Afinal, o estranho objecto “alienígena” pode ser só uma rocha gelada

As suas características têm intrigado a comunidade científica que vive numa autêntica corrida por novas descobertas.

O Oumuamua pode ter viajado milhões de anos pela Via Láctea antes de chegar ao nosso sistema solar. Ilustração: NASA/JPL-Caltech
 
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Descoberto no último dia 19 de Outubro, este asteróide interestelar – o 1I/ʻOumuamua – causou uma enorme surpresa, quer pela órbita quer pela forma que apresentava. Intrigou tanto os astrónomos que deu início a uma investigação por sinais de vida alienígena. A ideia foi do bilionário russo Yuri Miner e na semana passada arrancaram os primeiros estudos. Milner patrocinou a utilização de um radiotelescópio para que se recolhesse informação sobre a composição do corpo celeste.

Apresenta uma velocidade e trajectória que sugerem que vem de fora do Sistema Solar e como não formou uma espécie de cauda ao aproximar-se do sol, supunha-se que teria pouco ou nenhum gelo na sua constituição – deixando aberta a possibilidade de conter algum tipo de tecnologia alienígena.

Mas, feitas as primeiras observações científicas, não foi captado nenhum tipo de sinal, e descobertas recentes indicam que o gelo estaria escondido sob uma grossa cobertura de carbono. Os resultados foram apresentados pelo projecto independente de Milner, o Breakthrough Listen Initiative, que estudava o asteróide, e sugerem ainda que o corpo tenha uma origem natural. 

O grupo de cientistas analisou a forma como o corpo celeste reflecte a luz do sol e descobriu que é similar à de outros objectos do nosso Sistema Solar que são cobertos com uma “camada seca”.

O observatório Gemini North, usado para reunir informações sobre o Oumuamua. Foto: Divulgação

Interior gelado

Os dados sobre o asteróide recolhidos por telescópios apontam que milhões de anos de exposição a raios cósmicos criaram uma camada isolante rica em carbono que protege o interior cheio de gelo.

Esse processo deixou o Oumuamua com uma matiz avermelhada, parecida com a de objectos congelados encontrados na parte mais externa do nosso sistema.

“Quando se aproximou do Sol, a superfície do objecto deve ter atingido 300º C, mas meio metro para dentro, o gelo deve ter se mantido”, diz Alan Fitzsimmons, professor da Queen’s University de Belfast, na Irlanda, e autor de um dos estudos sobre o asteróide, agora tornados públicos.

Medições feitas pelos especialistas sugerem que o objecto é pelo menos dez vezes mais comprido do que largo. Essa proporção é mais extrema que a de qualquer asteróide ou cometa já observado no Sistema Solar. O seu tamanho exacto ainda é incerto, mas estima-se que tenha pelo menos 400 metros.

“Não sabemos a sua massa. É possível que seja frágil e tenha uma densidade relativamente baixa”, diz Fitzsimmons. “Descobrimos que tem uma crosta similar à de microplanetas localizados nos extremos do nosso sistema solar”, diz Michele Bannister, co-autora do estudo.

“É fascinante que um objecto interestelar tenha tantas semelhanças com o nosso sistema. Isto sugere que a forma como os planetas e asteróides se formaram por aqui tem muito em comum com os sistemas de outras estrelas.”

Formato inusitado

Foi uma das características que inicialmente mais chamou a atenção da comunidade científica. Uma série de motivos poderia explicar o formato pouco comum do Oumuamua. Pode ter sido  formado por objectos diversos que se juntaram, ou pela colisão entre dois corpos com núcleos líquidos, que então expeliram uma rocha – mais tarde congelada num formato alongado. Outra possibilidade é que se trate de uma “lasca” de um objecto maior, destruído pela explosão de uma estrela.

Num relatório recente, Gábor Domokos, professor da Universidade de Tecnologia de Budapeste, na Hungria, sugeriu que colisões entre o Oumuamua e poeira estelar durante milhões de anos podem ter produzido seu formato estranho.

“Estamos a assistir a uma corrida de cientistas que tentam descobrir como é que ele ficou assim, de onde veio, de que é feito. É muito empolgante”, diz Alan Fitzsimmons.

Se planetas de outros sistemas se formaram da mesma forma que os do nosso, muitos objectos do tamanho do Oumuamua podem ter sido expelidos para o espaço. Este visitante interestelar pode ser a primeira prova disso.

“Todas as informações que temos até o momento são consistentes com o que poderíamos esperar de um objecto expelido por outra estrela”, afirma o astrónomo. “Mas se eu tivesse um radiotelescópio, talvez também tivesse procurado por sinais de vida inteligente.”

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