Nesta faculdade, a cultura é uma “AlternAtiva” à praxe

Conversámos com a Maria, uma das fundadoras da AlternAtiva da FCSH (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas) – um espaço de integração para os novos alunos e alunas, sendo uma alternativa à praxe.

Alternativa praxe

Terminada a época de exames, retoma-se a rotina académica de aulas, estudo, praxes e festas. A praxe é a prática mais conhecida de integração aos alunos durante o ano lectivo, mas têm surgido diversas iniciativas de integração alternativa. É sobre uma delas que falamos hoje.

Conversámos com a Maria, uma das fundadoras da AlternAtiva da FCSH (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas) – um espaço de integração para os novos alunos e alunas, sendo uma alternativa à praxe. É um movimento que pretende dinamizar a faculdade, a partir de actividades culturais, com o objectivo de aproximar pessoas que estejam interessadas em partilhar o espírito de se conhecer.

Ponto de partida

Antes de entrar para a faculdade, a Maria debateu-se muito com a questão da praxe: “sempre me meteu um bocado de medo porque sabia que não me iria sentir confortável. Por uma questão de personalidade, meramente”. Quando ingressou no curso de Antropologia na FCSH, assistiu a um dia de praxe e confirmou o que já esperava: aquele formato não se encaixava com a sua forma de ser e de estar. “Apercebi-me que no meu 1º ano os meus únicos amigos eram pessoas que não tinham ido à praxe.”

Quando foi estudar Erasmus, percebeu que várias cidades da Europa com alunos Erasmus, tinham instituições que garantiam a sua integração. No seu caso, Florença, em Itália, foi a cidade escolhida. Foi aí que se deparou com uma nova realidade: “havia 3 grupos de integração aos alunos e as actividades variavam desde irmos todas as semanas a um museu diferente a apanhar bebedeiras em sítios diferentes. Dava literalmente para todos os gostos”.

Esteve envolvida nestas actividades no primeiro mês de Erasmus, onde conheceu muitas pessoas e constatou que aquela era uma “forma tão simples e eficaz de pessoas se conhecerem”. Esta experiência foi partilhada por uma amiga que estava a fazer Erasmus em Paris: “ela disse-me exactamente a mesma coisa: que existiam grupos autónomos na faculdade que faziam o mesmo para os alunos”. “Começámos a perceber que havia uma outra forma de integrar pessoas num espaço que seria estranho para elas que não fosse através de uma lógica tão imposta e segmentada como seria a praxe.”

Quando vieram a Lisboa, juntaram um grupo de amigos e falaram sobre a possibilidade de criar um novo movimento. A sua referência foi o Cria’ctividade em Coimbra: “lemos a página de Facebook deles, o website, todas as informações possíveis e percebermos que gostaríamos de fazer uma coisa semelhante”. Foi no verão de 2016 que o impulso de criarem uma alternativa, ganhou forma: “fizemos algumas reuniões onde definimos o Manifesto e definimos a calendarização das actividades que queríamos fazer”. Assim, surgiu o movimento AlternAtiva FCSH, em Agosto de 2016.

“Somos um grupo de estudantes da FCSH de vários cursos e ciclos de estudos. Juntámo-nos porque procuramos construir um espaço de integração para os novos alunos e novas alunas da faculdade, um espaço alternativo à praxe: sem hierarquias nem humilhações, onde todos estão em pé de igualdade e procuram conviver e conhecer pessoas novas a partir da conversa, de atividades descontraídas e de boa música, na esplanada ou no bairro, ao fim da tarde ou pela madrugada fora.
 Queremos ser um movimento que relembre à FCSH que é uma faculdade de ciências sociais e humanas, e que, por isso mesmo, ajuda a construir indivíduos com pensamento crítico e com opiniões. Queremos reunir pessoas que querem conhecer o que as rodeia sem terem de passar por qualquer prova ou agir conforme regras estabelecidas por outrem.
Somos estudantes que querem conhecer outros e outras estudantes, num movimento livre e independente que é também um espaço aberto ao convívio descontraído. Estamos de braços abertos a toda a gente que queira viver a nossa faculdade tendo em mente os valores da amizade, igualdade, companheirismo e cooperação.”

Actividades

A AlternAtiva é um movimento horizontal e transversal a todos os cursos da faculdade, não havendo qualquer distinção entre os alunos dos vários anos de Licenciatura, Mestrado, Doutoramento ou Erasmus. Os estudantes que numa primeira fase usufruem das actividades, são muitas vezes os dinamizadores das seguintes.

