O que é que se passa com o YouTube português? Explicamos-te a polémica

Em Portugal, o fenómeno do YouTube está cada vez mais imponente com o aumento da adesão por parte da sociedade e aumento da importância socioeconómica dos conteúdos. O público-alvo? Adolescentes e crianças. O problema? Um "generation gap" entre os filhos que consomem esses conteúdos e seus os pais, como Nuno Markl, Ana Galvão e Joana Marques.

Já começa a ser comum o YouTube estar relacionado com problemas e polémicas. Depois das polémicas de conteúdo e publicidade, o tema agora é relacionado com o caso do criador Logan Paul. Mas em Portugal a história é outra: o surgimento e a influência dos youtubers portugueses nas camadas mais jovens da sociedade.

Em Portugal, o fenómeno do YouTube está cada vez mais imponente com o aumento da adesão e aumento da importância socioeconómica dos conteúdos. O público-alvo? Adolescentes e crianças. As preocupações tornam-se diferentes e intensas tendo em conta os efeitos de uma produção guiada por indicadores de sucesso.

“Somando sinergicamente uma pulsão imparável de produzir e veicular conteúdos de uns, com a vontade de os consumir sem restrições de outros e ainda uma tecnologia cada vez mais “amiga” do formato “vídeo” (permitindo que ele avance sem pausas) resultou um fenómeno de broadcasting de dimensão descomunal”, explicou em 2016 o Director de Marketing da Sumol+Compal, João Nuno Pinto, num artigo de opinião no Observador.

Miguel Raposo, agente de vários youtubers (nomeadamente os da famosa “Casa dos YouTubers”), participou recentemente numa reportagem do Público que também explica o fenómeno. “Inicialmente, os youtubers estavam muito ligados aos videojogos, hoje em dia são entertainers. Falam de tudo. Além dos temas e brincadeiras, eles partilham muito da vida pessoal e isso aproxima o público”, explica o agente.

Na mesma reportagem, alguns youtubers explicam que sentem responsabilidade e que têm em consideração o seu estatuto de influenciadores na produção de conteúdos, como é o caso de Sea3PO e de Nurb. Há ainda o caso de Beatriz e Hugo Rechena, pais de um youtuber de 10 anos, que publica vídeos sempre depois do aval dos pais e sem ultrapassar a linha “da falta de educação”. O jornal cita ainda o porta-voz português do YouTube: “O YouTube é um espaço para utilizadores com 13 ou mais anos”.

A carta do pai Nuno Markl

No entanto, nem sempre este limite de idade é cumprido e, mesmo que seja, há quem se preocupe com o tipo de conteúdos expostos e o seu impacto. Uma das primeiras vozes públicas sobre o assunto foi Nuno Markl, numa “carta de um pai a YouTubers, tentando não ser maçador”, publicada no Facebook, no final do Verão passado.

Publicado por Nuno Markl em Quinta-feira, 31 de Agosto de 2017

O humorista começa por galantear a nova ferramenta que é o YouTube de forma comparativa numa retrospectiva do seu percurso pessoal. “O YouTube é uma montra espectacular de talento e potencial. E, mais do que isso, uma rampa para sucesso rápido. E poder”, alerta. Markl explica que também se diverte com alguns vídeos, mas queixa-se dos “gritos” e do “barulho”.

“O que me preocupa mais é quando esses gritos – como aconteceu ontem – são acompanhados de exclamações tais como “filho da puta! Caralho!”. Longe de mim ser um moralista de merda – afinal de contas sou co-criador de uma coisa que também está no YouTube chamada Uma Nêspera no Cu. Mas a Nêspera é um programa para adultos”, acrescenta o pai de Pedro, que com oito anos é fã do YouTube, que também critica a falta de avisos para a irrealidade de alguns factos (como “por exemplo, que a Maria Sangrenta faz malandrices na escuridão da casa de banho às 3 da madrugada”).

No entanto, a carta também apresenta soluções: “Adoraria que, neste Verão, em vez de exibirem só a vossa piscina, vocês tivessem explicado – da maneira divertida como conseguem fazê-lo – a importância de ajudar os bombeiros. É um exemplo”. Sobre o filho, Markl explicou que não quer proibir o filho de ver YouTubers, por ser a favor da liberdade. “Só que, pelo meu filho e por outros, tantos outros que vos seguem, adorava que fossem mais longe do que os gritos, os gadgets e a publicidade, e pensassem no filhadamãe de poder que têm nas mãos para contribuir para um futuro francamente menos merdoso que o presente que temos no mundo”, finaliza, agradecendo.

