A história de uma Cidade de Fantasmas invencíveis num documentário imperdível

"Esta história é sobre Raqqa, a cidade síria esquecida nas margens do rio Eufrates, que passou a ser conhecida como a capital do Estado Islâmico. E que se tornou uma cidade de fantasmas."

Imagem do trailer do documentário City Of Ghosts

Hoje o tema é, nada mais nada menos que, o terrorismo na Síria. Vamos levar-te no tempo para conheceres a origem do califado e temos um documentário ideal para te ajudar a compreender tudo: City of Ghosts, de Matthew Heineman.

“Esta história é sobre Raqqa, a cidade síria esquecida nas margens do rio Eufrates, que passou a ser conhecida como a capital do Estado Islâmico. E que se tornou uma cidade de fantasmas.”

Raqqa – a cidade fantasma

Desde a década de 70 que a família Assad governa a República Árabe da Síria sob o signo do partido polítco Baath – primeiro o pai, Hafez al-Assad até 2000, e depois o filho, Bashar al-Assad até à atualidade. Tal como nas ditaduras, o ambiente político vivido pela população não cumpre com os direitos humanos universais.

De todos os tipos de liberdade, foquemo-nos na falta de liberdade mediática e opressão dos órgãos de comunicação social que nos anos 2000 levaram vários cidadãos, maioritariamente estudantes e jornalistas, a começar manifestações contra o regime. O resultado dessas manifestações foi a prisão, tortura e, nalguns casos, a morte. Esta situação repressiva inflamou os revoltosos que declararam guerra ao governo de Assad. Começava assim a Guerra Síria (2011 – atualidade).

“Um grupo de estudantes grafitou a parede de uma escola – ‘O povo quer a queda do regime.’ – Eles foram presos e torturados.
Quinze jovens foram a faísca que acendeu o fogo por toda a Síria.”

A Primavera Árabe chega à Síria com os membros do Estado Islâmico a lutarem ao lado da oposição. Porém, numa visão oportunista de um golpe de Estado, o Daesh isolou-se e passou a combater ambos os lados. Independentemente do conflito, o Daesh proclama um califado (2014), liderado por Abu Bakr al-Baghdadi, cuja capital é Raqqa (Ar Raqqah) dando início a uma série de crimes que teriam repercussões à escala mundial.

Numa análise sucinta, em 2010 a população síria era de 21 018 834. No ano de 2017 o número decresceu para 18 269 868. Uma quebra de quase 3 milhões de pessoas em apenas 7 anos.

RBSS – A oposição

A organização RBSS – Raqqa is Being Slaughtered Silently (em português, Raqqa está a ser massacrada silenciosamente) nasceu pela mão de um grupo de jovens, entre eles professores, cineastas, jornalistas e estudantes, que se comprometeram a lutar contra o Estado Islâmico através dos meios de comunicação social e da exposição das ilegalidades cometidas pelos jihadistas. Através de câmaras escondidas foram filmando secretamente os crimes diários que eram cometidos pelos “homens de preto” — torturas, golpes físicos, assassinatos em praça pública — testemunhos que lhes valeram a atenção do grupo terrorista.

As ameaças e posteriores concretizações mancham a rotina síria –  “Quando viram que não me conseguiriam apanhar, mataram o meu pai e o meu irmão para nós pararmos. Mas eu prometo que vamos continuar.”

Após a tortura e assassinato de alguns membros da RBSS, os restantes viram-se obrigados a fugir para a Turquia e Alemanha. Mas nem aí estavam seguros.

“O Estado Islâmico pode encontrar-nos em qualquer parte do mundo.”

Foi neste momento que os elementos da oposição decidiram mostrar-se ao mundo e contar em primeira mão as experiências pessoais que viveram e como o Daesh manipula os media ao ponto de enganar a comunidade internacional.

A saída das sombras valeu-lhes o reconhecimento na forma do Prémio Internacional da Liberdade de Imprensa 2015 – “os homens e mulheres de Raqqa is Being Slaughtered Silently são verdadeiros heróis jornalísticos. Eles trabalham em silêncio e sob constantes ameaças. Alguns fugiram pelas suas vidas, mas mesmo no exílio eles não estão, de todo, seguros.”

Já o documentário acima descrito, City of Ghosts , trabalho de Matthew Heineman, conta a história de Raqqa e do povo sírio conhecido pelo seu espírito de sacríficio pelos olhos deste grupo. Considerado pelos media internacionais como essencial e revelador, a mensagem principal é a do combate não apenas ao Estado Islâmico, mas mais importante, à ideologia a ele inerente, revelando a importância do jornalismo-activismo e o papel dos jovens criativos e empreendedores em cenários de crise humanitária.