Lutar por um pacote de margarina ilustra crise na Venezuela

Aconteceu na Venezuela, numa altura em que os saques e assaltos a camiões de distribuição de alimentos se multiplicaram nas últimas semanas, fruto da inflação galopante que afecta a economia do país.

Venezuela margarina
 
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Vídeos de episódios de violência e tumultos nos supermercado venezuelano têm corrido as redes sociais há dois dias. Na quarta-feira, um engano que acabou por fixar o preço da margarina muito abaixo do normal, gerou confrontos que levaram as autoridades a deter três pessoas, acusadas de roubar.

O erro deveu-se a uma falha do sistema informático. Em vez de 120 mil bolívares, ou seja, quase 30 euros à taxa de câmbio oficial, valor que os venezuelanos estão “habituados” a não conseguir pagar, o erro informático colocou o pacote de margarina à venda por 12 mil bolívares, pouco menos de 3 euros – 2,93 euros.

Segundo o portal Notícias de Venezuela, quando os administradores “tentaram reparar o erro, as pessoas exigiram que fosse respeitado o preço marcado”, episódio que deu origem a tumultos que forçaram os trabalhadores a oferecem a margarina, “para evitar um saqueio”. 

Proprietários de outras lojas do Centro Comercial Plaza Las Américas, onde está a sucursal afectada, denunciaram aos jornalistas que além da margarina, as dezenas de pessoas que se encontravam no supermercado aproveitaram a situação para roubar bebidas alcoólicas, sabão em pó e doces.

Entretanto, através do Twitter, o presidente da Câmara Muncipial de Baruta, Darwin González, anunciou que “foram detidas três pessoas, que teriam roubado comida no Central Madeirense”.

O problema informático aconteceu numa altura em que há cada vez mais denúncias de tentativas de saques em estabelecimentos comerciais de diverso tipo, principalmente fora da capital venezuelana.

Além dos estabelecimentos comerciais, os camiões que transportam mercadorias são também alvos frequentes de tentativas de pilhagem.

O Governo venezuelano ordenou na terça-feira ao setor agro-industrial do país que diminua o preço de venda de 6.500 produtos e regresse aos valores de início de dezembro de 2017. A ordem foi proferida pelo vice-Presidente da Venezuela, Tareck El Aissami que alegou que os preços subiram de “maneira injustificada” desde meados de Dezembro do ano passado, entre 10% e 10.000% e particularmente depois de o Presidente Nicolás Maduro ter anunciado um aumento de 40% do salário mínimo dos venezuelanos que entrou em vigor no passado dia 1 de Janeiro.

A 5 de janeiro, a Superintentência de Defesa dos Direitos Económicos obrigou 214 sucursais de 26 redes de supermercados a baixar os preços dos produtos para valores inferiores aos comercializados no princípio de Dezembro. A decisão afetou, entre outras, as redes de supermercados Central Madeirense, Unicasa, Plazas, Excelsior Gama, Luvebras, propriedade de portugueses radicados na Venezuela, que consideraram “a medida injusta”.

Segundo o superintendente William Contreras, as autoridades “comprovaram que grandes cadeias estavam a remarcar (marcar em alta) os preços, sem justificação” por “se tratar de produtos que tinham em inventário”.

“Já não podemos considerar estes atos como de simples especulação, são atos criminosos contra o povo. Não há razão para que estejam fazendo estes alterações de preços e por isso estamos aplicando corretivos”, disse aos jornalistas.

A juntar à crise económica, está a crise política agravada pelas circunstâncias da morte do ex-polícia Óscar Perez e de mais seis militantes anti-governamentais, cujos corpos são agora reclamados pelas famílias. Um episódio de contornos pouco claros que contribui para o crescente isolamento internacional do regime Maduro.

Esta quinta-feria, a União Europeia anunciou novas sanções em resposta à repressão governamental dos opositores. As medidas colocam numa lista negra sete figuras de topo do regime entre os quais o número dois do Governo e o Ministro do Interior.

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