Facebook está a fazer mal à sociedade? Ex-executivo diz que sim, Facebook diz que já não

Perante as acusações de Chamath, a nota de resposta da empresa soa insuficiente.

A dissidência de engenheiros e executivos do Facebook e a sua quota-parte de arrependimento pelo gigante que ajudaram a criar tem marcado e de que maneira a cobertura mediática da rede social ao longo do último ano.

No mês passado, um dos fundadores da rede social denunciou os pretensos efeitos nocivos da gigante rede e até um dos engenheiros envolvidos na equipa de criação do Like veio a publico mostrar o seu arrependimento pela forma como a tecnologia foi desenvolvida. Agora é Chamath Palihaitya, antigo vice-presidente responsável pelo crescimento da base de utilizadores, a denunciar as consequências da criação dos loops em busca de dopamina e gratificação instantânea.

Chamath não disse nada de novo, nem que Tristan Harris, por exemplo, não tivesse já dito e repetido inúmeras vezes. O diferente, desta vez, foi a resposta enviado em nota oficial pelo Facebook às redações dos órgãos de comunicação social. Perante as acusações do ex-executivo, de que o Facebook promovia a destruição da sociedade, a resposta da empresa revela-se claramente insuficiente e quase irónica:

“Chamath não está no Facebook há mais de 6 anos. Quando Chamath estava no Facebook, estávamos focados em criar novas experiências de redes sociais e a fazer crescer o Facebook à volta do mundo. O Facebook era uma empresa muito diferente nessa altura, e nós crescemos, percebemos que as nossas responsabilidades tinham crescido também. Levamos o nosso papel muito a sério e estamos a trabalhar a fundo para melhorar. Fizemos muito trabalho e investigação com especialistas e académicos de fora para perceber os efeitos do nosso serviço no bem estar, e estamos a usar as conclusões no desenvolvimento do nosso produto. Estamos a fazer investimentos significativos em pessoas, tecnologia e processos, e – como Mark Zuckerberg disse na última apresentação de resultados – estamos dispostos a reduzir a nossa rentabilidade para garantir que os investimentos certos sejam feitos.”

É que, embora sejam reveladas algumas novidades ou nuances interessantes, que podem vir, de facto, a ser implementadas na gestão da rede social, o que é facto é que não tem sido essa a estratégia a emergir nos últimos anos com os sucessivos lançamentos da empresa – ainda agora um Messenger para crianças.

Na nota, a empresa começa por distanciar temporalmente a fase de Chamath, alegando que há 6 anos atrás – altura em que colaborava com a empresa – a empresa estava completamente focada no crescimento da sua base de utilizadores, algo que hoje sugere não ser a sua prioridade.

Para além disso, a mesma nota enuncia o imenso trabalho e investigação que tem sido feito para colmatar os perigos que são associados à rede social, que um utilizador da rede dificilmente confirmará. Desde o princípio, o Facebook mantém a sua base assente na lógica dos Likes e das notificações com poucas mudanças estruturais, que tenham redesenhado este fenómeno, apontado pela maioria como o trigger para uma nova forma de dependência. As definições de privacidade personalizáveis ou as pequenas ferramentas, por exemplo, para grupos devem ser os argumentos por detrás desta resposta, mas continuam insuficientes perante o problema.

A resposta tem o ponto mais irónico no facto de, sem nada se ter alterado significativamente, a empresa subjectivamente assumir que no princípio tinha uma estratégia nociva. E simultaneamente, na frase final quando afirma a disponibilidade da empresa de baixar os lucros anuais de modo a dar resposta a estes problemas – problemas esses que, no fundo, geraram parte do lucro.