A publicação da mãe Ana Galvão

Ana Galvão, mãe da mesma criança (Pedro, de oito anos), também se pronunciou sobre o tema, no passado dia 8, começando com a apresentação de um paradoxo: “Por um lado, está a travar-se uma luta, nunca antes vista, contra qualquer tipo de acto ou manifestação de desigualdade (o que acho fundamental para uma civilização mais decente e justa) num combate totalmente minucioso. Mas, por outro lado temos, sem ninguém dar por isso, uma legião de jovens youtubers que estão a ensinar barbaridades aos nossos filhos”.

“É que há, de facto, um grupo de youtubers, que gravam vídeos sem parar, que têm fãs aos molhos, e que, todos os dias, apresentam ao mundo conteúdo falado em mau português, cheio de palavrões, obscenidades, apelo a insultar os pais, e ainda, desafios para as crianças serem rebeldes na escola, critica a radialista.

Vivemos um momento curioso. Por um lado está a travar-se uma luta, nunca antes vista, contra qualquer tipo de acto ou…

Publicado por Ana Galvão em Segunda-feira, 8 de Janeiro de 2018

Galvão mostra-se preocupada com a maneira como a pressão social pode ser determinante nas crianças. “Há alturas em que os amigos de escola são mais dominantes que os pais (ou, senão é assim, cria-se, no “planeta criança” dois mundos paralelos, o de casa e o da escola)”, explica. Para a mãe de Pedro, a situação é “gravíssima”, quer pela abrangência dos youtubers, quer “porque a sociedade não se manifesta, parecendo que, ou há pais que não se importam, ou há pais que não fazem ideia do que os filhos andam a consumir”.

A publicação termina de novo com o paradoxo inicial, perante a incompreensão da atitude da sociedade: “Numa altura onde tudo é tão minuciosamente examinado, onde somos tão picuinhas com os conteúdos para que não contenham nenhum tipo de linguagem ou teor ofensivo para ninguém, onde cai o carmo e a trindade por coisas, por vezes, tão minúsculas, e onde somos tão, mas tão preocupados em que a sociedade seja justa e respeitosa e, no entanto, há uma pandilha de tipos (chamados de influenciadores) que dizem as maiores das barbaridades, de fazer ruborizar o mais bravo dos adultos, e ninguém parece importar-se. Não entendo, afirma Ana Galvão.

Dois dias depois da publicação, Ana Galvão volta a falar do assunto, num desabafo: “A vida encarrega-se de ilustrar as coisas de uma maneira muito prática e simples: sou mãe, critiquei uns vídeos de uns jovens youtubers por incitar que se insultem mães, e agora tenho jovens fãs do youtuber a insultar-me em massa. Maravilhoso. É bonito de se ver!”

A vida encarrega-se de ilustrar as coisas de uma maneira muito prática e simples: sou mãe, critiquei uns vídeos de uns…

Publicado por Ana Galvão em Quarta-feira, 10 de Janeiro de 2018

A resposta do youtuber Tiagovski

A publicação gerou alguma polémica e o youtuber Tiagovski decidiu responder e analisar a publicação em causa, considerando-a “um ataque aos YouTubers”. O youtuber considera não haver “interesse dos pais do nosso público em dar por isso [pela crescente importância do fenómeno]”. Aliás, uma grande parte das críticas lançadas por Tiagovski é sustentada pelo facto de haver um desconhecimento do “mundo” que é o YouTube.

Sobre a responsabilidade dos criadores e respondendo a uma parte do post de Ana Galvão, Tiagovski afirma que eles não têm de “dar aulas de português”, embora admita que possam existir “falhas ou gafes”. Além disso, o youtuber garante que “desde há três meses que tentamos não dizer palavrões para fazer um conteúdo family friendly, um conteúdo positivo”. No entanto, afirma que “o essencial é eles [os filhos] serem educados, mas nós [os youtubers] não lhes vamos dar essa educação”. Sobre o desrespeito perante os pais, a postura é semelhante: “Não venha dizer que a culpa é dos youtubers, a culpa é dos pais”.

Todavia, a sugestão de Tiagovski vai ao encontro à postura de Markl e Galvão: “É preferível não proibir e acompanhar.” O youtuber sugere que os filhos ouçam os vídeos com colunas para os pais intervirem, caso ouçam “alguma coisa inapropriada”. “É simples”, conclui o criador.

O vídeo completo pode ser consultado em cima, com um tom assumidamente “agressivo”, uma vez que o público-alvo é os pais das crianças portuguesas.

