Devias ver Call Me By Your Name ou, no mínimo, o discurso final

Michael Stuhlbarg deixou-nos a todos a desejar ser seu filho, ao protagonizar um dos monólogos mais emocionantes de que há memória, um comovente discurso sobre amor e aceitação.

Por esta altura já não devia ser novidade a capacidade que Luca Guadagnino tem de nos transportar sem dificuldades para os seus ambientes de sonho. Fê-lo em Io Sonno Amore e em A Bigger Splash, e consegue fazê-lo até nas situações mais inimagináveis, as de maior desconforto ou estranheza, que através do seu olhar se tornam relacionáveis, naturais, possíveis. Call Me By Your Name é um puzzle de peças que encaixam tão bem que durante as duas horas de filme consegues sentir o calor abrasador do norte de Itália e adivinhar o cheiro a pêssego que naquele verão de 1983 invadiu o ar.

Guadagnino acompanha a vida do protagonista com tanta intensidade que é como se a vivêssemos em primeira mão. Este seu dom raro é potenciado por um casting incrivelmente bem feito, com uma prestação o mais subtil possível da parte de Timothée Chalamet e e uma construção exímia da personagem de Michael Stuhlbarg. Importa contextualizar se ainda não viste o filme: Call Me By Your Name conta-nos a história do verão preguiçoso de Elio Perlman (Chalamet), passado na casa de férias da família na região da Lombardia, e interrompido pela chegada de um estudante norte-americano, Oliver (Armie Hammer), que vai trabalhar como assistente do seu pai (Stuhlbarg), um famoso professor especializado em cultura greco-romana. No meio do sol e da água, do calor e da fruta, Elio vive os dilemas do primeiro amor e da construção da uma identidade e sexualidade que aos 17 anos luta por se arquitectar.

Para o ajudar tem os seus pais, atentos, esclarecidos e de mente aberta que desde cedo se apercebem do seu fascínio por Oliver e o acompanham, sempre com muito apoio e poucos preconceitos. Se já ouviste falar de alguma cena específica de Call Me By Your Name é, das duas uma: ou o momento em que Elio se masturba com um pêssego, ou O Monólogo. A primeira, que não é um maraketing gimmick ainda que possa parecer a quem não viu o filme, também lhe concede o seu carácter mais orgânico, a imagem do amor como algo tão natural que podia nascer da terra, mas é a segunda que tem sido elevada a uma das melhores dentro do seu género. Trata-se de um momento de conexão profunda entre as personagens do pai e filho, no rescaldo de um romance que terminou mais cedo do que Elio gostaria. Mais do que um diálogo, é um monólogo emocionante sobre o amor e a aceitação incondicionais, suficiente para valer a Michael Stuhlbarg o (nosso) Óscar de Melhor Actor Secundário (ainda que o actor nem sequer esteja nomeado).

Vemos Elio imerso num purgatório emocional, no desgosto amoroso trazido pelo fim do Verão e pelo regresso de Oliver aos Estados Unidos, quando o pai o chama para uma conversa de sofá. Sem ultrapassar quaisquer limites, sem fazer suposições, imbuído de uma inteligência emocional rara que não deixa o filho desconfortável, a personagem de Stuhlbarg confessa que reparou na ligação intensa que o filho teve com Oliver. Não só não a julga como quer deixar sublinhado que a aceita e encoraja ― revelando até sentir alguma inveja por Elio, seu filho, ter encontrado alguém que o faça sentir tão absorventemente apaixonado.

Imagem da cena final do filme Call Me By Your Name

O discurso foi adaptado do romance de André Aciman, com o mesmo nome, por James Ivory. Foi brilhantemente escrito na história original e extraordinariamente adaptado ao grande ecrã. Para a interpretação de Stuhlbarg não há adjectivos que cheguem, ou desfibrilador cardíaco que nos salve. Em baixo podes ler o excerto do livro do escritor norte-americano com o discurso que Luca Guadagnino e o argumentista usaram quase palavra por palavra, tentando reproduzir fielmente até algumas das indicações cénicas deixadas por Aciman no livro. “His tone says: We don’t have to speak about it, but let’s not pretend we don’t know what I’m saying,” aparece, por exemplo, no romance e no argumento, garantindo que os actores espelham as sensações um do outro.

When you least expect it, Nature has cunning ways of finding our weakest spot. Just remember: I am here. Right now you may not want to feel anything. Perhaps you never wished to feel anything. And perhaps it’s not to me that you’ll want to speak about these things. But feel something you obviously did.

You had a beautiful friendship. Maybe more than a friendship. And I envy you. In my place, most parents would hope the whole thing goes away, to pray that their sons land on their feet. But I am not such a parent. In your place, if there is pain, nurse it. And if there is a flame, don’t snuff it out. Don’t be brutal with it. We rip out so much of ourselves to be cured of things faster, that we go bankrupt by the age of thirty and have less to offer each time we start with someone new. But to make yourself feel nothing so as not to feel anything ― what a waste!

Then let me say one more thing. It will clear the air. I may have come close, but I never had what you had. Something always held me back or stood in the way. How you live your life is your business. But remember, our hearts and our bodies are given to us only once. Most of us can’t help but live as though we’ve got two lives to live, one is the mockup, the other the finished version, and then there are all those versions in between. But there’s only one, and before you know it, your heart is worn out, and, as for your body, there comes a point when no one looks at it, much less wants to come near it. Right now there’s sorrow. I don’t envy the pain. But I envy you the pain.

No papel, o discurso soa muito literário ― apropriado para um académico como Perlman que estuda as antiguidades gregas, mas ainda assim difícil para qualquer actor de lhe conceder uma cadência orgânica. Stuhlbarg revelou em várias entrevistas que gravou o monólogo em dois tons distintos: um mais emocional e apaixonante; e outro, que agradece a Guadagnino ter usado, mais “directo.” No final, na boca de Stuhlbarg, as palavras de Perlman são poesia ― vestígios de uma existência resistida e uma verdadeira orientação para uma vida ainda não tocada pela sabedoria da idade adulta. 

Não nos podemos esquecer que a conversa se passa nos anos 80, o que mostra uma posição ainda mais iluminada de um pai que se vê confrontado com a homossexualidade de um filho. É que, se por um lado nos habituámos a imaginar o momento de revelação da homossexualidade com muita tensão, desconforto e, infelizmente, muitas vezes associado à falta de apoio e compreensão, esta cena, que é precisamente o oposto, nem por isso parece descabida ou impossível de acontecer. Parece, como tudo aquilo em que Guadagnino toca, uma realidade genuína, legítima ― o sonho realizável de todos os jovens gay e não só, de todos os que ficamos a desejar ter um pai assim.

A prestação poderosa de Michael Stuhlbarg afasta Call Me By Your Name do chavão tantas vezes pejorativo do cinema gay e consagra-o a um filme sobre amor e família — não sobre tolerância, mas sobre compaixão e ternura. Aquele que é o melhor discurso desta temporada e um dos melhores dos últimos anos na indústria pode ter passado ao lado dos Óscares mas o actor norte-americano ocupa uma posição rara. É o sexto actor na história a entrar em três dos nomeados para Melhor Filme no mesmo ano. Além da personagem que interpreta na produção italiana, Stuhlbarg tem papéis secundários em The Post e The Shape of Water.