Turcos voltam a atacar Curdos em terra Síria

10 mortos, 25 feridos e um rude golpe no equílibrio diplomático sensível na região da Síria.

Curdos
Flickr/Roger Blackwell
 
O Shifter precisa de dinheiro para sobreviver.
Se achas importante o que fazemos, contribui aqui.

A relação das instituições turcas com o povo Curdo é por si só um caso de estudo. Com origem e proveniência da mesma parte do globo — actual Turquia, antigo Império Otomano — curdos e turcos são os protagonistas de um dos conflitos mais activos e repressivos do panorama mundial.

Com a transição do Império Otomano para o Estado Turco, o povo curdo foi burocraticamente ilegalizado e desde então tem visto a sua existência altamente reprimida, quer em solo turco, quer nas regiões circundantes por onde se espalha, como é o caso do Norte do Iraque ou da própria Síria.

Considerados pela constituição turca como terroristas, proibidos de utilizar a sua língua nativa no país onde muitos nasceram, os curdos — que se dividem em muitas e diversas fações — têm nos outros países referidos organizado a sua vida e re-organizado as suas comunidades, sempre sob o olhar atento do ocidente e o braço potencialmente repressivo dos turcos.

Foi esse braço que voltou a atacar este sábado provocando 9 mortos e mais de 25 feridos entre civis, segundo reporta Birusk Hasakeh, porta-voz das Unidades de Proteção do Povo (YPG) em Afrine, citado pela imprensa internacional.

Numa operação denominada “Ramo de Oliveira”, o governo de Erdogan ordenou um ataque área a uma das zonas com maior concentração de curdos, no Norte da Síria, alegando apontar apenas aos combatentes da YPG (tropa curda) que os turcos classificam como terroristas.

Em declarações à imprensa local, o ministro da defesa turco é peremptório e não dá qualquer sinal de querer abrandar.  “Todas as redes e todos os individuos terroristas no norte da Síria serão eliminados. Não há outra forma” disse esta sexta feira Nurettin Canikli.

Curdos votam pela independência contra tudo e todos

O ataque de Ancara a Afrine vitima directamente os curdos mas pode gerar danos colaterais. Apesar de nem Washington nem Moscovo reconhecerem por completo os direitos do povo curdo, nos últimos anos têm apoiado alguma das suas iniciativas, nomeadamente no combate ao Daesh, e já condenaram a ofensiva turca.

Com o conflito na Síria ainda em processo de resolução, qualquer movimento pode colocar em xeque um complexo quadrado diplomático. Sírios alinham com Russos e Turcos, Estados Unidos alinham com Curdos numa sensível coordenação no combate ao Daesh. O ataque turco ao território Sírio foi imediatamente condenado por Damasco que revelou planos para abater qualquer avião turco que entre no espaço aéreo.  Moscovo pediu contenção a Erdogan mas a questão com Washington pode ser ainda mais preocupante atendendo à cooperação estreita entre tropas norte-americanas e curdas na frente de combate ao Daesh.

É aliás nesse sentido que surgem as declarações oficiais enderaçadas pelos Estados Unidos da América que pedem à turquia para que se volte a concentrar na luta contra o grupo terrorista reconhecido por todos, o auto-denominado Estado Islâmico do Iraque e Levante.

“Incentivamo todas as partes a evitar a escalada do conflito e a focar-se no ISIS” disse um representante do pentágono.

Turcos justificam o ataque, no seu último argumento, com a preocupação pela proximidade dos curdos da sua fronteira — uma posição que apenas o Reino Unido parece compreender.

O Shifter precisa de cerca de 1600 euros em contribuições mensais recorrentes para assegurar o salário aos seus 2 editores. O teu apoio é fundamental!