The Killing of a Sacred Deer: a catarse de uma tragédia grega em inglês

A nova obra de Yorgos Lanthimos não é um filme para prémios porque não é um filme para consensos, nem para certezas.

 
O Shifter precisa de dinheiro para sobreviver.
Se achas importante o que fazemos, contribui aqui.

Yorgos Lanthimos não é para todos, mas para quem é é um caso sério e sempre a considerar. Assinou em 2009 Dogtooth, um filme rodado em língua grega e que, apesar de assentar em algumas referências como o Castelo da Pureza (1973), lhe valeu a atenção da crítica e os elogios ao seu espírito criativo. Em 2011, com Alps, voltou a merecer elogios no mesmo comprimento de onda e assegurou o estatuto de iconoclasta. Produzindo cinema numa língua e mercado marginal, Yorgos tinha todos os ingredientes para ser um dos realizadores alternativos – chamemos-lhe assim -–com uma maior margem de progressão em potência.

Rodagens de baixo custo, uma língua estranha e actores locais não beliscavam em nada a qualidade dos seus trabalhos, que, embora formalmente se distanciassem altamente do cânone clássico, lembravam pela força das emoções as dramáticas tragédias gregas. Lobster, em 2015, foi a sua tentativa de afirmação para o tal mercado global, onde a progressão o simplesmente pode levar; e, apesar de tudo, não desiludiu nem novos públicos, nem quem tinha a expectativa especialmente elevada pelos trabalhos anteriores.

The Killing of a Sacred Deer (Como Matar um Cervo Sagrado) é o segundo trabalho do realizador grego em língua inglesa e desde logo um prometido aperfeiçoar deste cruzamento. É que, apesar da unanimidade em torno de Lobster (basta consultar as classificações online) ter conquistado uma nova audiência para o realizador, parte da sua energia mais criativa ainda parece por entregar – a saudável estranheza de Dogtooth e Alps ainda não chegou na totalidade à língua inglesa.

Em The Killing of a Sacred Deer, Lanthimos repete Colin Farrell no papel principal, como Steven, e aprimora nos seus acompanhantes; Nicole Kidman é a Anna, mulher de Steven e mãe de Bob e Kim, Sunny Suljic e Raffey Cassidy, respectivamente. É na intersecção desta família com Martin – Barry Keoghan – que a trama se desenrola, suportada em cinco belíssimas interpretações, embora todas elas num registo peculiar e não muito extravagante – algo característico no cinema de Lanthimos e que se pode estranhar ao princípio.

É que Yorgos Lanthimos, no seu cinema, parece esconder as emoções fáceis para que consigamos ver as difíceis; já o tinha feito anteriormente e aqui até inova na forma como o faz. É o seu filme mais ousado do ponto de vista da cinematografia – tanto nos oferece planos apertados e de expressões evidentes como visões evasivas da acções ou pormenores aparentemente desinteressantes – a título de exemplo, dizer que há um diálogo acompanhada com um plano de pés.

A banda sonora é outro elemento fulcral nesta obra. Com uma escolha centrada numa sonoridade clássica e em peças tocadas essencialmente por cordas que, estridentes, vão ao longo do filme agudizando as emoções.

The Killing of a Sacred Deer não é um filme para prémios porque não é um filme para consensos, nem para certezas. É propositadamente estranho mas não será por isso profundamente humano? Por trás das camadas de surrealismo que passem ao explicarmos a acção do filme, reduzindo-a a simples conceitos alcançáveis, Lanthimos parece ter escondido muito mais – levando-nos em grande parte do filme a questionar as acções na ausência da câmara ou que terão ficado por escrever.

Um círculo fechado de humanos em permanentes choques emocionais: as emoções à flor da pele e as dores profundas no âmago de cada um; as diferenças entre o que dizemos e o que sentimos e deixamos por dizer; a fraqueza da aparente força, a força da aparente fraqueza. São estes os extremos em toque que proporcionam duas horas sinistras e de profundo questionamento. Dúvidas do tipo “como pode alguém agir assim?” ou “o que motiva tudo isto?” que vão surgindo durante o visionamento, são a pista para a dimensão de questionamento humano que Lanthimos procura.

O argumento conta ainda com a colaboração de Efthymis Filippou, parceiro habitual de trabalho de Yorgos Lanthimos, e de Athina Rachel, a tríade mais promissora do cinema grego e que nos tem oferecido maravilhas cinematográficas como esta, Chevalier (Athina + Fillipou), Attenberg (Athina + Yorgos) ou Alps (Yorgos + Athina + Filippou).

À saída de The Killing of a Sacred Deer já se espera novo trabalho de Lanthimos. The Favourite já está em pós-produção e deve ser a obra que se segue – um argumento original de Deborah Williams e Tony McNamara, passado no século XVIII, que será protagonizado por Emma Stone.

O Shifter precisa de cerca de 1600 euros em contribuições mensais recorrentes para assegurar o salário aos seus 2 editores. O teu apoio é fundamental!