Donald Trump mais subtil no discurso, continua radical e assustador na acção

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez o seu primeiro discurso do Estado da União, que ficou marcado por um tom aparentemente mais conciliatório e proclamou um "novo momento americano" graças às suas políticas.

Discurso do Estado da União de Donald Trump
Donald Trump / White House Gov

“Há uma diferença gigante entre o seu teleponto e os seus tweets.” A declaração é do congressista democrata Lloyd Doggett, representante do estado do Texas, mas resume aquela que tem sido a leitura generalizada feita pela imprensa e especialistas, do primeiro discurso do Estado da União de Donald Trump, desde que está na Presidência.

Num tom mais moderado, aparentemente mais conciliatório, o Presidente dos Estados Unidos surgiu perante o Congresso pedindo união e dizendo estar disposto a “estender uma mão aberta” aos democratas para que os dois partidos avancem com o seu programa político, em particular com a sua tão desejada reforma da imigração.

Numa intervenção de cerca de 80 minutos (uma das maiores da história dos Estados Unidos), Donald Trump mudou a abordagem mais radical com que se dirigiu à nação há um ano, passando da sua intenção de salvador de um país mergulhado na “carnificina”, para querer construir uma muito-mais-presidencial-“América segura, forte e orgulhosa”.

Em concordância com quem o proferiu, o discurso de Donald Trump foi o mais tweetado da história. De acordo com a rede social, hora e 20 de intervenção geraram mais de 4 milhões e meio de publicações com a hashtag #SOTU (State of the Union). Estima-se que, através da televisão, tenham sido cerca de 40 milhões os espectadores a sintonizar o discurso para ouvirem o Presidente proclamar um “novo momento americano” graças às suas políticas.

Imigração, investimento, acordos de comércio, luta contra o Daesh e Coreia do Norte foram alguns dos principais temas abordados na intervenção que, ainda que bem ensaiada, deixou cair por terra a ideia de unidade entre partidos e um país dividido, com uma marcada fixação por si próprio, sustentada com uma série de auto-elogios.

Imigração

“Esta noite estendo uma mão aberta para trabalhar com membros dos dois partidos, Democratas e Republicanos, para proteger os nossos cidadãos, de todas as origens, cores e credos.” Foi neste tema que Donald Trump mais insistiu, na cooperação dos Democratas — ou não fosse esse um dos principais assuntos com que o Congresso se debate actualmente, e não precisasse Donald Trump do apoio democrata para fazer passar as propostas da Casa Branca. O futuro dos jovens protegidos pelo programa DACA, pessoas que foram trazidas para os EUA em criança de forma ilegal, estão nas mãos de um Congresso dividido, e não parece que o discurso da União de Donald Trump tenha tenha feito algo pela união de opiniões sobre o assunto. Sob os apupos de vários democratas, o líder anunciou que pretende cortar o financiamento ao programa que permite a chamada “imigração em cadeia”, na prática, a reunificação de famílias separadas.

Reiterou que pretende avançar com a concessão de cidadania para cerca de 1,8 milhões de jovens que “cumpram requisitos de trabalho e educação, e bom carácter moral”, em troca da construção do muro da fronteira com o México, o fim da lotaria de vistos e os programas de reunificação familiar. “Comunidades que passam por dificuldades, especialmente comunidades de imigrantes, podem ser ajudadas por políticas de imigração que se centrem nos interesses dos trabalhadores americanos e das famílias americanas”, defendeu.

As declarações surgem depois de uma campanha passada a classificar imigrantes como “violadores e traficantes”, e de vários minutos dedicados a contar histórias de crimes cometidos pelo gangue MS-13, usadas como argumento de defesa da sua proposta para reformar a imigração. A ideia foi também ecoada por vários representantes republicanos no Congresso que, no final do discurso continuam a falar dos “mexicanos” como uma comunidade perigosa.

Guantanamo e as relações internacionais

Num dos anúncios mais marcantes da noite, o Presidente republicano prometeu reverter uma directiva da administração Obama para manter aberta a controversa prisão extrajudicial dos EUA na baía de Guantanamo, em Cuba. “Não vou repetir os erros de administrações passadas”, disse Donald Trump referindo-se à medida do seu sucessor, que tinha prometido no seu mandato fechar a polémica cadeia o mais rápido possível. As instalações têm sido usadas desde os ataques de 11 de Setembro para deter aqueles a que Washington chama de “combatentes inimigos”, mas apenas 41 prisioneiros permanecem presos. Centenas foram transferidos durante a era Obama. “Os terroristas não são meramente criminosos. São combatentes inimigos ilegais. E quando são capturados fora do país, devem ser tratados como os terroristas que são”, disse Donald Trump durante o discurso. “No passado, libertámos centenas de terroristas perigosos para depois voltarmos a encontrá-los no campo de batalha”, acrescentou, dando o exemplo do líder jihadista Abu Bakr al-Baghdadi, que esteve preso sob custódia norte-americana no Iraque.

