40 discos de 2007 que vale a pena recordar

2007 foi, a nível discográfico, um dos anos mais ricos das últimas décadas.

2007, o ano em que a indústria saiu questionada e tremeu. Dez anos depois, nem CDs, nem a grande ameaça que era o download, mas sim o streaming. Os Radiohead perguntam: “Quanto nos queres dar?”, os Nine Inch Nails montam uma campanha de marketing digital para promover Year Zero. Ano de ouro para a música de dança: a efémera new-rave dos Klaxons, a obra-prima dos LCD Soundsystem, a estreia dos Justice, o tridente da Italians Do It Better e o importantíssimo Untrue, de Burial. O filão emocional é preenchido pelos Arcade Fire, The National e The Shins. Panda Bear a solo e com os Animal Collective também deixa o seu carimbo enquanto elogia os 4Taste.

Em Portugal uma pobreza disfarçada pelos discos de JP Simões, Da Weasel e Clã. Pouco, muito pouco. O que não impede que 2007 seja, a nível discográfico, um dos mais ricos dos últimos dez.

1 – Burial – Untrue
Numa altura em que Twitter e Facebook já existiam, mas o Myspace e o Hi5 continuavam a ser as nossas redes favoritas, o produtor ofereceu um registo auto-biográfico recheado de pistas, várias perguntas e poucas respostas.

2 – LCD Soundsystem – Sound of Silver
A música de Sound of Silver larga aquela atitude punk do primeiro disco, de quem passa Daft Punk no CBGB (facto!). Bebe de muitas outras músicas, o que não surpreende, pois Murphy foi DJ antes de ser os LCD Soundsystem. Portanto, quando cita os Kraftwerk ou Doctor’s Cat (“Get Innocuous”), está a fazê-lo em jeito de homenagem.

3 – Radiohead – In Rainbows
In Rainbows é então a reflexão dos Radiohead perante a estrutura da indústria no mundo digital que, diz Thom Yorke, “está em colapso”.

4 – Blonde Redhead – 23
Um som mais dançável e com apontamentos electrónicos que lava a face de uma banda que na voz de Kazu Makino encontra um exotismo oriental e etéreo. Perfeição pop? Sim, vários momentos. Para muitos o melhor disco da banda.

5 – MGMT – Oracular Spectacular
Fingir que se faz música e dinheiro, casar com modelos, ir para Paris, chutar heroína, comprar bons carros, viver rápido e morrer novo e a canção continua. Afinal, aqueles sons sacados do laptop até são cantados por milhares, em unissono, nos grandes festivais de verão.

6 – The Clientele – God Save the Clientele
Há pormenores que no caso dos Clientele (grupo que o ouvinte mais casual dirá que tocam sempre a mesma cantiga) soam a reinvenção. Esses pormenores fazem destas canções lugares mais luminosos que as dos anteriores trabalhos. Mas o resultado geral continua a ser sombrio, à Clientele.

7 – The Shins – Wincing the Night Away
Wincing the Night Away é o típico álbum de risco, escrito de forma inteligente e tão criticado por isso: para alguns é demasiado críptico. Por vezes, sim, mas não quando abre com “Sleeping Lessons”, referência óbvia às insónias que James Mercer confessou terem-no afectado durante a gravação do registo.

8 – Arcade Fire – Neon Bible
Percebe-se a desilusão de alguns. Em Neon Bible, os Arcade Fire perdem a inocência que atraiu tantos dois/três anos antes. As crianças de Funeral deram lugar a adultos (exceptuemos “No Cars Go” cuja primeira versão já datava do EP de 2003) mais cínicos.

9 – The National – Boxer
Intrinsecamente honesto na forma como debate a vida. As metáforas e alguns apontamentos mais absurdos tentam atenuar a melancolia, a nostalgia, a dor.

10 – Justice – Cross
O que os Justice fizeram com Cross é coisa de estádio, música de dança para quem não dedica muito tempo à música de dança. Mais new-rave que a tão badalada new-rave.

