Vhils não vai avançar com intervenção em edifício de Agostinho Ricca no Porto

Decisão surge depois de arquitectos como Siza Vieira e Eduardo Souto de Moura pronunciaram-se contra a intervenção por entenderam que punha em causa a preservação do património arquitectónico do Porto.

Imagem do projecto Boavista Office Center (http://www.predibisa.com/)

“A salvaguarda do património arquitectónico e artístico de uma cidade é um acto nobre que nos cabe a todos estabelecer.” É desta forma que Alexandre Farto aka Vhils responde à discussão que surgiu depois de se estar a estudar uma intervenção para um edifício da autoria do arquitecto Agostinho Ricca, da década de 1960, situado na zona do Foco, no Porto.

Numa carta aberta publicada no Facebook e enviada às redacções, o artista conta que desistiu de avançar com a obra e explica porquê. Gostaria de partilhar a minha decisão de não avançar com uma intervenção no exterior do edifício, até porque, de certa forma, a própria discussão, embora prematura e algo mal-informada, teve o efeito de ocasionar este mesmo diálogo sobre o espaço da cidade, que tanto prezo”. 

Venho, por este meio, prestar o meu esclarecimento face às questões levantadas na semana passada, na comunicação social,…

Publicado por Vhils em Terça-feira, 23 de Janeiro de 2018

Na semana passada, o Público noticiou que as obras de reabilitação de um edifício de escritórios, desenhado pelo arquitecto Agostinho Ricca (1915-2010), em co-autoria com João Serôdio e Magalhães Carneiro, iriam ter uma intervenção de Vhils.

Vários arquitectos, entre os quais Siza Vieira e Eduardo Souto de Moura, pronunciaram-se contra a intervenção, dizendo que poderia pôr em causa a preservação do património arquitectónico do Porto.

Depois da notícia do Público, surgiu ainda uma petição online para a classificação patrimonial do Parque Residencial da Boavista, onde se situa o edifício em questão, que reúne até agora mais reunia cerca de 1.700 subscrições, e o parecer positivo também da Ordem dos Arquitectos.

No depoimento, Alexandre Farto diz que tem “um enorme respeito e admiração pela obra e pelo trabalho do arquitecto Agostinho Ricca”, um dos motivos que o levou a aceitar “de bom grado” o convite que lhe foi feito “para pensar numa intervenção artística para uma parte do edifício, que não comprometesse a integridade do mesmo”. Refere que subscreve “integralmente as manifestações e o trabalho realizado no sentido de preservar todo o património do arquitecto Agostinho Ricca, assim como de outros que marcaram o percurso da arquitectura portuguesa”, partilhando “todas as preocupações expressadas em público por parte dos arquitectos Álvaro Siza Viera e Eduardo Souto de Moura, entre muitos outros”, cujo trabalho e obra “tanto” admira.

Justifica que no âmbito do convite que lhe foi feito, foram desenvolvidos alguns estudos visuais que não eram definitivos, nem representam “muito menos o resultado final da intervenção”.

Apesar de ter decidido não avançar com a obra, o artista aproveita para anunciar que está “aberto a qualquer convite que seja para realizar um trabalho que faça sentido para a área/zona em questão, e que contribua positivamente para a comunidade local”.

“A salvaguarda do património arquitectónico e artístico de uma cidade, que tanto contribuem para a construção da sua identidade – um tema que tem sido transversal à minha obra -, é um ato nobre que nos cabe a todos estabelecer, numa linha de diálogo construtivo e abrangente”, defendeu.

Para Alexandre Farto, “a arte urbana pode e deve assumir um papel importante no sentido de contribuir para chamar a atenção e a trabalhar zonas negligenciadas da cidade”. “Facto que pudemos constatar neste caso específico, mesmo que involuntariamente, e ainda que a intervenção em causa não tivesse, sequer, chegado à fase de desenvolvimento”, referiu.