Do futebol à Presidência, o conto de fadas de George Weah

Foi o primeiro africano a ganhar uma Bola de Ouro, jogou em clubes como o Chelsea, AC Milan ou Manchester City e agora foi eleito Presidente da Libéria.

George Weah

Se a expressão conto de fadas te parece exagerada, pensa nas voltas que a vida da Cinderela deu, de empregada doméstica a princesa, ou na história de Hansel e Gretel que, pobres, alimento iminente para uma bruxa, acabam por regressar a casa ricos, com dinheiro que lhe roubaram. São as chamadas histórias com um final feliz, um final que, no caso de Weah, se vinha a desenhar risonho há vários anos.

Nasceu e cresceu na favela de Clara Town de Monrovia, capital da Libéria. Pertence ao grupo étnico Kru, originários de uma das áreas mais pobres do país. Foi técnico de telecomunicações até que começou a jogar à bola em 1985, com 19 anos. Em 88, o então treinador do Mónaco, Arsène Wenger, trá-lo para a Europa. Foi precisamente no Mónaco que começou a sua ascensão, seguiu-se o Paris Saint-Germain, o AC Milan, um empréstimo ao Chelsea, uma breve passagem pelo Manchester City, outra pelo Marselha e o fim da carreira no Al-Jazira de Abu Dhabi. Pelo meio, foi considerado um dos melhores futebolistas africanos de todos os tempos e o primeiro futebolista africano a vencer uma Bola de Ouro em 1995. 

Esta semana, foi eleito Presidente da Libéria, e sucede assim a Ellen Johnson Sirleaf, a primeira mulher eleita chefe de Estado em África e prémio Nobel da Paz em 2011, que está constitucionalmente impedida de se apresentar a um terceiro mandato.

A segunda volta das eleições presidenciais da Libéria realizou-se esta terça-feira, 25 de Dezembro, com o vice-Presidente cessante Joseph Boakai a defrontar o lendário jogador de futebol.

Nos resultados apurados na primeira volta das eleições, que contaram com uma taxa de participação de 75%, o senador George Weah obteve 39% dos votos, à frente de Boakai, o actual vice-presidente apoiado pelo Partido Unido (UP, no poder), com 29,1%, com os restantes 18 candidatos a dividirem o resto dos votos.

Na segunda volta, os últimos números indicam que Weah, do Congresso pela Mudança Democrática (CCD), obteve 61,5% de votos expressos, enquanto Boakai, reuniu somente 38,7%. Mais de dois milhões de eleitores estavam inscritos para esta segunda votação. Os resultados finais só serão anunciados hoje, mas já é garantida uma presidência Weah.

A elevada participação cívica da população demonstra a expectativa reinante, com analistas locais a considerarem Weah favorito desde o início, embora as sondagens sejam escassas e partidarizadas.

Durante a campanha, os dois principais candidatos coincidiram nos projectos futuros para o país, priorizando a manutenção da paz, redução da pobreza (50% da população vive abaixo desse limiar), eliminação da corrupção e revitalização da economia, que leva já três anos de recessão, provocada sobretudo pela epidemia de ébola, que matou quase 5.000 pessoas.

As presidenciais foram as primeiras eleições em mais de 70 anos neste país africano, fundado por escravos norte-americanos. A braços com uma crise económica e social significativamente agravada após a epidemia de ébola, em 2014, a Libéria tenta, aos poucos, recuperar da violenta e devastadora guerra civil que assolou o país entre 1999 e 2003, que provocou mais de 250 mil vítimas mortais.

A história da Libéria, com fronteiras com a Serra Leoa, Guiné-Conacri e Costa do Marfim, além de banhada pelo oceano Atlântico, é única entre as nações africanas, pois é um dos dois países da África Subsaariana, tal com o a Etiópia, sem raízes na colonização da África.

A Libéria, actualmente com cerca de quatro milhões de habitantes, foi fundada e colonizada por escravos americanos libertados com a ajuda entre 1821 e 1822, da organização privada American Colonization Society, na premissa de que os ex-escravos americanos teriam maior liberdade e igualdade nesta nova nação.