Um Misfit no mundo, um Legendary Tigerman em palco

Paulo Furtado falou com o Shifter sobre os pormenores dos bastidores do seu novo álbum, Misfit

Legendary Tigerman Misfit álbum
Foto de Rita Lino/DR

Depois de viajar para os Estados Unidos da América, de filmar um road movie de nome Fade Into Nothing, de gravar as canções daí nascidas no deserto de Joshua Tree, eis que The Legendary Tigerman volta para nos apresentar o seu novo trabalho: MisfitPaulo Furtado, o homem por detrás da pele de tigre, deixou-nos roubar um pouco do seu tempo com algumas questões enquanto os ânimos se instalam antes do sucessor de True sair.

Como surgiu a ideia de partir estrada fora e fazer um disco que fosse fruto dessa viagem? E porquê especificamente nos Estados Unidos? Será possível que Jack Kerouac tenha servido de inspiração?

Acho que tudo surgiu da vontade de olhar para fora de mim. A estrada norte-americana sempre me apaixonou, desde as primeiras vezes que fiz coast to coast nos EUA, em finais dos anos noventa. E a música popular americana, os Blues e o Rock’n’Roll, sempre foram as minhas principais influências em Tigerman, de repente é natural querer voltar aí, quando a ideia é escrever um road movie, e dentro desse universo, escrever um disco.

Claro que o On The Road de Kerouac é uma inspiração, como Bukowski ou Ginsberg, ou no cinema Antonioni ou Wenders. Há uma poesia muito grande no espaço vazio e abandono da estrada norte-americana, uma ideia de que tudo é possível, o inesperado pode acontecer a qualquer momento. No fundo esta viagem também tem a ver com estar fora de pé, estar aberto ao que o mundo possa ter para me dar, de bom e de mau, numa viagem. Isso foi muito inspirador.

Foto de Rita Lino/DR

Porquê Misfit? Serve como emancipação da música que é feita actualmente?

Acho que de certa forma me fui apercebendo que sempre fui um Misfit, ou inadaptado, de muitas maneiras, no Mundo e na música. De repente olho para isto como uma coisa boa, como a minha visão.

De repente percebes que durante toda a tua vida, as pessoas que eram ou são verdadeiramente fixes, sempre foram muito poucas, desde o secundário até depois à minha vida adulta, o mundo é fundamentalmente constituído por betos e pessoas para quem a vida parece ser uma conta bancária, um apelido, uma repetição das mesmas fórmulas. Isso não me faz sentido nenhum, a vida para mim tem que ser mais do que isso, tem que ter paixão e tem que ser real. Os concertos têm que ter um certo perigo. E neste momento, precisava de um disco de Rock ‘n’ Roll. Não tenho nada contra os tempos que vivemos, nunca fui saudosista de tempo algum. Acho que vivemos uma época excitante, cheia de desafios e onde, mais do que nunca, tens que traçar uma linha muito clara em relação aos teus princípios éticos e artísticos. Não foi por acaso que na infância só aguentei meia manhã nos escuteiros, o meu mundo é outro.

“The Fix of Rock’n’Roll” tem um coro que parece prestar homenagem ao refrão de “Sympathy for the Devil”, dos Rolling Stones. Como é que combates o anacronismo no Rock’n’Roll na actualidade? Ou acreditas que o Rock’n’Roll ainda se encontra de boa saúde?

Claro que está, porque não estaria? Sempre esteve. Há tantos anos que se fala sobre a morte do Rock, e no entanto há sempre putos a fazê-lo, não há? Esse tipo de questão não me interessa muito, oiço todo o tipo de música e tudo me influencia. Mas o que me move mais, ou tem movido mais, é o Rock’n’Roll. É simples. Se algum dia conseguir fazer hip-hop ou qualquer outra coisa que me faça vibrar mais do que Rock’n’Roll, com certeza que o farei.

Ainda sobre o primeiro single de Misfit, o seu videoclipe é eficazmente violento de uma forma muito simples. De alguma forma, o videoclipe transmite a ideia de boémia, perversidade, mas também de cumplicidade, permitindo que “fix” tenha um possível significado alternativo. O teu objectivo era de resgatar o Rock’n’Roll ou de evitar a sua ressaca?

Não creio que o Rock’n’Roll precise ser resgatado, e toda a gente sabe que uma ressaca passa. É o teu corpo a tentar recuperar a alegria que gastaste no dia anterior, há que pagar com alguma tristeza. Essa música fala sobre ultrapassar limites, sobre aqueles dias em que sentes que tens que ultrapassar limites. Há dias assim.