A “resposta” de Joana Marques

Joana Marques, humorista no programa Extremamente Desagradável, da Antena 3, também acabou por mencionar o tema no dia 12. O programa foi feito a partir de uma análise humorística do vídeo de Tiagovski. Sobre o desconhecimento mostrado logo no início do vídeo pela profissão e percurso de Nuno Markl e Ana Galvão, a humorista ironiza: “Nuno Markl, que trabalha na rádio ou uma coisa assim? Que loser! Quando tiver um canal no YouTube em que snife canela, logo conversamos.”

O episódio mantém um registo semelhante ao longo de toda a emissão, fazendo referência a histórias com Ana Galvão (que passou pela Antena 3, antes de ir para a Rádio Renascença), partindo sempre de trechos do vídeo de Tiagovski.

Embora humorístico, o vídeo, que foi publicado no YouTube e na RTP Play, não obteve boas reacções. Conta com 95% de dislikes no YouTube e vários comentários indignados, que, entretanto, foram bloqueados pela Antena 3. No Twitter, há também comentários agressivos e ofensivos.

No entanto, há outras perspectivas nas redes sociais. Mr. Remedy, um youtuber dedicado aos videojogos sobretudo, criticou as reações ao programa de Joana Marques, defendendo a humorista: “Eles estão apenas a fazer uma rubrica de humor porque em Portugal, assim como em qualquer outro país civilizado, a liberdade de expressão o permite. Os youtubers também gozam com tudo e todos, por isso qual é o problema em ver o reverso da moeda de vez em quando?”

Tiagovski chegou a fazer outro vídeo como resposta à “resposta” de Joana Marques, em que faz menção ainda a outro episódio de Extremamente Desagradável de Novembro passado, intitlado “Os 10 Mandamentos dos Youtubers”, mas a conclusão foi a de parar de comentar, apesar do encorajamento dos fãs:

A explicação de Nuno Markl

Nuno Markl, que sempre esteve envolvido no assunto, acabou por abordar a questão sobre a suposta “guerra” que Galvão e Markl teriam com um youtuber. “A verdade é que não abrimos guerra nenhuma contra ninguém. Talvez tenha aberto uma guerra contra mim próprio enquanto pai”, explica.

É fácil apontar o dedo a um youtuber que tem plena consciência de que é visto por muitos miúdos pequenos e que, ainda assim, os incentiva a mandar as mães para sítios. Mas a verdade é que esse youtuber é, ele próprio, vistas as coisas, um miúdo não muito mais crescido que os seus espectadores. Como mais uns quantos, tornou-se – graças à mão generosa e, ao mesmo tempo, gananciosa de instituições e empresas dirigidas, essas sim, por adultos – num influenciador sem estar exactamente preparado para influenciar. Mas quem é o que pode culpar? Ele está só a ser puto. Não há nada de errado nisso, continua Markl.

Anda para aí uma notícia a dizer que eu e a Ana Galvão abrimos guerra contra um youtuber por ele, de repente, ter dito,…

Publicado por Nuno Markl em Sábado, 13 de Janeiro de 2018

O humorista admite a existência de um generation gap e ainda explica as diferenças entre os conteúdos dos youtubers e conteúdos como Uma Nêspera no Cu (podcast com a participação de Markl). “Nada de mal desejo eu ao Wuant ou a qualquer um dos youtubers favoritos dos miúdos. Adorava que eles gritassem menos e subissem um bocadinho o nível do conteúdo dos seus vídeos? Adorava, mas quem sou eu para dar lições sobre isso? Resta-me só alertar-me a mim próprio e a pais como eu: acompanhemos os nossos miúdos”, aconselha o pai de Pedro.

O humorista voltou publicar mais uma nota pública no Facebook, no domingo sobre o conflito. O texto começa com uma nota: “Isto inclui trechos de texto com linguagem a modos que puxada. Bastante puxada, vá. E sim, foi dita por miúdos, alguns pequenos e imberbes.”

Publicado por Nuno Markl em Domingo, 14 de Janeiro de 2018

O humorista explica por alíneas os mal-entendidos das participações anteriores, quer do próprio, quer de Ana Galvão, quer de Joana Marques. Markl explica que há “alguns youtubers que não perceberam: a) Que não estávamos a falar de TODOS os youtubers, mas só de ALGUNS; b) Que não queremos mal a esses youtubers, apenas que os pais acompanhem e se interessem mais por aquilo que os filhos vêem no YouTube; c) Que não faz muito bem aos miúdos ouvir influenciadores a influenciá-los a mandar as mães para o crlho. Se calhar há mães que não se importam e nós é que somos uns botas de elástico. Mas eu acho sempre que mandar para o crlho alguém que passou pela seca de nos carregar 9 meses no ventre, que aguentou as nossas birras nocturnas, nos limpou o rabo repleto de trampa e tem a trabalheira e a despesa de nos criar, merece algo melhor”.

