Escrever sobre criptomoedas não é incentivar à sua compra

Mais do que investir em criptomoedas, este é o tempo ideal para as perceber e pensar nas suas aplicações práticas.

As criptomoedas são um inovador cruzamento entre as tecnologias com que habitualmente lidamos no nosso dia a dia e o sistema financeiro. Pelo seu princípio fundamental de servir de veículo de descentralização do sistema capitalista, tornam acessíveis a milhões de pessoas um mercado – ou uma espécie de mercado – que nos habituámos a ver povoados apenas por especialistas.

Se com dólares, euros ou libras é pouco habitual noticiarmos com espanto as suas subidas ou descidas – uma vez que são sempre dentro de uma certa normalidade –, as cripto, pela sua novidade, ainda não se aproximam de nenhum tipo de norma. E é, por isso, que é tão interessante (e importante) falar e escrever sobre elas, mais do que arriscar em investimentos ou entrar no jogo propriamente dito.

O efervescente mundo das criptomoedas

A novidade faz com que a atenção recaia sobre este mercado e o torne especialmente efervescente e apetecível para quem tem o bichinho dos investimentos e a esperança do dinheiro fácil. Entre experts, geeks e autênticos newbies, movimentam-se milhares e milhões de dólares aplicados ou investidos nas mais diversas criptomoedas que vão surgindo.

Se a Bitcoin ainda continua a ser a rainha deste reino, as altcoins, na sua maioria baseadas em Ethereum, são as principais personagens do último ano, como de resto mostram os gráficos. Em apenas um ano, a Bitcoin viu a sua predominância no mercado baixar de 85% para perto de 35%, com o surgimento de outros veículos de investimento com as mais diversas particularidades.

Divisão da capitalização do mercado pelas diferentes criptomoedas [CoinMarketCap.com]

É praticamente impossível perceber quantos investidores já entraram neste mercado, pela sua dispersão — só no CoinMarketCap estão indexadas 1469 moedas —, mas um olhar sobre a capitalização global do mercado e as principais notícias, até do mundo das celebridades, dão-nos uma ideia do volume e do tipo de negócio de que estamos a falar.

No total, trata-se de um universo altamente volátil, actualmente avaliado em 607 mil milhões de dólares mas que já chegou a ultrapassar a barreira dos 800 mil milhões — números que não deixam margem para dúvidas quanto ao enorme volume.

As celebridades-investidoras

Quanto ao tipo de negócio, a inferência é bem diferente. Se não é propriamente novidade vermos executivos das principais tecnológicas a vingar no mercado das cripto, uma pesquisa rápida revela-nos o interesse de investidores de perfil perfeitamente oposto. Paris Hilton ou Floyd Mayweather são alguns dos multimilionários que provavelmente nunca esperámos ver associados a este universo e que lhe dão uma expressão mediática notável.

O surgimento deste e de todo o tipo de investidores não é necessariamente um mau sinal para o mercado, mas acentua a sua volatilidade, numa altura em que poucos conseguem conceber mentalmente o modo de funcionamento das criptomoedas, bem como a sua utilidade.

Informação é necessária

As ICOs (Initial Coin Offering), que geram a entrada de novas moedas no mercado, não são propriamente reguladas e permitem a qualquer empresa ou grupo de indivíduos criar a sua própria moeda. Central a toda a questão está a forma como essa moeda é valorizada, isto é, qual o activo real que representa — seja ele um produto ou serviço.

“As bolhas acontecem quando um produto financeiro é utilizado de um modo especulativo – isto é, sem a sua valorização se relacionar com a economia real –, algo de que facilmente se suspeita olhando por exemplo às constantes variações da Bitcoin.”

Durante o ano 2017, foram vários os casos em que as moedas ou as suas transações se revelaram fraudulentas ou demasiado vulneráveis, uma realidade não tão divulgada mas igualmente marcante. É que para gerar uma moeda (ou uma aparente moeda), na prática, é apenas preciso uma plataforma online que permita transações e a criação de um white paper — o contrato central que regula as especificidades dessa moeda.

A facilidade com que se podem criar critpomoedas combinada com a atenção mediática desmesurada, traduz-se em investidores pouco informados ou até desconhecedores das lógicas subjacentes ao mercado, atraídos apenas pela sua efervescência — qual é o problema? 

Se, do ponto de vista global, as criptomoedas abrem um leque de possibilidades para empresas e associações se financiarem de um modo alternativo e criam uma dinâmica própria com os seus consumidores/investidores; por outro, as características actuais do mercado e o já mencionado apetite pelo dinheiro fácil podem importar das praças financeiras actuais os vícios de sempre.

A falta de transparência do sistema financeiro actual pode ser resolvida com recurso a tecnologia, mas para isso é preciso que as pessoas percebam aquilo em que estão a investir. Na prática, uma ICO é um crowdfunding em que as recompensas são substituídas por tokens (moedas).

Perceber onde estamos a investir

Os termos fazem tudo parecer analítico e matemático, mas é essencial não esquecer a dimensão subjectiva de todos os mercados. É que, se as criptomoedas prometem a descentralização física e tecnológica das transações financeiras, podem pela sua complexidade propiciar outro tipo de dominação de mercado. Num mundo com tantos elementos, a informação necessária à tomada de decisões correctas nem sempre está sistematizada ou acessível a todos os interessados. Assim, a informação privilegiada e a desigualdade no entendimento da tecnologia tornam-se vantagens competitivas importantíssimas e difíceis, se não impossíveis, de resolver do ponto de vista tecnológico.

A antecipação de uma falha tecnológica, a descoberta de uma vulnerabilidade nos sistemas de segurança, a facilidade de criação de sites falsos ou, até mesmo, a cooperação dos promotores com transações ilegais podem ser algumas das realidades escondidas por trás das estratégias de marketing e branding.

Assim, e em jeito de resumo, mais do que investir em criptomoedas, este é o tempo ideal para as perceber e pensar nas suas aplicações práticas. A tentação do dinheiro fácil pode ser vista como uma possibilidade, mas é sobretudo um risco que só a crescente consciência pode erradicar. A aplicação da tecnologia de blockchain não deve ser vista como o advento da especulação financeira e um novo mercado de gambling, sob pena de perder a credibilidade que conquistou pela inovação tecnológica.

Num mercado de crescente complexidade tecnológica, de absoluta distribuição geográfica e de difícil conversão entre moedas (valorização) e activos reais (para que servem essas moedas), a informação ganha um papel ainda mais relevante. Se no mercado acionista é possível ter noção de alguns factores que determinam a subida ou descida na valorização das empresas (pense-se nas portuguesas, para facilitar), no mercado das cripto a sua imensidão e diversidade torna esta distinção muito mais árdua de fazer.