11 – Of Montreal – Hissing Fauna, Are You the Destroyer?
Bizarria, sim, mas belas melodias pop também, o que fazem dele um álbum acessível.

12 – Marissa Nadler – Songs III: Bird on the Water
Descendente da geração de artistas folk de 60, como Joan Baez ou Vashti Bunyan. Vem com 40 anos de atraso, mas vem a tempo.

13 – Battles – Mirrored
A estreia dos Battles não é novidade absoluta, algumas das referências até nos levam aos primórdios como Frank Zappa ou Captain Beefheart, mas a forma como criaram um disco de dança tão orgânico como robótico fica como uma das excelentes proezas da 1ª década do século.

14 – Bonde Do Rolê – With Lazers
O disco mais ordinarão de 2007, mais um Brasil descoberto por Diplo, cheio de referências a sexo, drogas e rock ‘n’ roll. Este último na forma de guitarradas sampladas.

15 – St. Vincent – Marry Me
“Cansada” de “desperdiçar” talento com os Polyphonic Spree e Sufjan Stevens, a menina mais cool que o rock conheceu nos últimos dez anos traz um cocktail pouco catalogável de rock, jazz e soul. Mais fácil é alinhá-la com Kate Bush, mas seria redutor, tal é a personalidade que Annie Clark aqui impõe.

16 – M.I.A. – Kala
Não nos lembramos de outro disco que inclua covers bollyhoodianas, samples de Clash e New Order, citações a clássicos dos Pixies e vídeos com dançarinos jamaicanos.

17 & 18 – Glass Candy – B/E/A/T/B/O/X & Chromatics – Nightdrive
Foi um ano de ouro para a Italians do it Better. Em agosto é lançado Night Drive dos Chromatics, em outubro sai a muito celebrada compilação After Dark, e, por fim, em nobembro, o 2.º de Glass Candy. Projectos de pop de sintetizadores liderados por misteriosas mulheres. Mesmo que o plantel seja composto por mais oito artistas, são estes os dois nomes que ainda hoje distinguem à independente de Portland.

19 – The Go! Team – Proof of Youth
Embora as rimas estejam longe de ser memoráveis, em 2007, este caos que em certos momentos se confunde com o de um conjunto de cheerleaders, é das coisas mais entusiasmantes que a “solarenga” Brighton já ofereceu.

20 – Panda Bear – Person Pitch
Como pode uma música tão retro soar ao mesmo tempo tão contemporânea, citando o passado para criar o futuro?

21 – Da Weasel – Amor, Escárnio e Maldizer
É o mais ambicioso e, aparentemente, ponderado do catálogo. Olhando para trás, e assumindo que a reunião, mais ano menos ano será inevitável, talvez tenha feito sentido o percurso ter terminado aqui.

22 – Feist – The Reminder
Apesar da toada jazzy, The Reminder afasta por completo as estapafúrdias comparações a Norah Jones. Aqui, em registo ora intimista, ora expansivo, Feist parece mais interessada em variar territórios pop com a exploração da folk tradicional na linha de uma Vashti Bunyan. Numa altura em que ainda não era o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama terá pedido um autógrafo que entretanto terá valorizado.

23 – Low – Drums and Guns
O título resume-o na perfeição. Drums and Guns coloca muito protagonismo na percussão e nas armas que representam a guerra. O foco na percussão não significa que o disco ande à boleia de uma bateria, mas que num disco tão-despido-tão-minimal, são as batidas sintetizadas, as palmas e instrumentos como as maracas que marcam um registo de harmonias folk, mas o som é difícil de catalogar.

24 – Grinderman – Grinderman
Desde 1983 que Nick Cave não estava tão perto do som cru e da loucura desenfreada dos Birthday Party.

25 – Kanye West – Graduation
É o terceiro grande álbum em três possíveis e, excepto algumas novidades electrónicas, o som pouco ou nada muda em relação aos exames anteriores.

