú, sublinhando que, ainda assim, algumas mensagens precisam da maior e mais diversificada divulgação possível.

Neste caso, o objectivo é óbvio e importante, num país com números assustadores de violência contra a mulher, entre actos de violência física, psicológica, abuso sexual, exploração sexual e violência contra menores. Os dados oficiais do Ministério da Mulher e das Populações Vulneráveis registou, em 2016, 124 ataques a mulheres que acabaram com a morte das vítimas. Também houve 258 tentativas de assassinato.

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