A próxima grande revolução depois dos telemóveis

Seja em colunas inteligentes ou nos nossos telemóveis, os assistentes pessoais prometem fazer-nos largar o teclado e as apps.

O novo Amazon Echo

Depois do seu boom em 2011, o mundo dos smartphones tornou-se mais ou menos previsível. Cada novo lançamento já não é acompanhado com o entusiasmo de outrora. Os smartphones têm, regra geral, boas câmaras, processadores rápidos e baterias capazes de durar 1/2 dias; nem no tamanho dos ecrãs existem surpresas – entre 4,5 e 5,5 polegadas. O que havia para inventar já foi. Com ou sem headphone jack, os novos telemóveis acabam por ser bastante previsíveis.

O novo iPhone X (foto via Unsplash)

Todavia, o smartphone marcou uma importante revolução tecnológica, colocando, pela primeira vez, a internet e dezenas de funcionalidades computacionais na palma da nossa mão. Se no que toca a smartphones já parece estar tudo inventado, a pergunta que imediatamente fazemos é esta: qual será a próxima revolução? A resposta não é fácil, mas tudo aponta para os assistentes pessoais.

O que são os assistentes pessoais?

Falamos da Siri, da Alexa, do Google Assistant e da Cortana. Funcionam numa multiplicidade de dispositivos, do telemóvel que transportamos no bolso a uma coluna que temos lá por casa. No fundo, tudo se resume ao que Sundar Pichai, CEO da Google, disse num evento: “Estamos a evoluir de um mundo mobile para um mundo de inteligência artificial. A computação vai estar universalmente disponível em todos os contextos do dia-a-dia. As pessoas vão poder interagir com ela de forma contínua.”

Os assistentes pessoais podem ajudar-nos a chegar à informação disponível na internet, permitem navegar por produtos e serviços digitais, facilitam tarefas e ajudam a organizar as nossas vidas. No telemóvel, na televisão ou numa elegante coluna de som, estas plataformas estão a mudar a forma como interagimos com a tecnologia, priorizando uma relação verbal e comunicacional.

Google Assistant

Assim, os assistentes pessoais tendem a representar a humanização da tecnologia. Ao contrário dos smartphones, não são um pedaço de hardware que se coloca entre nós e o mundo físico, abstraindo-nos do mesmo. O paradigma de navegação por apps e menus é substituído por uma nova forma de comunicação por a voz, na qual o utilizador não contacta com uma interface visual. A voz é um atalho – uma forma de nos pouparmos ao trabalho adicional que é teclar.

Um mundo controlado por voz

Para usar a Siri, a Alexa, o Google Assistant e o Cortana, temos de criar uma conversa, na qual é fundamental que sejamos ouvidos e percebidos, sem mal entendidos, sem ruído. E aqui é que está o verdadeiro desafio, porque a forma como falamos é diferente da forma como escrevemos e a linguagem natural traduz-se numa enorme diversidade – existem inúmeros dialetos e expressões idiomáticas, o ruído no local onde estamos, o uso de abreviações que é recorrente na oralidade, deficiências na fala ou estados de rouquidão…

Se a Cortana fosse humana

Os assistentes pessoais podem simplificar as nossas interacções com a tecnologia, seja ela produtos e serviços digitais, o nosso telemóvel ou os electrodomésticos lá de casa. Ao privilegiar uma relação conversacional, os assistentes tornam-se companheiros no quotidiano. Falta o leite? “Alexa, acabou-se o leite, junta à lista de compras” é o que teremos de dizer em voz alta, no meio da cozinha, para que na próxima ida ao supermercado não nos esqueçamos do item em falta. “Ok Google, vai chover hoje?”, pode ser a pergunta enquanto nos despachamos de manhã no meio do quarto, não precisando de pegar no telemóvel e abrir uma app para saber a resposta.

Siri, a primeira assistente pessoal

Em 2011, a Apple apresenta a Siri no iPhone 4S. Foi a primeira assistente pessoal por voz a ser introduzida num smartphone. O iPhone ganhou capacidades de reconhecimento da nossa voz, compreendendo quando lhe perguntamos o tempo mas também todas as variantes possíveis desta questão, como se vai chover em Lisboa. Mas além de pesquisa na web para nos dar respostas, a Siri também tornou possível ditar uma mensagem para enviar um amigo, usar a voz para activar um alarme para a manhã do dia seguinte ou pedir sugestões de restaurantes próximos da nossa localização.

Contudo, apesar de apelidada de revolucionária e dos habituais aplausos que recebeu na conferência de imprensa, a Siri não arrancou nos anos seguintes. O desenvolvimento das capacidades de reconhecimento de voz e de interpretação dos inputs por inteligência artificial foi o grande passo que possibilitou o surgimento de mais assistentes pessoais e da maturação da própria Siri, que ficou mais inteligente e ganhou novas capacidades, tendo migrado do iPhone para o Mac, Apple TV e Apple Watch.

