Untrue de Burial, 10 anos de um álbum infinito

Numa era em que todos vemos Stranger Things, Untrue é uma espécie de “Upside Down”, um lado b da cidade, a dimensão mais misteriosa e obscura de Londres.

2007 é o ano de Sound of Silver dos LCD Soundsystem, Person Pitch de Panda Bear, Strawberry Jam dos Animal Collective, Cross dos Justice, Kala de M.I.A., Year Zero dos Nine Inch Nails e In Rainbows dos Radiohead, tudo álbuns que, de uma forma ou de outra, acabam por influenciar o som e/ou o formato em que a música será consumida nos anos seguintes. Arriscamos dizer que 2007 é o ano mais importante dos últimos dez. Na forma como define o momento a que hoje chamamos de pós-Internet, com estes estes marcos que definiram a forma como consumimos música a partir daí. Nenhum outro dia será tão importante como aquele 5 de novembro, dia da edição de Untrue, 2.º álbum de Burial que revela um caminho que será adoptado por inúmeros e cuja influência podemos hoje encontrar nos sons a que se convencionou classificar “urbanos” e que dominam por completo o cardápio das modas de consumo global.

O mistério Burial vai muito para além da sua identidade. Numa altura em que Twitter e Facebook já existem, mas o Myspace e o Hi5 continuam a ser as nossas redes favoritas, o produtor oferece um registo auto-biográfico recheado de pistas, várias perguntas e poucas respostas. A forma como tratou a produção, foi buscar samples de videojogos (Metal Gear Solid!), entrevistas, documentários e filmes e manipulou vozes como as de Usher, Christina Aguilera, Aaliyah, Beyonce, D’Angelo e Ciara transformando coisas melosas em lugares sombrios ainda hoje são subejamente admiradas e escalpelizadas.

Um conjunto de apontamentos pessoais: há dias, ouvia The Marble Index, 2.º de Nico, disco que me ajudou a (finalmente) compreender o culto que ainda hoje é prestado à alemã. Na mesma plataforma em que o ouvi (YouTube), pude ler o seguinte comentário: “Porque é que isto continua a soar a parte do futuro da música?”. Embora com menos 39 anos de edição, Untrue tem essa característica: daqui a quatro décadas, é provável que continuemos a associá-lo a uma ideia de futuro. Uma música que ouvida hoje, dez anos depois, só não poderia ter sido criada ontem porque o que foi criado ontem só existe como resultado da reclusão de Burial no seu quarto, onde documentou o lado mais soturno da cidade que habita: Londres. A cidade é importantíssima na equação, na forma como este som parece ter a ambição de contar a vida noturna de uma capital com um serviço de autocarros de 24 horas e uma rede de metro imensa. A ideia de noite não vem do nada: o próprio Burial, na altura de testar as criações, saía de carro para experimentar as canções ao volante, ali para os lados do sul londrino. Recorde-se que 2007 é o ano de Night Drive dos Chromatics, outro disco fundamental para perceber uma direção eletrónica que acabaria por ter o ex-libris comercial por alturas do fenómeno Drive. As viagens noturnas tinham finalmente um som. Era também à noite que, no ínicio dos anos 90, os transportes públicos conduziam até às raves perdidas em armazéns e zonas industriais vazias. Estas histórias terão sido partilhadas pelo irmão de Burial, ele que terá vivido o movimento e passado literalmente o testemunho. A última faixa do álbum chama-se “Raver”, precisamente, e é a faixa mais eufórica de Untrue. Todas as outras são aquilo que se convencionou chamar música de dança mais para pensar do que para dançar. A propósito da rave, 2007 também assiste ao micro-fenómeno new-rave via Myths of the Near Future dos Klaxons, Fantastic Playroom dos New Young Pony Club, os Hadouken e Kingdom of Fear dos Shitdisco.

Numa era em que todos vemos Stranger Things, Untrue é uma espécie de “Upside Down”, um lado b da cidade, a dimensão mais misteriosa e obscura de Londres. Conhecemos pouco, queremos saber mais, explorar e entender melhor. Com uma pequena diferença: não queremos de lá sair. Um álbum infinito.