Urban Beach: contado nunca ninguém acreditou

O Ministério da Administração Interna mandou encerrar a discoteca na sequência do caso da madrugada de quarta-feira, mas só este ano já tinham sido feitas 38 queixas.

Os acontecimentos desta semana deixam a nu mais uma realidade que muitos confessavam já conhecer. É mais um caso em que as imagens e sua rápida divulgação online se tornam o derradeiro antídoto contra a hipocrisia. Desta feita, o palco foi o exterior da discoteca Urban Beach e o flagrante sobre o comportamento desproporcional e agressivo dos responsáveis pela segurança do espaço.

Em resposta, esta madrugada, o Ministério da Administração Interna ordenou o encerramento imediato do estabelecimento, sem possibilidade de contestação. Eram cerca das 4h30 da manhã quando agentes da PSP na posse de um aviso do Governo, retiraram da discoteca todos os clientes que lá estavam e ordenaram o encerramento do estabelecimento. Em causa estão os episódios de violência cometidos por seguranças sobre pelo menos dois jovens na madrugada do Halloween. Os desacatos foram filmados e correram as redes sociais, proporcionando um desenrolar rápido e determinante das diligências.

A decisão do encerramento do espaço nocturno foi tomada após audição do Presidente da CM de Lisboa, Fernando Medina e, de acordo com um comunicado do MAI, “assentou igualmente nas 38 queixas efectuadas à PSP sobre este estabelecimento ao longo do ano de 2017”. Por isso, recapitulando: só este ano foram feitas 38 queixas sobre a discoteca, que até à data não teriam sido consideradas suficientes para que se tomasse qualquer tipo de acção contra a gestão do espaço. Às queixas formais deste ano, somam-se os inúmeros casos de violência e discriminação que a imprensa foi mostrando ao longo dos últimos anos.

Ainda como consequência deste caso concreto, um dos seguranças filmado a pontapear um rapaz deitado no chão terá entretanto sido detido pela polícia. Ao Expresso, em reacção ao encerramento da discoteca, Paulo Dâmaso, o proprietário, fala de um “julgamento na praça pública”. E acrescenta: “Tenho mais de 100 trabalhadores que querem saber se vão receber o ordenado este mês”. Os funcionários do Urban anunciaram entretanto que vão juntar-se numa comissão de trabalhadores para discutirem o caso e avaliarem as possíveis consequências para os postos de trabalho.

Antes de se saber a decisão de encerramento do espaço, Paulo Dâmaso tinha dito publicamente que afastou os três seguranças envolvidos e que “repudiava” o sucedido. Disse ainda que, nessa noite, momentos antes do episódio das agressões, à administração da discoteca chegou a informação de que estariam uns jovens “carteiristas” no exterior do espaço a assaltar carros e civis. O comunicado que partilhou na página da discoteca no Facebook tem sido amplamente partilhado na rede, com centenas de pessoas a acusarem a administração de se descartar da responsabilidades, com especial destaque para o segundo ponto do documento, onde dizem: “O presente crime TEM CARA e é visível para todos os que visualizaram o video, ocorreu na via pública, tratando-se de um problema estritamente de segurança na via pública.”

Outra informação importante foi apurada pelo Diário de Notícias, e dá conta de que os agentes da PSP chamados ao local não registaram de imediato a ocorrência. Só o fizeram ao início da noite de ontem, quando já tinha passado dia e meio sobre os acontecimentos, e as imagens corriam as redes sociais. Fonte policial avançou ao DN que os dois agentes foram chamados à atenção pelo comandante e que deverão ser ouvidos a nível interno, mas o que é certo é que a displicência com que a situação parece ter sido tratada, relaciona-se de certo modo com a cultura de inércia perante as 38 queixas.

A inércia das autoridades perante o Urban Beach tem quase tão má fama como a discoteca em si. Uma breve passagem pelo Trip Advisor mostra-nos a quantidade de reviews negativas que falam de casos de racismo, discriminação, violência ou hostilidade quando chega a hora dos pagamentos. Entre os boatos que mais se ouvem sobre a discoteca, além de ser conhecida entre as camadas mais jovens que a frequentavam pelo sugestivo nome de “cantina”, há vários relatos de clientes, jovens e mais velhos, homens e mulheres, que terão sido pressionados e intimidados com especial vigor em salas escuras e escondidas do espaços.

 

Também é publicamente conhecido o caso de Nelson Évora, que, para festejar o aniversário tinha reservado mesa para 16 pessoas no espaço, um grupo do qual constavam por exemplo Naíde Gomes e Francis Obikwelu. O atleta haveria de contar no Facebook que, à entrada, foram barrados com a frase: “estão demasiados pretos no grupo”. 

Outro caso, o mais trágico que nos ocorre à memória, remonta a 2013 e passados 4 anos ainda não conhece desfecho. Falamos do caso de João Tiago, o jovem açoreano de 24 anos que desapareceu depois de passar uma noite na discoteca, sem que até hoje haja indícios ou provas do que lhe aconteceu. As maiores revelações sobre o caso terão sido feitas por Mário Macho, líder dos Hammerskins Portugueses, que, durante a sua prisão, terá adiantado ao ministério público que os responsáveis pelo desaparecimento do jovem seriam da facção mais extrema do seu grupo ideológico.

Os casos multiplicam-se e o padrão emergente mantém-se: ânimos exaltados, confusão, violência gratuita, poucas responsabilidades apuradas e zero acções preventivas. O caso que se noticia ou o padrão que se identifica está longe de ser um excluviso da discoteca Urban, recorde-se que ainda este ano, 13 seguranças da zona de bares do Cais do Sodré responderam em tribunal por ocorrências do género entre 2009 e 2011. E já em 2015 um caso semelhante ao que esta semana inunda as redes sociais trazia o assunto para a discussão pública.

Numa nota enviada esta manhã para as redações, o Ministério da Administração Interna, dá conta de ter aberto processos de investigação à empresa de segurança PSG e de ter encerrado o espaço Urban Beach como medida cautelar em resposta ao avolumar e agravar das exposições.

Do lado da empresa de segurança também já houve reações oficiais, mais uma vez, repetindo o repudio do comportamento e a responsabilização dos indivíduos, com todas as instituições e empresas a demarcarem-se dos acontecimentos.

A questão também está a merecer escrutínio político com a vereação do CDS Lisboa a chegar-se à frente com a proposta de que os estabelecimentos nocturnos sejam responsáveis pela contratação do Staff ao invés das habituais empresas sub-contratadas para o efeito.

O Shifter é gratuito e sempre será. Mas, se gostas do que fazemos, podes dar aqui o teu contributo.