Sapiosexual: a orientação de quem só quer ter relações com pessoas inteligentes

Os homens e mulheres sempre desejaram inteligência no outro, quer arrisquem identificar-se como sapiosexuais ou não.

Imagem de: Marianka L./Some e-cards

Não é fácil cunhar a história de um termo, saber quem o inventou e quando começou a ser usado. Um artigo da VICE remete o início da expressão “Sapiosexual” para 2014, numa altura em que terá sido usada pelo OKCupid – site que promove relações, amorosas e não só – quando quis expandir a sua lista de orientações sexuais. Na altura adicionou as opções andróginas, assexuadas, questionadores e sapiosexual. Esta última para muitos desconhecida. O site remetia a explicação do termo para um utilizador do LiveJournal, alguém com o nickname wolfieboy, que disse que um sapiosexual é quem considera a inteligência o traço sexual mais importante – o tipo de pessoa que cita Albert Camus na cama, ou que, por exemplo, discute macroeconomia num primeiro encontro.

A inclusão do termo no OkCupid tornou-o mainstream, e em meados deste ano a Merriam Webster anunciou que estava a debater se devia ou não incluí-lo na próxima edição do dicionário. Mais ou menos ao mesmo tempo surgiu a Sapio, uma app de namoro parecida com o Tinder mas onde, em vez de escolheres quem te interessa pelo aspecto físico, fazes match pela personalidade. A ideia é que incluas uma série de perguntas e respostas no teu perfil, que também queiras ver respondidas por outros, podendo também tu responder a questões de outros utilizadores para desbloqueares features do seu perfil.

De acordo com Bernadette Libonate, porta-voz da OkCupid, a plataforma de namoro acredita que incluir a sapiosexualidade “seria uma maneira interessante para os nossos utilizadores – aqueles mais intelectuais – de pesquisarem e se apresentarem ao resto do site”. Também esclareceu que a adição da opção visava melhorar a experiência dos clientes e não significava “uma declaração do que reconhecemos como as “orientações ‘oficiais'”.

Seja qual for a intenção, o rótulo já ficou para a história. No OkCupid, mais de 9 mil pessoas identificam-se como sapiosexuais. A “identidade” sexual também tem uma página no Facebook e é usada como hashtag em inúmeras fotos no Tumblr que parecem vincular o prazer sexual ao intelectual – a maioria dos resultados de uma pesquisa rápida mostra malta a ler enquanto tem relações. Há ainda frases inspiradoras como: “É lindo quando encontras alguém que quer despir a tua consciência e fazer amor com os teus pensamentos”. O cliché, portanto.

“If you kiss her mind, her body will follow”
Tumblr: Mandy’s World

Mas desejar parceiros inteligentes não é uma preferência única ou não-normativa. De acordo com Lora Adair, professora de psicologia evolutiva na Lyon College, homens e mulheres sempre desejaram inteligência no outro, quer arrisquem identificar-se como sapiosexuais ou não.

“Quando se trata de identificar traços que para nós são como “necessidades” quando procuramos companheiros a longo prazo, homens e mulheres de diferentes orientações sexuais tendem a colocar a inteligência e a bondade acima de outros atributos sexualmente atraentes, como a atractividade física”, refere Adair. E isto é verdade em todas as espécies, embora em animais, “inteligência” ou habilidade cognitiva, seja “medido morfologicamente”, disse ela.

Adair acredita que o crescente reconhecimento da sapiosexualidade pode, pelo menos parcialmente, ser explicado pela aproximação das linhas que antes separavam a chamada cultura nerd e o mainstream. “O que antes eram interesses marginais reservados para os heterossexuais introvertidos, intelectuais, os nerds do mundo – banda desenhada, personagens e filmes e programas de TV com inspiração cómica, Sci-Fi e fantasia como Star Trek e Game of Thrones – são agora características essenciais da cultura do século XXI”, diz ela.

Também podemos falar na moda dos hipsters com tudo o que isso envolve: a filosofia ficou na moda, a literatura, o gosto e o hábito de procurar informação nova, o conhecimento de uma maneira geral. Para muitos olhares, é cool teres lido aquele livro que ninguém leu daquele autor francês que quase ninguém conhece mas que até é primo em 4º grau do Sartre, só para dar aquele ar. Acabarás – ou não – por te interessar verdadeiramente pelo que ele disse e, se assim for, naturalmente vais interessar-te também por quem também o conhece.

O outro lado da moeda de reconhecer a sapiosexualidade como uma identidade sexual é representado por aqueles que vêem o statement como uma forma de discriminar os potenciais pretendentes com base nas capacidades intelectuais e na classe. Como alguém disse no Tumblr: “A Sapiosexualidade é um monte de parvoíces. Tu não te sentes atraído pela inteligência, sentes-te repelido pela falta dela.”

Outros vêem a definição como sendo algo limitadora para a discussão em torno da inteligência. Num questionário do Buzzfeed, destinado a saber se és realmente um Sapioxeual, uma das perguntas questiona literalmente os leitores se se sentem “repelidos pela ideia de ter relações sexuais com alguém que nunca tenha ido à faculdade ou não tenha interesse em ter uma educação superior”, aparentemente normalizando a ideia de que é bom discriminar aqueles que não têm diplomas universitários ou aspirações explicitamente académicas.

Isto é redutor e condescendente por razões óbvias, mas também porque a inteligência vem em várias formas; além disso, discriminar os pretendentes porque não gastaram quatro anos das suas vidas em cursos, na maioria das vezes, inúteis não é uma identidade ou uma orientação sexual, é uma preferência limitante que merece o escrutínio.

O preconceito também não precisa de ser codificado, porque é inato. A inteligência sempre foi tida como uma qualidade que “ajudou nossos antepassados enquanto procuravam vínculos e alianças sociais, as suas habilidades para arranjar para alimentação, abrigo e segurança, bem como as suas habilidades para usar ferramentas ou resolver problemas em ambientes ancestrais”, de acordo com Adair, e é algo que, corriqueiramente, nos habituámos a levar como sendo benéfico na prática, ao longo das nossas vidas, como por exemplo sendo sinónimo de maiores salários e melhores empregos. Mas viver a vida com essa ideia pré-concebida, tornando-a a tua identidade de namoro é supérfluo e pretensioso.