A explicação é directa e mostra que alguns dos argumentos trocados deixam de fazer sentido uma vez compreendidos os objectivos das notas e das publicações. Aliás, a alínea b) está de acordo com o discurso de Tiagovski no vídeo de resposta a Ana Galvão.

Contudo, a publicação não se esgota na explicação e exemplifica a alínea c) com mensagens (“insultos e ameaças”) recebidas por Ana Galvão e por Joana Marques, enviadas por “jovens fãs desses youtubers”. Todos os exemplos são acompanhados de uma descrição crítica e cómica. Nos comentários, o humorista mostra-se surpreendido: “Não fazia ideia que chegava a este ponto, de aconselhar seguros de saúde e marcar porrada com senhoras.”

Joana Marques também voltou a abordar o assunto, partilhando o último texto de Markl, tal como Ana Galvão. “O fim‑de‑semana foi muito isto. É a derradeira prova de que os pais não sabem mesmo o que os filhos fazem online. Acredito que a linguagem de carroceiro e o teor das mensagens faria corar de vergonha a maioria das mães. Agora a vida segue, amanhã é segunda-feira e há trabalho para fazer (ou aula de físico-química, dependendo do caso). Se continuarem a portar-se mal chamamos a Supernanny”, escreveu Joana.

Estas são algumas das que recebi (a Joana Marques também tem algumas pérolas). Curiosamente quase todas após horário escolar.

Publicado por Ana Galvão em Domingo, 14 de Janeiro de 2018

O fim‑de‑semana foi muito isto. É a derradeira prova de que os pais não sabem mesmo o que os filhos fazem online….

Publicado por Joana Marques em Domingo, 14 de Janeiro de 2018

Principal conclusão: acompanhar

Entre toda a polémica, Rui Maria Pêgo, publicou um artigo de opinião no Observador com uma visão mais ponderada, embora diferente. “Muitos youtubers portugueses têm sido acusados nos últimos dias de poluir as mentes dos seus espectadores – na sua maioria adolescentes – com conteúdo vazio, irresponsável e convidativo à violência. Argumento que tem fundamento se fizermos uma pesquisa rápida, embora seja difícil imputar a adolescentes que fazem vídeos para adolescentes a consciência de um protagonista da rádio ou da televisão com 20 anos de carreira, explica o radialista.

Aliás, o também actor chega a fazer uma comparação mais directa entre a política de produção usada no YouTube e usada nos meios de comunicação mais tradicionais: “Se um vídeo com um laser a rebentar balões tem views, no vídeo seguinte é provável que se use o laser na têmpora de uma estátua para ver o que acontece. Like, Like. View, View. O que pode, em teoria, ser inofensivo. Daí a publicarmos, como no caso do youtuber norte-americano Logan Paul, um vídeo de um homem enforcado na floresta dos suicidas no Japão, vai uma longa viagem. Não que por Portugal tenhamos visto cadáveres em telejornais, certo?, referindo-se à cobertura dos incêndios do Verão de 2017.

Foto via Unsplash

As principais conclusões? Acompanhar, acompanhar, acompanhar. Quer de um lado, quer do outro, há conselhos sobre a necessidade de acompanhar os filhos e conversar com eles sobre os assuntos, sem proibir o acesso. Márcio Nogueira, redator do blogue O Melhor Pai do Mundo, também aconselha neste sentido: “Esta realidade obriga os Pais a terem alguns cuidados. Deixar que as crianças possam gerir livremente a sua navegação pelo YouTube é um perigo. É quase como deixá-los sozinhos num espaço que não conhecemos bem. Convém observar e passar algumas recomendações.”

Apesar de admitir proibir certos conteúdos de violência, O Melhor Pai do Mundo conclui que “cabe ao pais vigiar, entrar nesse mundo, tentar perceber o que é o caminho mais adequado e explicar que violência (em qualquer das suas formas) não é algo com piada, é de mau gosto”.

A importância do YouTube e dos digital influencers é inegável com o apoio de marcas e a integração em campanhas de marketing e publicidade em Portugal, tal como acontece no estrangeiro. Contudo, no estrangeiro, há cada vez um cuidado maior na escolha de conteúdos associados aos anúncios e na preocupação das marcas em não se associarem a determinados conteúdos. Em Portugal, a preocupação está no facto das principais audiências serem crianças e jovens.