Reino Unido cria Ministério da Solidão

A solidão é um problema grave que pode tornar os doentes vulneráveis a infecções virais.

Fotografia: Mike Wilson/Unsplash

Theresa May anunciou na semana passada um novo departamento do governo britânico: o Ministério da Solidão. Um indício de que o problema ganha contornos cada vez mais preocupantes no Reino Unido. Tracey Crouch vai ser a ministra encarregada de coordenar os serviços de vários ministérios para combater esta epidemia. Tracey Crouch acumulará o cargo com o de subsecretária de Estado para o desporto e sociedade civil que já desempenhava.

Theresa May explicou em comunicado que “para demasiadas pessoas, a solidão é a triste realidade da vida moderna”, citado no Diário de Notícias. As funções da nova ministra vão passar por “liderar um grupo intergovernamental que terá a responsabilidade de dirigir a ação sobre a solidão em todas as partes do governo e mantê-lo firmemente na agenda”.

A agora ministra vai trabalhar junto de organizações sociais e do gabinete de estatística britânico para abordar o problema. “A verdade é que, uma vez que não se trata de um problema singular (afeta pessoas de todas as idades, com e sem deficiência, recém-mamãs, refugiados, quem tem família chegada e quem não tem), não há uma solução simples. O meu desafio é o de criar e coordenar uma estratégia que cruze o governo, empresas, instituições de caridade e muitos outros parceiros para durar uma geração”, explicou Crouch, no seu perfil de Facebook.

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Publicado por Tracey Crouch em Quarta-feira, 17 de Janeiro de 2018

A publicação aborda ainda o trabalho da trabalhista Jo Cox. Jo Cox foi uma das principais impulsionadores do estudo sobre solidão nos últimos anos e criou uma comissão dedicada ao assunto antes de ser assassinada em 2016. “A Jo Cox começou a sua curta carreira no Parlamento a falar sobre os problemas de isolamento social e o impacto não só nos que sofrem, mas também na sociedade”, explica no mesmo post. Theresa May partilha o sentimento: “Todos devemos fazer tudo o que pudermos para, em memória da Jo, acabarmos com a aceitação da solidão para sempre”, disse no mesmo comunicado.

O trabalho de estudo foi concluído e no ano passado, a Comissão para a Solidão, lançou um relatório que mostra que nove milhões de adultos estão frequentemente ou sempre solitários (cerca de 14% da população britânica e quase o número total de habitantes em Portugal). Além disso, o relatório mostra que há 3,6 milhões de pessoas com pelo menos 65 anos que vêem na televisão a principal forma de companhia e que 10% dos homens não admitem o sentimento.

Há dados relativos a todas as faixas etárias e situações: 43% dos indivíduos com idades entre os 17 e 25 anos inscritos na instituição Action for Children tiveram problemas com solidão e mais de metade dos pais também. Podes explorar o relatório aqui.

O combate à doença é sério e altamente desafiante uma vez que a patologia não é tão explicitamente percetível como outros problemas. “A isolação social é um contributo independente para a morte e podemos colocá-la ao nível de problemas como cancro e doenças cardiovasculares”, explicou Josh Klapow, psicólogo da Universidade do Alabama, em declarações ao Mashable. Steve Cole, investigador americano, reiterou a ideia e comparou o risco de morte causado pela solidão ao do vício do tabaco ou da obesidade.

Steve Cole ainda explicou que a humanidade não evoluiu para estar isolada e que “somos inerentemente seres sociais”. “O desconforto psicológico [que sentimos quando estamos isolados] provoca sensações de insegurança e perigo. Ficamos perturbados quando não há mais ninguém à volta ou quando estamos excluídos ou fora da tribo”, continua o especialista. A resposta do corpo a estes estímulos torna os indivíduos mais vulneráveis a infeções virais (“O nosso sistema antiviral desliga” com a produção de moléculas muito inflamatórias).

Além disso, Cole explica que um sistema de defesa “é suposto funcionar durante alguns dias por ano, mas nós estamos a sofrer durante 356 dias por ano”. Esta particularidade alimenta um processo de doença a longo prazo que não é habitual. De acordo com o SOL, que cita um estudo da Universidade de Cambridge, as “pessoas solitárias são 50% mais propensas a terem uma morte precoce do que outras”.

A estratégia final vai ser publicada durante este ano. Entretanto, está a ser criado um fundo para apoiar a criação de soluções.