Os misteriosos óculos AR/VR da misteriosa Magic Leap

A empresa tinha conseguido quase 2 mil milhões de dólares em investimento e uma avaliação de 6 mil milhões sem ter mostrado qualquer protótipo ou produto.

Há empresas que falam muito sobre si. E há empresas que gostam de fazer as coisas pela calada. A Magic Leap é o segundo tipo e conseguiu por aí a atenção da imprensa e a curiosidade dos geeks. Ao longo dos últimos anos, ninguém percebeu muito bem o que é era a Magic Leap ou no que estava a trabalhar, mas as primeiras respostas chegaram agora.

O Magic Leap One são uns óculos de realidade aumentada (AR) ou realidade virtual (VR) e são também o primeiro (misterioso) produto desta misteriosa tecnológica norte-americana. Ainda sem preço revelado, vão estar disponíveis na primeira metade de 2018 numa “edição de criador”, destinada aos primeiros aventureiros que quiserem deitar as mãos a este dispositivo.

Por agora, sobre os Magic Leap One sabemos apenas aquilo que é indicado na página do produto. São uns óculos que funcionam com um pequeno periférico circular que será a unidade de processamento e que terão um comando para interagir com o ambiente virtual. “O Magic Leap One é feito para criadores que querem mudar a forma como experienciamos o mundo”, lê-se.

A Magic Leap explica que o aspecto visual do produto pode mudar à medida que este for aperfeiçoado, mas garante que o objectivo é desenvolver uns óculos que sejam “leves e confortáveis para horas de uso”, que sejam capazes de reconhecer o mundo físico em redor, posicionando com precisão os objectos, e que ofereçam som espacial. Ou seja, uns óculos que nos permitam mergulhar num ambiente virtual e sentimo-nos mesmo lá, sem perdermos a noção do espaço onde fisicamente nos encontramos.

Um dos segredos da Magic Leap reside na tecnologia Digital Lightfield, algo que a empresa descreve como luz digital, que pode assumir diferentes profundidades, e que se mistura com a luz natural que os nossos olhos captam, fazendo os objectos digitais que vemos através dos Magic Leap One parecer mais realistas. Os óculos serão ainda capazes não só de reconhecer as superfícies físicas para posar nelas as criações virtuais, como de colocar o digital a interagir com o não-digital, “seja um um ecrã virtual ao lado do monitor do computador na tua secretária ou um panda virtual que trepa pelo sofá da tua sala de estar”.

Os Magic Leap One vão também poder personalizar o teu quarto – por exemplo, poderás colocar uma televisão na parede e sempre que tiveres os óculos ela vai lá estar. Os óculos vêem acompanhados pelo Lightweight, uma pequena caixinha dentro da qual estão todas as unidades de processamento e de gráficos – é um pequeno computador portátil. O comando é capaz de reconhecer a força que lhe aplicas, bem como os gestos que fazes, permitindo-te interagir com o mundo virtual.

A Magic Leap saltou para a ribalta depois de ter angariado quase 2 mil milhões de dólares de investidores como a Google ou a Alibaba sem ter mostrado publicamente qualquer protótipo ou produto, apenas alguns vídeos inspiracionais e igualmente vagos. A empresa estará avaliada em 6 mil milhões de dólares, o que faz dela um unicórnio (unicórnios são empresas avaliadas em mil milhões de dólares ou mais).

Foi fundada em 2011 por Rony Abovitz e os primeiros jornalistas a estarem em contacto com a Magic Leap falavam em algo revolucionário. Mas, desde então, o mundo da realidade aumentada e da realidade virtual mudou bastante. A Google falhou com os Google Glass mas acertou com a plataforma DayDream; o Facebook comprou a Oculus e já lançou dois produtos, estando para lançar um terceiro; a HTC apresentou os HTC Vive e a Sony os seus PlayStation VR. A Apple transformou o iPhone numa plataforma de realidade aumentada com o ARKit; a Google está a tentar fazer o mesmo com o Android e o ARCore; o Facebook também está a investir neste campo com a Facebook Camera e a câmara do Instagram.

A paciência dos investidores pelo “atraso” da Magic Leap terá estado quase a esgotar no início deste ano, com a empresa a mostrar protótipos ainda muito rudimentares e tecnologia ao nível daquilo que a Microsoft já proporcionava. Conseguirá o Magic Leap One compensar a espera?