Siri na Apple TV

Amazon e a revolução que iniciou em 2014

Em 2014, a Amazon lançou por 180 euros a Amazon Echo, uma coluna de som que tem dentro dela a sempre prestável Alexa. Dois anos depois, anunciou a Echo Dot, um modelo 50 euros mais acessível que o Echo “normal”, mais pequeno no tamanho e com menor qualidade de som. Já em 2017, a família Echo cresceu substancialmente. Foi lançada a Echo 2, com um preço mais acessível (cerca de 100 euros) e a Echo Plus – o modelo mais caro e também aquele que oferece melhor som; está à venda por cerca de 150 euros. O Echo Spot e o Echo Show têm ambos um ecrã, e o Echo Look vem com uma câmara integrada para quem gosta de registar o que veste antes de sair de casa ou quer pedir opinião a uma amiga.

Com o Echo, a Amazon iniciou uma pequena revolução, inaugurando uma nova categoria de produto: a das colunas inteligentes. São produtos que podemos ter discretamente em casa e que estão sempre ligados, sempre prontos a ajudar-nos. Interagimos com estes produtos por voz, uma vez que no seu interior têm um assistente pessoal, baseado em inteligência artificial e aprendizagem automática. No caso da Amazon, é a Alexa. No caso do Google Home, é o Google Assistant. No caso do HomePod, é a Siri.

Amazon Echo Dot

Em comum, o Amazon Echo, o Google Home e o HomePod têm o facto de serem colunas e ter como propósito primário emitir som. Assim, ouvir música será uma das utilidades que este tipo de equipamentos têm. Podemos tê-los na sala ou no quarto e simplesmente usar comandos de voz para colocar o nosso álbum favorito ou uma playlist a tocar, a partir do Amazon Music, do Google Play Music, do Apple Music, do Spotify ou de outro serviço de streaming. De resto, como têm uma assistente pessoal a “viver” no seu interior, estas colunas podem desempenhar inúmeras outras tarefas. Ao serem sistemas artificiais, as suas capacidades de reconhecimento, memória e aprendizagem podem ser teoricamente infinitas.

Google Home Mini

O HomePod, apresentado em Junho deste ano pela Apple, só vai chegar ao mercado no próximo ano, num único modelo que, segundo a Apple, tem a qualidade sonora em foco. O Google Home já anda por cá há mais tempo e recebeu em Outubro novos familiares: o Home Max e o Home Mini são concorrentes directos ao Echo Plus e ao Echo Dot, preenchendo necessidades sonoras mais exigentes ou cativando quem não quer/pode investir mais de 100 euros numa coluna.

HomePod

Assistentes pessoais nos telemóveis

Não podemos deixar de referir as outras formas que tanto a Alexa como o Google Assistant ganham: a primeira está disponível também em carros, frigoríficos, câmaras de vigilância, telemóveis…, através de parcerias que a Amazon desenvolve com fabricantes; o segundo pode ser experimentado no Google Allo e também em grande parte dos smartphones Android e nas televisões com Android TV. O Google Assistant beneficia de ligação directa ao motor de busca da Google e ao sistema operativo mais popular do mundo, e tem por isso um lugar privilegiado.

Também a Microsoft tem o seu próprio assistente pessoal. Chama-se Cortana e tem residência fixa no sistema operativo Windows, estando igualmente presente em iOS e Android e noutros serviços da Microsoft, como o Skype. Já a Samsung, apesar de fabricar equipamentos Android, adquiriu o Viv, start-up que nasceu em 2015 com parte da equipa original da Siri, antes de a tecnologia ter sido vendida à Apple. O resultado deste negócio chegou no Galaxy S8 através do Bixby, um assistente que pode responder às nossas questões, ajudar-nos a identificar objectos físicos através da câmara do telemóvel, fazer-nos recomendações ou lembrar-nos dos nossos afazeres.

Uma última referência tem de ser feita ao Facebook, que lançou no Messenger o M, um assistente pessoal à base de mensagens de texto. Disponível em Português, o M faz sugestões no meio das nossas conversas no Messenger, sugerindo stickers consoante a última mensagem que enviámos, recomendando que partilhemos a nossa localização se alguém te perguntar “onde estás?” ou lembrando-nos de que a pessoa com quem estamos a falar faz anos.

Como a interacção com os assistentes é desprovida de qualquer ecrã, a internet que nos habituamos a ver passa a ser algo invisível, escondido na voz da Alexa ou na coluna da Google. Não há sites nem apps, há respostas que são construídas com base nos dados que o assistente pessoal recolhe sobre nós e com base nos múltiplos serviços com que está integrado, seja o Google Search, o Amazon Music ou o Netflix. Para o utilizador não importa o serviço que está a ser utilizado, desde que o resultado seja aquilo que necessita. Ou seja, se pedirmos ao Google Home para tocar uma música, esperamos que ela seja tocada – não nos interessa o serviço. Isto é um paradigma substancialmente diferente daquele a que estamos habituados nos smartphones, onde abrimos a app do serviço para chegar ao conteúdo.

Os assistentes pessoais ainda têm um longo caminho pela frente. Vamos usar estes sistemas para tudo ou apenas para um conjunto específico de tarefas em que é mais fácil falar que escrever? Vão nascer novos modelos de interacção só para voz, que não passem por uma mera adaptação das actuais formas? Como funcionará a publicidade? São algumas das questões que marcarão os próximos tempos e determinarão os próximos capítulos desta história.

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