26 – FUTURE PILOT A​.​K​.​A​. – Secrets From the Clockhouse
Chamou conterrâneos (Belle and Sebastian), lendas da folk (Go-Betweens), do noise (Sonic Youth) e do garage e punk (Stooges) para criar um disco que desafia convenções, misturando uma base folk, com dub, spoken word e jazz.

27 – Patrick Wolf -The Magic Position
Teatral, pomposo e barroco. O seu contemporâneo mais próximo será Owen Pallet e nem de propósito avizinhavam-se datas com os Arcade Fire. Mas surpreendente mesmo é a participação de Marianne Faithful em “Magbpie”.

28 – Spoon – Ga Ga Ga Ga Ga
Rompem o culto de quase ninguém com um exercício saudosista muito 60s.

29 – Dinosaur Jr. – Beyond
Regresso com o line up clássico e, ao contrário da norma, é um regresso imaculado. O tempo parece por aqui não ter passado e isso é inexplicavelmente bom. Reparem que não é assim tão simples: basta apontar para os Pixies.

30 – Nine Inch Nails – Year Zero
Reznor chamou-lhe banda sonora para um filme que não existe. Distópico, apocalíptico, certamente, como o ambiente descrito pelas canções e cuja ação situa em 2022, nos Estados Unidos, década e meia depois desta edição. Manteve a atualidade que pretendia tratar em 2007: tensões bélicas, raciais, xenófobas e religiosas.

31 – Animal Collective – Strawberry Jam
Traz uma nova linguagem (e não nos referimos ao inglês quase impercetivel) que haveria de influenciar uma infinidade de bandas de 2007 para a frente.

32 – JP Simões – 1970
1970, primeiro disco a solo de JP Simões, será um dos primeiros a preencher estes requisitos no novo século, num registo que se divide entre a Música Popular Portuguesa e a Música Popular Brasileiro, mas a pender claramente para o lado brasileiro.

33 – Klaxons – Myths of the Near Future
Tão marcante em 2007 como obsoleto em 2017. Não se lembram da new-rave? Não tem mal.

34 – QOTSA- Era Vulgaris
Se tematicamente, Songs for the Deaf imaginava uma viagem entre Los Angeles e Joshua Tree, Era Vulgaris é sobre as viagens diárias de Homme por Hollywood. Registo marcial: riffs de guerra ou que parecem saídos de uma praça em obras. “É negro, duro e elétrico, o tipo de som que faria um construtor civil.”

35 – White Stripes  – Icky Thump
Mais livre, leve e divertido que o antecessor. O último da discografia.

36 – Robert Wyatt – Comicopera
Os números e os nomes de Comicopera são espelho da sua ambição: dividido em 3 partes (“Lost in Noise”, “The Here and the Now” e “Away With the Fairies”), com dezenas de convidados de 8 países, entre os quais Brian Eno, Paul Weller e Anja Garbarek. O 12º de Robery Wyatt é, de facto, um dos mais audazes e complexos discos do ano. O ponto de partida é o jazz, mas é tão mais que isso. Aliás, este texto não lhe faz jus. Vão antes ouvir.

37 – Machine Head – The Blackening
Não é que os Machine Head se tenham livrado dessa espécie de rótulo de abutres (convenhamos, até no nu-metal se quiserem meter), mas The Blackening, independentemente de todas as influências, garante identidade própria.

38 – Band of Horses – Cease to Begin
Os Band of Horses só levaram um ano a suceder o aclamado Everything All the Time e mesmo não mudando nada a não ser a saída de um elemento, safam-se lindamente.

39 – Interpol – Our Love is to Admire
Os Interpol tentam o grande público e por cá até chegam aos Morangos com Açúcar.

40 – Gogol Bordello – Super Taranta
Aproveitavam a moda das trupes (Arcade Fire, Beirut, I’m From Barcelona) e legitimam o punk em 2007 adicionando-lhe o prefixo “gipsy”, enquanto exclamam Super Taranta! e provam que ao vivo é que é.