Uma visita à maior conferência sobre blockchain e criptomoedas no Norte da Europa

O que torna uma conferência sobre o mesmo assunto mas do outro lado da Europa relevante para nós cá?

Em Tallinn, capital da Estónia, realizou-se a Moontec 2017, uma conferência e concurso relacionados com blockchain e criptomoedas. O tema está na berra e recentemente até se realizou também a primeira conferência dedicada em Lisboa. Mas o que torna uma conferência sobre o mesmo assunto, do outro lado da Europa relevante para nós cá?

A Estónia é uma pequena nação de 1 milhão e 300 mil pessoas, onde o desígnio nacional desde os anos 1990 tem sido a tecnologia de informação. Após meio século de ocupação soviética, essa foi a estratégia que o país adoptou, afirmando-se como uma meca para todos os informáticos dos países que fizeram parte da URSS e os europeus. Da Estónia nasceram empresas como o Skype (mais tarde adquirida pela Microsoft), a Pipedrive e a Transferwise; hoje o país continua atento às tendências tecnológicas e até planeia lançar a sua própria criptomoeda – a Estcoin.

Para Kaspar Korjus, um dos responsáveis por esta iniciativa, a União Europeia não tem poder nem conhecimento sobre a matéria para poder interferir numa política interna de um Estado-membro sobre algo que está em movimento e desenvolvimento alucinante. Kaspar Korjus – que também dirige o e-Residency, um programa do Governo da Estónia que oferece a qualquer pessoa residência virtual no país e a possibilidade de lá instalar a sua empresa – quer mesmo fazer o Estcoin acontecer e mostrar que resulta, referindo que “neste domínio, há mais fake news que notícias concretas”. Deve ser o Estado a adaptar-se à realidade digital, diz, acrescentando que o aparelho estatal não pode desaparecer quando o seu território desaparece, por exemplo, quando um país é ocupado.

Moontec

Na Moontec, discutiu-se a Estcoin, a Bitcoin, a Dash e outras criptomoedas, as chamadas ICOs (Ofertas Públicas de Moeda), as ramificações legais do blockchain, e a descentralização da tecnologia, que, não estando sob o controlo de ninguém, está acessível e visível apenas a quem de direito. Enquanto no sistema económico normal, o cidadão confia no banco para registar contas, transferências e todas as permissões, no mundo da bitcoins e no das criptomoedas o objectivo é descentralizar o processo para ter a certeza que não há um ponto central de quebra e corrupção, criando uma alternativa à confiança em bancos, sejam eles governamentais ou privados. Sem forma de a evitar, a a interrogação sobre se as criptomoedas são uma bolha económica prestes a rebentar continua a ser o medo principal – que não desvanece mesmo juntando executantes e profissionais da área na Estónia.

Cada vez mais se fala sobre criptomoedas, cada vez mais pessoas as usam. Ainda assim, como lembra Siim Ounap, director operacional da GetGame e um trader experiente de criptomoedas, as moedas estatais fiduciárias (isto é, as moedas que têm tradição e estão sustentadas pelo sistema económico) continuarem entranhadas na mente colectiva. Daí que a sugestão imediata seja educar o público para as criptomoedas, clarificando-o sobre o tema e habituando-o a usar este novo tipo de bem de troca.

Estima-se que a Bitcoin ronde os 50% da quota de mercado. É uma estimativa porque, conforme refere Asse Sauga, da Estonian Cryptocurrency Association, não há forma de saber a quota exacta, uma vez que o sistema não está regulamentado ou centralizado. A legislação do mercado das criptomoedas é temida por muitos, que dizem que isso permitirá ao velho sistema baseado em bancos e Estados tomar uma posição de controlo. Mas o receio de uma nova elite aparecer e criar um sistema novo na qual molda do tabuleiros do jogo a seu favor existe. Será a bitcoin a moeda que devemos usar? Arseny Zarechnev, da Mothership, afirmou “aquela que Wall Street seguir”. Na Moontec, todos concordaram que, de momento, mesmo com uma altcoin a patrocinar o evento (a Dash), o mais certo e seguro é vender altcoins para comprar bitcoins (uma altcoin é uma criptomoeda alternativa à bitcoin).

A Dash

Estamos no meio de uma onda em rebentação e todas as possibilidades estão em aberto. As criptomoedas estão disponíveis numa carteira virtual, à qual só nós temos acesso, caso ninguém nos roube as chaves que desencriptam o sistema. Mas há soluções para materializar este novo mundo. A AsicVault e a crip.to, mostradas na Moontec, são duas delas – carteiras físicas onde podemos guardar moedas, em que a informação é guardada em dois chips ou dispositivos diferentes para evitar o acesso indevido.

No final da Moontec, falou-se muito sobre ICOs e regulação. A Oferta Publica de Moeda (Initial Coin Offering em inglês) é um contraponto à Oferta Pública de Aquisição. Enquanto tradicionalmente uma pequena start-up procura sustentar-se com investimentos de “anjos” (os chamados “angel investors”), isto é, de pessoas com muito dinheiro, as ICOs permitem que qualquer a empresa possa promover uma ronda de investimento para obter capital e qualquer pessoa pode ser investidora. Não que as qualificações e os conhecimentos de negócio não sejam úteis, mas é a democratização de um processo. A segurança destes processos é discutível, uma vez que é relativamente fácil corromper um website, copiar um white paper (registo de intenções de empresas que fazem o ICO) e até criar links de phishing.

Os membros de fundos de investimento, presentes no evento, acreditam que têm uma palavra a dizer sobre os ICOs e querem participar no mesmo processo em condições mais vantajosas. Da plateia vinham posições mais apologistas ao ideal da anarquia e descentralização digital. Draper, investidor americano, assumiu que o ideal é mesmo que governos passem a sentir a competição de privados nas suas competências de controlo de economia. Todos os desafios são bem-vindos e que quando estamos no desconhecido, podemos proibir com medo ou podemos abrir novas portas, acrescentou.

Einstein, o robô dos mesmos pais de Sophia

A Moontec, que vai regressar a Tallinn em Março do próximo ano, contou com a presença de Ben Goertzel, da SingularityNET. Um dos pais da Sophia, robô-cidadã que foi sensação no Web Summit, em Lisboa, levou o robô Einstein até à capital da Estónia. Este é um modelo anterior e neste evento foi treinado para que, todas as vezes que fosse referida a palavra “ICO”, o robô respondesse com “yeah” ou “awesome”. Na apresentação do projecto, a SingularityNET explicou que usa diferentes APIs de inteligência artificial para desenvolver os seus robôs. Os comentários que se ouviam do público era comparavam o robô Einstein à Skynet, entidade fictícia que, no filme The Terminator, “lança” o mundo num holocausto nuclear.

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