Se escrevi este texto, devo-o ao Blitz

O interesse acabou por se esfumar ali por 2011. Os meus hábitos mudaram e, aparentemente, o da maior parte das pessoas também.

Não me lembro da capa e número do primeiro Blitz (sim, o) que comprei, mas juro: trazia um poster de Ville Valo. Lembro-me de o ter feito no Quiosque da Vóvó, assim apelidado por ser detido por uma senhora de idade, em parceria com a sua filha que, ironicamente (julgo), não tinha filhos. Estávamos em 2002, na Amadora. Tinha 16 anos.

O jornal duraria mais quatro anos, mas revendo as memórias desses tempos, parece ter passado muito mais tempo. Lembro-me de um Verão em que passei quase duas semanas em França com a última edição e da frustração ao anoitecer e a luz do parque de campismo ser escassa para leituras. Em Portugal tinha um amigo com instruções e 2 € para ir comprando, às terças. Lembro-me também e tão bem de andar à procura de uma papelaria no Fundão que me dissesse como tinha sido Vilar de Mouros. Lembro-me também do ano: 2003.

E quando os Darkness foram capa? E quando os Nirvana nunca eram? A partir dali, um dos meus objectivos de vida consistia por passar em revista (ou em jornal) todas as edições dos 20 e tal anos que estavam para trás. Talvez assim conseguisse saber tanto quanto aqueles que lia avidamente.

No jornal encontrei algumas secções favoritas:

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O espaço das cartas dos leitores (acho que não se chamava assim, mas não me recordo do nome) e das respostas “tortas”. tão arrogantes, mas também tão inteligentes. Também queria saber escrever assim. Os leitores escreviam para o jornal porque o mesmo dava 6/10 ao disco dos Gift e 8/10 ao In the Zone da Britney Spears, por exemplo. Sublinho: esta gente perdia tempo a enviar cartas para mandar vir com a avaliação dos discos. Eram os haters do tempo do papel. Deve ser por isso que hoje nutro um carinho especial por haters. Também mandavam e-mails a mandar vir, por exemplo, com “a vergonha que é não se destacar o aniversário da morte de Kurt Cobain”. Sim, esse recordista de capas da revista.
  • Superfuzz. As aventuras do Paiva. A primeira que apanhei foi uma história dividida em vários capítulos e que tinha Marilyn Manson como protagonista. Confesso que me lembrou aquelas fotonovelas da Bravo. Sim, antes do Blitz espreitava as Bravo da minha irmã.

  • Secção de críticas. Lia todas. Sabem aquela sensação de gostar tanto de uma coisa que, quando lá chegam, nem querem começar pois, no final, ficam tristes porque já acabou? Isto era a secção críticas do Blitz. Tinha em média cinco páginas e uma vez até chegou às sete. Tínhamos o “Álbum da Semana” que era o Parental Advisory aldrabado. Havia sempre uma “super review” com uma data de caracteres. Chavões como “canção do ano” ou “clássico instantâneo” fizeram-me ir várias ao Kazza e ao eMule. A partir daqui comecei a ouvir discos e não apenas as canções soltas que ouvia na MTV e na rádio.

  • A crónica do Miguel Esteves Cardoso, embora sempre me tenham dito que os tempos áureos estavam lá atrás. Podera, numa até chegou a elogiar a “Somewhere Only We Know”, “a grande primeira canção dos Keane. Por vezes, olho para trás e percebo o quão estúpido era. Deu-me de cortar o jornal de uma ponta à outra e guardar as coisas por secções num dossier. Tinha várias secções separadas em micas. Uma para os Nirvana, outra para os Guns, outra para os Strokes…. Enfim, tudo isto para dizer que guardava as crónicas do MEC à parte e o jornal em lado nenhum.

O Blitz acompanhou-me ao longo de todo o secundário e terminou quando estava à beira de entrar na faculdade. Nunca tive banda, nunca tive jeito para tocar, o Blitz era o meu instrumento de engate que nunca resultou. Ia para aquilo a que chamavam a bancada (ou teria outro nome?), junto dos colegas que comentavam as miúdas e falavam de bola. E lá estava o único gajo que lia o Blitz na Escola Secundária da Amadora, sempre às terças, de jornal em punho, cabelo carregado de gel, mas sem qualquer tipo de charme.

Convenhamos, a estratégia não era grande coisa: os poucos concertos improvisados a que ali assisti resumiram-se a promessas do rap nunca cumpridas ou a malta com cunhas que sacava do mic e cantava Evanescence. Os Evanescence, esses que, se bem me lembro, conseguiram ser a única banda a ter um 2/10 no Blitz. Lembro-me que os 3 Doors Down receberam um 3/10 e recordo-me que foi a Ana Markl que os desmontou. Fechando o capítulo jornal e, consequentemente, o ensino secundário, recupero a história que partilhei no meu Facebook e que levou ao convite para a redação deste texto. Citando-me: 


Não sei de quem é a culpa, mas nenhuma escola ou professor me ensinou a escrever. Foi o Blitz, pedaço de papel que lia com tal atenção que comecei a apanhar a prática ao invés da teoria. E depois de aprender, comecei a copiar. Ou terá sido ao contrário? Sim, terá sido ao contrário: 1.º aprendi a copiar, só depois a escrever. Uma vez, numa aula de física, no secundário, quando estudava informática, fui apanhado a ler uma edição. Acho que era uma review de um álbum dos Daft Punk. O “Humar After All”, talvez. “MAS QUE FALTA DE RESPEITO É ESTA, PEDRO, A LER DURANTE A AULA?!” A resposta chega uns 15 anos depois: “Estava a preparar-me para a faculdade, professora. E para a vida.

Na faculdade acabei por mudar completamente o rumo: Ciências da Comunicação.



24 de Abril de 2006, o dia da última edição do Blitz. Pearl Jam na capa e a promessa de uma revista para dali a dois meses. Sem exageros, lembro-me de estar triste e à procura de alternativas. O Raio-X tinha tido um efémero regresso. Passei vários meses (anos?) em negação. A revista duplicou os leitores e eu fazia contas de cabeça: “Está bem, duplicaram os leitores, mas reduziram as edições. Se o jornal custava 1 euro e vendiam cerca de 7 mil exemplares à semana, se multiplicarmos este número por 4 dará mais do que os 2,5 euros multiplicados por 13 mil apenas uma vez.” Negação.

Vem a revista e com a revista o site. O site era um fenómeno carregado de putos (parece-me) melómanos. Gajos como eu que querem impor a sua ordem, as suas bandas, os seus gostos. Finalmente, encontro a minha tribo e a arrogância leva-nos a tratarmo-nos mal. Em 2007, a minha mãe inventa que tem que fazer obras e mudo-me durante três meses para a casa do meu avô. Viro info-excluído e, para manter contacto com as confirmações festivaleiras, passo a usar os computadores públicos da UAL, coisas antigas, feias e lentas. Passo cerca de 20 minutos a actualizar-me depois das 13h00 e vou para Almada ouvir os discos que fui buscar quando tinha Internet. Neon Bible dos Arcade Fire, por exemplo, à boleia do Ipsílon, o meu novo guia cultural.

Entre 2007 pós-obras e 2011, o site é o primeiro que visito todos os dias, com o objectivo de ver quem está confirmado para concertos e festivais. A partir daqui faltam-me histórias. Comprei todas as edições dos primeiros quatro anos, mas o interesse acabou por se esfumar ali por 2011. Os meus hábitos mudaram e, aparentemente, o da maior parte das pessoas também.