O que te levou a tomar a decisão de abandonar o conceito de one man band, o qual foste provavelmente o maior percussor português, para adoptar o formato trio com Paulo Segadães na bateria e João Cabrita no saxofone barítono? Sentiste necessidade de te libertar da bateria?

Não foi uma decisão totalmente consciente, foi acontecendo, depois do True. Acho que nesse disco perdi demasiado tempo com aspectos técnicos de uma one-man-band, e cansei-me disso. Entretanto o Sega entra para a bateria, o Cabrita vai começando a tocar uma ou outra música, e de repente há uma linguagem qualquer criada, que é diferente de tudo o que fiz e ouvi até esse momento, e apetece-me escrever e trabalhar esse formato, é tão simples quanto isso.

Não me preocupa muito se algum dia voltarei a ser um one-man-band, neste momento, é isto que me apetece fazer, e é maravilhoso estar a fazê-lo com pessoas tão talentosas.

Ao longo do disco, mostras vigor e assertividade nas letras, mas ocasionalmente nota-se alguma fragilidade e nudez emotiva. As canções nasceram todas do mesmo ponto, ou sentes que houve de certa forma alguma interacção recíproca com o disco que ias construindo?

As canções foram todas escritas no contexto do filme, Fade into Nothing, e da viagem entre Los Angeles e Death Valley, pelos olhos do personagem a quem dei corpo, Misfit. Como tal, é natural que existam muitos estados de espírito, que existam inclusivamente momentos antagónicos. Tudo isso faz parte da viagem também, e do modo instintivo como tudo foi escrito. As canções vêm do mesmo ponto de partida, vêm dessa viagem, mas como em todas as viagens, vais encontrando muita coisa pelo caminho.

Foto de Rita Lino/DR

Repetiste a experiência de contracenar com Alba Baptista, num trecho de “Black Hole”, contribuindo numa forte coerência cinematográfica. Como surgiu esta colaboração?

Tinha visto o trabalho da Alba há já algum tempo, em duas curtas, e depois colaborei num projecto em que ela também entrou, uma longa do Edgar Pêra, e de repente a minha ideia para estes primeiros videos partiam de uma série de testes cinematográficos e experiências levadas a cabo pelo Henri-Georges Clouzot para um filme chamado Inferno, com a Romy Schneider, e pareceu-me que a Alba seria perfeita para esse remake. Foi muito natural, e fiquei muito feliz com o trabalho dela.

Abordas algumas estéticas musicais fora do vulgar do teu habitual repertório, seja com a variedade nova de instrumentos, seja pela forma como constróis as canções. Como desencantaste canções como “Red Sun”, “Sleeping Alone” ou a despreocupada “Closer” do álbum To All My (Few) Brothers?

As coisas foram escritas on the road, sem muito filtro. O “Red Sun” nasceu no meio do deserto de sal em Death Valley, que aparece exactamente na capa de Misfit, num momento próximo da insolação, e surgiu como um mantra na minha cabeça, que gravei no telefone. Mas tudo surgiu, fundamentalmente, da viagem, e de direcionar o olhar para fora, para tudo o que estava à minha volta, e tentar absorver tudo o que vi e sentia.

Foto de Rita Lino/DR

Sobre a mais recente tournée com os Linda Martini de nome Rumble in the Jungle, que tal foi a experiência de partilhar palco com outro gigante do Rock português? É uma experiência que vamos voltar a ver acontecer este ano, ou estás de agenda cheia a promover o álbum?

Não sei se voltará ou não a acontecer, mas espero que sim. Temos discos a sair mais ou menos na mesma altura e gostava de, de algum modo, fechar este ciclo que começámos, algures durante o próximo ano. Sentimos uma empatia muito grande, que já existia, mas saiu reforçada desta tour, e um grande respeito e compreensão pelo trabalho uns dos outros. Foram duas semanas incríveis, em que todas as noites aconteceram coisas muito bonitas no palco. Foi mágico.

Sabe-se que arrancas este ano a divulgar o disco fora do país. Dá para ter saudades de casa ou sentes-te bem-recebido lá fora?

A minha vida e carreira como músico foi construída, fundamentalmente, na estrada e pelos concertos ao vivo. Não há propriamente muita rádio que passe a minha música, a televisão é o que todos sabemos que é, com honradas excepções, e portanto abraço com muita alegria que existam pessoas que me querem ver e ouvir, um pouco por todo o lado, e em Portugal, claro.

Tocar ao vivo é das melhores coisas para mim, e sinto-me um privilegiado por o poder fazer um pouco por todo o Mundo.

 

Misfit, o novo trabalho de Legendary Tigerman, já está disponível no Spotify e está nas lojas a partir desta sexta-feira, 19 de Janeiro.

Fotos de: Rita Lino/DR