Lápides andantes numa cidade com o terror à espreita

Afegãos andam com uma nota pessoal no bolso, para o caso de serem mortos num atentado.

atentado terrorista
Este artigo é gratuito como todos os artigos no Shifter.
Se consideras apoiar o nosso trabalho, contribui aqui.

Fez ontem uma semana que Cabul, a capital do Afeganistão, sofreu o maior ataque terrorista desde maio de 2017.  Um bombista suicida detonou uma ambulância cheia de explosivos — perto dos ministérios do interior, educação, escritórios do governo e hospital — na cidade que alberga cerca de 5 milhões de pessoas. O número de mortos foi superior a uma centena e 235 ficaram feridos.

Alguns cidadãos, em desespero, adoptaram uma medida de precaução para o caso de serem apanhados desprevenidos num destes cenários — andar com uma nota pessoal no bolso.

Dastyar mantém este pedaço de papel no bolso que possui informações pessoais importantes [Al Jazeera]
Mujeebullah Dastyar tem um papel na carteira com o número de telefone dos contactos de emergência, o tipo de sangue e o endereço do trabalho. “Se me magoar ou mesmo morrer durante um ataque, pelo menos os médicos terão toda a informação sobre mim”, refere em declarações ao Al Jazeera.

A pertinência de manter a informação actualizada e permanentemente próxima revela-se uma mais valia em todos os aspectos — uma vez que ajuda a identificar os corpos e a processar os pedidos de ajuda.

Muitas pessoas, após o ataque de sábado, estavam desaparecidas e os seus familiares continuavam à procura delas. Um dos meus amigos também estava desaparecido e tivemos que utilizar as redes sociais para saber em qual hospital ele estava, ou se ele estava vivo ou morto”.

Fazila Shahedi, estudante de Ciência Política, de 20 anos, confessa o medo que sente sempre que ouve o som dos bombeiros. Também ela carrega consigo dois pedaços de papel com informações importantes — um no bolso do casaco, outro na mala pessoal— para o caso de um se perder ou ser destruído, o outro servir como substituto.

“Quando eu saio do meu quarto pergunto-me, vou voltar ou não? Sou muito jovem e não quero morrer. Ninguém saberá se morro amanhã num ataque suicida, pelo menos a nota ajudará a chegar à minha família e amigos“, explica Fazila.

Ainda na mesma reportagem da Al Jazeera, um cidadão afegão, de 25 anos, residente em Cabul, (em anonimato) confessou a importância da escrita e das anotações, mas num outro aspecto — o jovem anda com um diário de notas consigo — “quando me sinto fraco, escrevo sobre isso no meu diário”

“Olhando para a situação actual em Cabul, não sei se vou viver. Eu não consegui dormir a noite inteira, então pensei que vou escrever uma nota na primeira página do meu diário, solicitando quem a obtenha primeiro depois de eu morrer, para não ler o que está escrito nele.”

Ameaça à segurança

Jawid Kohistani, ex-oficial de inteligência e militar, conta à Al Jazeera que “o problema está no nosso sistema de segurança. Existe sempre alguém infiltrado que ajuda os terroristas a planear tais ataques.”, numa tentativa de explicar o que possibilita que tantos e tão fatais ataques assolem aquela cidade

Kohistani refere ainda que cada ataque é diferente do seguinte. Desta vez utilizaram uma ambulância e ninguém estava à espera disso.” O ex-oficial lamenta que tal ameaça esteja além das suas capacidades e que se repercuta por todo o país.

“Os polícias são mortos quase todos os dias, eles recebem pouco e quase nenhuma segurança é fornecida às suas famílias”, diz Kohistani. “Eles não estão equipados de forma alguma para combater os ataques crescentes nem o aumento do terrorismo, neste momento”.

Os ataques continuam assim a vir de todas as frentes e o governo do presidente Ashraf Ghani enfrenta uma pressão cada vez maior para melhorar a segurança — no dia 21 de janeiro, um ataque causado pelo Daesh no hotel InterContinental fortemente protegido em Cabul fez mais de 20 mortos; a 24 de janeiro, o grupo talibã matou pelo menos três pessoas no escritório de Save the Children , na cidade de Jalalabad, no leste do Afeganistão.

“Quando lugares como o InterContinental Hotel e as áreas diplomáticas podem ser atacados, isso torna-nos muito vulneráveis, mesmo nas nossas casas”, lamenta Dastyar. “Não há segurança adequada, obviamente, o que torna muito fácil para os talibãs ou o Daesh realizarem ataques”.

Segundo relatos dos meios de comunicação social, cerca de mil afegãos foram mortos apenas em janeiro de 2018.

Investimos diariamente em artigos como este.
Precisamos do teu investimento para poder continuar.