Algumas das actividades que promovem são os passeios fotográficos por Lisboa. “Percebemos que uma das melhores coisas da praxe é ocupar as pessoas que vêem de fora e não têm núcleos de amigos, nem raízes, nem conhecem a cidade e, estes passeios são uma forma de conhecerem mais facilmente.” Há também os convívios nos miradouros, em que partilham comida e longas horas de conversa. Outra das actividades que organizam são as sessões de poesia na Gulbenkian e que estão sempre cheias. “É tão bonito de ver.” Normalmente, têm quatro ou cinco pessoas que sabem que vão ler e depois as sessões são abertas – “temos tido imensas surpresas de poemas que aparecem por lá”.

Os picos das atividades são o início de cada semestre, o mês de maio e o final do ano. Tentam organizar atividades que sejam gratuitas e perto da faculdade, para que quem não tenha passe também possa participar: “Não queremos fechar portas a ninguém pelo que quer que seja.”

Outras AlternAtivas

Assim que as atividades começaram a ser organizadas e divulgadas, receberam várias mensagens no Facebook: “olhem, eu sou da FLUL, gosto imenso. Posso ir às actividades?” e depois passou de “posso ir?” para “por que é que isto não acontece na minha faculdade?”.

No final do ano de 2016 organizaram uma reunião aberta com todas as pessoas que tinham mostrado interesse em criar uma AlternAtiva na sua faculdade: “nessa reunião explicámos o processo. Foi um bocadinho de partilha de experiências, mas tendo em conta que todas as faculdades são diferentes não há uma cronologia certa de fazer as coisas”.

A Faculdade de Veterinária (AlternAtiva FMV) foi também pioneira (organizou em Setembro de 2016 uma semana de actividades), seguindo-se em 2017 a Faculdade de Letras (AlternAtiva FLUL) e a Nova de Medicina (AlternAtiva FCM). Cada faculdade é responsável por fazer as actividades nas suas próprias faculdades, usufruindo do seu próprio espaço. “Há uma questão de espaço e de personalidade que resulta melhor em cada faculdade.”

Apesar de serem independentes entre si, partilham a missão de serem uma forma alternativa de integração e adoptam os mesmos princípios gerais: “utilizar linguagem inclusiva, não ter nenhum comportamento racista, homofóbico e xenófobo”. Há uma tentativa de promover um elo de diálogo entre elas, através de actividades em conjunto. Exemplo disso, foi o jantar que organizaram no dia 15 de Dezembro, seguido de uma pequena festa no Disgraça, que juntou membros de todas as AlternAtivas.

Papel cívico

Tendo em conta o papel que as faculdades têm na formação dos futuros cidadãos, a Maria reconhece que este movimento assume um papel cívico importante: “A AlternAtiva não é de todo uma coisa acidental e pretende criar um pensamento crítico.” A génese da AlternAtiva é o próprio questionamento/pensamento crítico. “Era um grupo de pessoas que não se identificava com a praxe e que decidiu fazer uma outra coisa que não tivesse a ver com isso.”

No entanto, não pretendem ter um papel educativo: “O objectivo não é de todo educar, porque nem há pessoas para educar outras, é somente criar o espaço onde o debate é mais do que aceitável.” “Acho que a AlternAtiva tem um papel muito importante na faculdade, nem que seja para juntar pessoas que têm um pensamento parecido.”

Objectivos para o futuro

Um dos aspectos que pretendem melhorar é a adesão de mais alunos do 1º ano. Apesar desta ter sido relativamente baixa, não desmotivam: “seja uma pessoa, não interessa. Pelo menos é uma pessoa que teve uma oportunidade de fazer uma coisa diferente quando entrou para a faculdade”. “Mesmo que não tenha um impacto dirceto nas pessoas de 1º ano, tem um impacto directo nas pessoas dos outros anos.”

Por um lado, sabem que é fundamental chegar a mais pessoas no contexto universitário, mas também de apostarem nos alunos do 12º ano, “que vão para a faculdade e que sabem perfeitamente o que é a praxe, mas não sabem que existe outras formas”. Para isso, pretendem arranjar ferramentas que melhorem a comunicação direccionada para as escolas. “O nosso objectivo é que a integração dos alunos não seja o monopólio da praxe. Gostávamos que a longo prazo essa mentalidade fosse algo natural: não há só a praxe, há outras coisas. Há outras coisas que eu posso fazer.”

Por que não experimentares as actividades da AlternAtiva ou iniciares este movimento na tua faculdade? O convite está lançado! “A AlternAtiva vive de pessoas que queiram alimentá-la” e tu podes vir a ser uma delas.

Texto de Mariana Carvalho