A enciclopédia ilustrada mais estranha e fascinante do mundo

Codex Seraphinianus tem a informação de todo um mundo imaginário.

Sempre que ouvimos falar de enciclopédias o preconceito é claro: uma seca descomunal. Conceitos ordenados, se calhar em ordem alfabética, na esperança de sintetizar e sistematizar o máximo de conhecimento possível sobre o mundo e os seus habitantes. Ilustrações científicas, várias perspectivas ilustradas, com longas e pormenorizadas descrições a acompanhar. Derivações dos exemplos clássicos, dos trabalhos mais famosos de Da Vinci, como o Codex Atlanticus ou o Codex Leicester – sintetizações criativas dos complexos sistemas que o homem desenvolveu ou descodificou que, pela mão de génio, se dispõe em livros que… apesar de tudo, não são fáceis nem assim tão aprazíveis de ler para o comum dos mortais.

Mas, como para todas as regras existem sempre excepções para confirmar, os códices ou, na sua versão moderna, as enciclopédias não fogem a este padrão e o Codex Seraphinianus é um brilhante exemplo disso.

Publicado pela primeira vez em 1981, é obra do designer e arquitecto italiano Luigi Serafini e, ao contrário do que costuma ser critério para tipo de literatura, é absolutamente indecifrável. Ou pelo menos legível, à luz dos códigos que desenvolvemos como sociedade.

Com cerca de 400 páginas e mais de 100 ilustrações, Codex Seraphinianus é um mapa de conceitos para uma realidade completamente imaginária, escrita em símbolos também eles puramente imaginários.

Serafini, que tinha apenas 27 anos na altura da publicação da obra, terá demorado três anos a completá-la e mais três até à publicação, o que, tendo em conta o seu carácter, não é de admirar. Pela profundidade da exploração surrealista que Serafini desenvolve ao longo dos dois capítulos do livro, um dedicado à Fauna e Flora e outro ao Humano, o Codex Seraphinianus é não só a ilustração perfeita de um devaneio criativo como uma provocadora e intrigante obra a um nível filosófico.

As ilustrações surreais, nas quais quase sempre podemos reconhecer pequenas características terrenas que nos são mais ou menos familiares, acompanhadas por pequenas notas escritas com símbolos indecifráveis, levam o leitor para zonas do intelectuo inabitadas pela linguagem dos símbolos, onde a imaginação é obrigada actuar.

Depois de várias tentativas de encontrar o significado da peça nos anos que se seguiram à sua publicação, Serafini teve várias oportunidades de esclarecer a sua intenção. Para o artista foi, primeiro que tudo, uma necessidade de expressão, que descreve como um “estado de transe”, depois, acaba por ser uma homenagem a todos os livros canónicos, uma espécie de novo código religioso onde a espiritualidade se associa sobretudo a um nível profundo de foco e concentração.

Quanto à dimensão formal do projecto, Serafini compara a lógica do seu trabalho à de um blogue pessoal, em que alguém tenta comunicar com o mundo e fazer-se entender numa linguagem própria e extremamente pessoal. Para além disso, o facto de se basear na sua imaginação faz do Codex algo potencialmente infinito e eternamente inacabado, reforçando esta associação. Prova desse estatuto inacabado da obra é, por exemplo, a reedição feita em 2013, na qual Luigi Serafini acrescentou um capítulo a obra.

Actualmente, não é fácil encontrar exemplares físicos deste magnânimo trabalho a preços convidativos, mas a leitura online chega para nos dar uma ideia e desfrutarmos do surrealismo da obra. Quanto ao seu futuro, em entrevista, Serafini já revelou que está a pensar fazer uma competição quando se sentir demasiado velho para perceber quem poderá ser o seu seguidor nesta missão.

Para o artista – que prefere ser chamado poeta –, é importante que se continuem a procurar diferentes e mais profundos níveis de entendimento entre os humanos – e foi isso que tentou com a sua obra. Numa das descrições mais acessíveis que deu, Serafini disse mesmo que a sua ideia era que os leitores do Codex retornassem ao estado mental mais puro, próprio da infância, aquele quando não julgamos perceber. Sem dúvida, um exemplo inspirador e que, mesmo nos dias de hoje, continua absolutamente disruptivo e revelador do potencial das ideias e da criatividade, mesmo quando não são entendidas à primeira.

Quanto a referências, a primeira e mais lógica será a do italiano Leonardo Da Vinci, na dimensão e ambição da obra. Quanto à temática e à abordagem, o pintor Hieronymus Bosch, o Livro dos Seres Imaginários de Jorge Luís Borges e o Manuscrito Voynich são geralmente apontadas como as influências mais prementes – embora não sejam confirmadas pelo autor.