O Presidente dos Estados Unidos disse ainda que era preciso muito mais trabalho para derrotar o auto-proclamado Estado Islâmico. Tendo passado completamente ao lado da mais longa guerra dos EUA no estrangeiro — no Afeganistão — Donald Trump congratulou-se com o facto de quase todo o território da Síria e do Iraque em tempos controlado pelo Daesh já ter sido reconquistado. “Vamos continuar a nossa luta até que o ISIS seja derrotado”, prometeu.

No plano das relações internacionais, o responsável disse que, no último ano, enquanto o país reconstruiu “a força e confiança da América” na sua casa, também esteve “a reconstruir a sua força e confiança lá fora.” Donald Trump deixou um pedido para “reconstruir totalmente o arsenal nuclear” do país e corrigir as “falhas fundamentais” do acordo nuclear com o Irão. O investimento na militarização e armamento é, de resto, um dos pontos que mais “assustou” os especialistas que, ainda que sem surpresa, vejam Donald Trump focar-se cada vez mais na nuclearização da América e no seu poderio bélico.

Sobre a “depravada” Coreia do Norte também disse que não ia seguir as decisões das administrações anteriores. Considerou que Pyongyang é “imprudente” no desenvolvimento de mísseis nucleares que podem ameaçar o território americano “muito em breve”. “Estamos a fazer uma campanha de máxima pressão para impedir que isso aconteça”, garantiu. De referir que Ji Seong-ho, o mediático desertor do regime norte-coreano foi um dos convidados do Presidente para assistir ao discurso na primeira fila, tendo mesmo elevado as muletas no ar em sinal de vitória, quando ouviu Donald Trump falar do país onde nasceu.

Para surpresa de muitos, o Presidente não fez referência à Rússia, a não ser para considerar uma das principais nações rivais dos EUA, a par da China. Não disse nada sobre os avanços da investigação ao alegado conluio entre a sua equipa de campanha e o Kremlin. Também não houve uma única referência à NATO ou à União Europeia, ou seja, poucas novidades tendo em conta aquela que tem sido a sua postura desde que chegou a Washington, voltada para dentro.

Os auto-elogios de Donald Trump e a política interna

Fora a imigração, tema para o qual amenizou a escolha de palavras para tentar apelar à esquerda democrata e assim desencravar a porta que tem sido fechada constantemente às suas reformas conservadoras, ouvindo o discurso, no que diz respeito às políticas por si adoptadas desde que tomou posse, depreendemos que falta fazer muito pouco.  A marcar a intervenção estiveram uma série de elogios que proferiu a si próprio, voltando a apoiar-se em factos alternativos para aplaudir a sua própria administração.

Disse ter criado 2,4 milhões de postos de trabalho, que, consigo, a taxa de desemprego atingiu o seu nível mais baixo dos últimos 17 anos e tentou atribuir a si mesmo a descida do desemprego entre a população afro-americana — uma taxa que está em declínio desde 2011, muito antes de Donald Trump estar na Casa Branca.

Na área económica, o republicano mencionou um tema popular entre os conservadores, o corte de regulações para todas as indústrias. “Na nossa missão para responsabilizar Washington, eliminámos mais regulações no nosso primeiro ano do que qualquer outra administração na história”, assinalou. “A América é uma nação de construtores. Construímos o Empire State Building em apenas um ano. Não é uma desgraça que agora demore dez anos para conseguir a licença para construir uma simples estrada?”, questionou. Auto-congratulou-se ainda pelo boom económico que diz ter conquistado, e falou da sua afamada reforma fiscal, à qual se referiu como “o maior corte de impostos da História americana” — também comprovada como falsa, por maior que seja.

Os democratas acusam-no de fazer precisamente o contrário daquilo que apregoa e de se vangloriar de tendências que herdou de Barack Obama.

Ainda que menos chocante, mais cauteloso e contido, o Donald Trump que subiu ao pulpito tentu promover a ideia de união depois de um dos anos mais fracturantes da História da política norte-americana, é o mesmo que não conseguiu evitar fazer uma intervenção completamente virada para a sua base de apoio. Perante o Congresso, Donald Trump preferiu enaltecer as conquistas do primeiro ano de mandato, como quem mascara um autêntico comício republicano de um discurso (que devia ser) do Estado da União, com a ajuda de uma apresentação mais optimista e ideias entregues a um teleponto do qual não desviou os olhos.